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Comando devastado

Comando devastado

Ricardo António Alves 13/04/2020 23:05

Greg e William Vance são dois dos maiores nomes da BD franco-belga. Referi-los é o mesmo que nomear Achille Talon, Bernard Prince, Bob Morane, Comanche, Olivier Rameau, XIII– e até Spirou e Fantásio

Personagem criada por Greg e William Vance em 1967, sob os auspícios da Guerra Fria, Bruno Brazil, homem de missões impossíveis, agente do WSIO (World Security International Office), chefiado pelo Coronel L. (Lazarus D. Walsh), aparece ainda muito ligado aos clichés jamesbondianos; cedo, porém, vai largando os lugares-comuns da espionagem, com as narrativas a decorrerem num pathos de angustiosa conspiração e contornos mais difusos, em que a política dos dois blocos é “apenas” o cenário em que tudo se move. Um dos atrativos da série é a chamada Brigada Caimão, um comando que Brazil lidera, constituído por elementos de inusitada ou duvidosa proveniência, artistas de circo, cadastrados, vigaristas...

Greg e William Vance são dois dos maiores nomes da BD franco-belga. Referi-los é o mesmo que nomear Achille Talon, Bernard Prince, Bob Morane, Comanche, Olivier Rameau, XIII – e até Spirou e Fantásio, e Tintim (o argumento de Tintim e o Lago dos Tubarões pertence a Greg); ou Marshal Blueberry, desenhos de Vance, a convite de Giraud, que assegurava os argumentos após a morte de Charlier... Pegar numa série emblemática, saída das mãos de autores deste coturno, é sempre um risco, daí que não haja propriamente avanços, ou talvez seja ainda cedo para tal. Quando Greg se transfere para os Estados Unidos, assegurando a direção local da editora Dargaud, precisou acalmar a produção infrene que a imaginação lhe oferecia. Por isso, em Tudo ou Nada para Alak 6 (1977) faz dizimar metade da Brigada Caimão, numa missão em Madagáscar, o que dá aos autores destas Novas Aventuras de Bruno Brazil ensejo a não deixar tudo na mesma, mesmo mantendo fidelidade ao cânone.

Laurent-Frédéric Bollée (Orleães, 1967) situa o tempo da ação nos meses após a carnificina naquela grande ilha do Índico. A tragédia está ainda fresca neste primeiro álbum, intitulado Black Program. Bruno faz psicanálise; mas o Coronel L. depara-se com o desaparecimento (ou fuga?) de um cientista da NASA, autocobaia da experiência de injeção no próprio ADN de gigas de informação sensível, circunstância que faz dele uma base de dados classificados ambulante. A segurança do Estado requer a recomposição do que sobrou do comando: Gaucho Morales, alguém que gosta de viver a vida, mesmo que de forma pouco ortodoxa, o único que parece ter saído incólume da catástrofe, a palpitante Whip Rafale, agora paraplégica, e o problemático Tony o Nómada, trupe de pós-traumatizados com que Bruno Brazil terá de contar. Philippe Aymond (Paris, 1968) é um desenhador de méritos firmados, coautor de Lady S., outra série em torno de serviços secretos, com argumento de Van Hamme, e passagem por Lisboa. Aymond não se “livrou” totalmente de Vance, mas tem estofo para tal. Os dados estão, assim, lançados, e entre mistérios, traumas, atentados e dramas pessoais, sabemos ainda muito pouco ao fim deste primeiro tomo. À boa maneira das revistas semanais de BD, (continua), pois claro!

Bruno Brazil – Black Program – t. 1

Texto: Laurent-Frédéric Bollée

Desenhos: Philippe Aymond

Edição: Le Lombard, Bruxelas, 2019

Edição portuguesa: Gradiva, Lisboa, 2020

BDTECA

Cascão lava as mãos E a covid-19 fez o milagre. Cascão, o rapaz mais sujo da Turma da Mônica, ultrapassou a aversão à água, em nome da saúde de todos. O feito pode ser comprovado gratuitamente no sítio desta patota que acompanhou o crescimento de muitos de nós: Turma da Mônica – Lavar as Mãos Salva Vidas, Maurício de Sousa Editora, 2020 – http://turmadamonica.uol.com.br/ 

No feminino O número de mulheres na BD é já muito significativo. Florence Dupré la Tour, de quem voltaremos a falar, em Pucelle (edição Dargaud) aborda com humor os interditos sexuais no contexto familiar, em que, para as crianças, o corpo só existia da cintura para cima: os eufemismos, as tangentes e os tropeções quando aparece um elefante na sala – o sexo, é evidente.

Cascão, outra vez Quando as produções de Maurício de Sousa pareciam ter entrado num ramerrame – mais de meio século a produzir historinhas é obra –, eis que, em 2012, alguém por lá teve a ideia de propor a releitura daqueles universos, convidando gente de fora e, em especial, autores jovens. Deu-se assim início à coleção Graphic MSP, e os resultados não poderiam ter sido melhores. Em Cascão – Tormenta, de Camilo Solano (Panini. São Paulo, 2020), vemos a ida contrafeita, por uns dias, do rapaz sujinho para casa de um tio, no interior rural. Ao contrário do aborrecimento previsto, Cascão irá descobrir mundos insuspeitados. 

 

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