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Hostel evacuado na Morais Soares. “Estavam a crescer ali”

Hostel evacuado na Morais Soares. “Estavam a crescer ali”

Mafalda Gomes Ana Teresa Banha 22/04/2020 08:23

Comerciantes contam ao i que os moradores do hostel não são a causa do “ambiente pesado” da zona, mas muitas pessoas “mudavam de passeio”.

Na tarde deste sábado, o ponteiro dos relógios rondava as cinco horas quando um grupo de corredores fez da Praça do Chile a sua meta. No lado oposto da rua Morais Soares, o proprietário de uma loja de reparações de telemóveis assistia ao final “violento” da corrida. Através da montra, Saloman Naqui conseguiu perceber que, antes de travarem o “camisola amarela” em frente a um hostel, corriam atrás dele – e do telemóvel roubado que trazia na mão – “pelo menos sete pessoas”.

Apesar de não ter reconhecido o assaltante como um dos seus clientes, o proprietário do estabelecimento confessa que “alguns” dos moradores do hostel, que viria a ser evacuado na manhã seguinte devido a um caso positivo de covid-19, já recorreram aos seus serviços. As imagens da evacuação do hostel, que consegue avistar a partir do seu posto atrás do balcão, não o surpreenderam. Também não foi pela televisão que soube que os clientes do hostel eram requerentes de asilo. Os residentes do hostel que vão à procura de um telemóvel na sua loja referem a sua situação, por norma, para regatear. “Dizem-me que moram ali e que estão em situação de asilo, e pedem-me para pagar 100€ por um telemóvel que custa 120€”, explica o proprietário da loja, que há dois anos ocupa a esquina com a Morais Soares.

O paquistanês, que vive em Portugal há cinco anos, confessa que, ao longo dos últimos meses já se tinha questionado acerca do número de pessoas que viviam naquele prédio. “De cada vez eram mais 5, mais 10, mais 15 pessoas. Estavam a crescer ali”, diz sem disfarçar um sorriso.

É hora de almoço e o único restaurante aberto – ainda que com uma mesa à entrada para lembrar que agora não se pode pedir ao balcão – está escondido atrás das obras da estação do metro de Arroios, que não foram interrompidas. A intervenção, que dura há três anos, já deixava a churrasqueira Galifrango escondida antes da pandemia, mas agora as coisas pioraram. Lidório Gonçalves de Pina, um dos proprietários, conta que “desde que as pessoas viram na televisão” a evacuação do hostel ainda é pior. “A semana passada tinha 60 a 70 clientes por dia, agora tenho uns 10 ou 20 clientes”. O restaurante fica a poucas portas de distância da entrada do hostel e há poucos meses Lidório ainda via alguns turistas ali hospedados, mas “desde mais ou menos fevereiro que os mandaram embora”.

Tal como Saloman Naqui, que os via “à janela e à porta do hostel”, também o proprietário da churrasqueira ouvia os residentes do hostel quando se juntavam à porta do prédio.

A poucos passos, à porta do restaurante Foguete, dois clientes habituais esperam pelo almoço junto ao novo balcão improvisado – uma mesa, à semelhança do que acontece na churrasqueira vizinha. “As pessoas tinham que mudar de passeio, era uma confusão para passar por ali”, explica o proprietário. Ressalva que nunca viu qualquer dos residentes “a fazer mal às pessoas”. “Mas o ambiente e o aspeto não era favorável”, reconhece.

Também Luís Lopes assistiu à fuga que terminou à porta do hostel no sábado. “E, no domingo, quando chego aqui às 8h, vi a Polícia Municipal, depois os bombeiros e depois o INEM. E disse: ‘Será o mesmo caso?’”.

Ao i, fonte do Comando Metropolitano de Lisboa da PSP explicou que esta terça-feira ainda não tinham sido feitos os testes às forças de segurança presentes nas operações de realojamento dos refugiados infetados com covid-19, que foram transportados para a Base Militar da Ota. “Disseram-nos que vamos fazer os testes do covid-19, mas não sabem quando”, explica a mesma fonte.

“Ambiente pesado” não é de agora Apesar de reconhecer que “o ambiente estava mais pesado” nos últimos tempos, o proprietário do estabelecimento explica que o ambiente de insegurança não é de agora e que, não só na Praça do Chile, como noutros sítios da zona há ajuntamentos que podem gerar insegurança. “Há senhoras que não gostam”, acrescenta.

O “ambiente pesado” nas ruas circundantes à Morais Soares que Luís Lopes descreve fizeram com que se dirigisse à polícia por duas vezes no verão. Também à polícia se dirigiram os outros dois comerciantes, em alturas distintas. A churrasqueira de Lidório, que trabalha ali há 45 anos, foi assaltada na noite do domingo de Páscoa. “Levaram-me 60€”, conta do lado de lá do seu balcão improvisado. Também Saloman Naqui, embora esteja nas redondezas há muito menos tempo, já se viu envolvido num episódio de violência: estava a entrar no seu estabelecimento quando lhe apontaram uma faca.

 

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