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André Ventura. “Não há ninguém que lhe diga chega”

André Ventura. “Não há ninguém que lhe diga chega”

Bruno Gonçalves Ana Teresa Banha 05/05/2020 12:23

O Chega quer juntar-se com o PSD, CDS e IL para discutir uma proposta de confinamento específico para a comunidade cigana – que lhe responde.

A manifestação que juntou, este sábado, cerca de 200 pessoas na Figueira da Foz foi o ponto de partida para o anúncio feito, um dia depois, por André Ventura. Segundo os manifestantes, os protestos aconteceram devido à alegada inação que as autoridades locais têm tido perante atos de vandalismo realizados por uma família de etnia cigana, que, nos últimos dois anos, terá vindo a provocar estragos. Os manifestantes adiantaram que os danos têm sido provocados, por exemplo, em viaturas, que têm aparecido com os pneus furados.

Em declarações ao i, o líder do Chega afirmou que “os acontecimentos na Leirosa” davam razão ao partido, “que diz desde o início: a comunidade cigana acha-se acima das leis deste país e um sério problema de segurança pública”. Garantindo que o partido “compreende bem o estado de alma da população da Figueira da Foz”, André Ventura considerou “fundamental” a criação de um “plano de confinamento específico para a comunidade cigana que não aceita, maioritariamente, as regras sanitárias e de autoridade pública para a generalidade dos cidadãos”.

Com o objetivo de apresentar no Parlamento uma proposta comum sobre a matéria, André Ventura acrescentou que iria contactar o PSD, o CDS e a Iniciativa Liberal.

“Tudo no mesmo saco” Apesar de André Ventura querer “apresentar uma proposta comum no Parlamento já esta semana”, o convite para a discussão com os partidos da ala direita parece ainda não ter chegado – pelo menos, ao Grupo Parlamentar do CDS. “Não temos por hábito comentar propostas de outros partidos que não conhecemos sequer”, explicou ao i, o líder parlamentar centrista, Telmo Correia.

Recorde-se que, nas eleições autárquicas de 2017, os centristas romperam a coligação que tinham com o PSD em Loures após declarações de Ventura acerca da comunidade cigana.

Também fonte oficial da Iniciativa Liberal esclareceu que o partido “não vê grupos, e muito menos etnias, quando discute desenvolvimento de legislação – e o respeito por esta – que se aplica a todos os portugueses”.

Na opinião da ativista Olga Mariano, o líder do Chega “coloca tudo no mesmo saco” e está “a fazer um jogo que só no tempo do Hitler é que se fazia”. A mesma opinião é partilhada pelo presidente da União Romani Portuguesa, que lembra que “há ciganos reles e assassinos, mas há também pessoas muito sérias e não devemos meter tudo dentro do mesmo saco”. “Cada vez que falo de alguma pessoa da sociedade maioritária que comete um crime, eu falo no nome desse senhor, não falo no geral. E cada vez que um cigano comete um crime, este senhor fala dos ciganos – onde me está a incluir”, garante José Maria Fernandes.

“Ele esquece-se de que, por muito que ataque os ciganos, os ciganos são portugueses iguais a ele”, lembrou a representante da comunidade cigana na Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Social, sublinhando que, muitas vezes, os ciganos se sentem como “estrangeiros na própria terra”.

Sublinhando que a comunidade cigana é “desde sempre” discriminada, Olga Mariano conta que o discurso “de raiva” pelos ciganos é cada vez mais notório, principalmente, nas redes sociais, onde já leu comentários como “metemo-los a todos num barco roto” ou “eles não pertencem aqui”. “Arrasta pessoas iguais a ele que se formam em motim e arrasam por completo as comunidades ciganas existentes em Portugal”, garante a ativista, dizendo que “é muito fácil” um cigano ser “linchado” por causa de coisas que outros fizeram. “Já vivi alguns aninhos, e nunca me senti tão discriminada como agora”, confessa.

Olga Mariano diz ainda que, perante o discurso “destrutivo, racista e discriminatório” de André Ventura, “não há ninguém que lhe diga chega”.

Ao i, José Maria Fernandes confessa que gostaria de ter um debate com o deputado único, onde pudessem conversar acercas das questões relacionadas com a comunidade cigana, como, por exemplo, o trabalho. “Para ele os ciganos não trabalham e as feiras não são trabalho”, afirma, acrescentando que, como jurista, o líder do Chega “sabe perfeitamente que não dão trabalho aos ciganos”.

 

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