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Agenda de investigação e inovação em transportes

Agenda de investigação e inovação em transportes

Rosário Macário 31/03/2020 09:28

Vivemos uma crise mundial que nos traz, infelizmente, bons exemplos da importância dos transportes na vida de um país e de uma cidade ou de uma área metropolitana.

A Agenda Europeia para a Investigação e Inovação apresentou, em 2018 [COM(2018) 306 final], um conjunto de ações com o objetivo de melhorar a capacidade de inovação europeia e conseguir a liderança em alguns domínios científicos.

A preocupação central foi, e ainda é, o facto de a Europa ter um défice significativo de inovação, com as empresas europeias a investirem muito menos em inovação do que as suas congéneres noutros países (em média, 1,3% do PIB, comparado com 1,6% da China, 2% dos Estados Unidos da América, 2,6% do Japão e 3,3% da Coreia do Sul). Também a disponibilidade de capital de risco na Europa é cerca de um terço dos EUA. A primeira consequência deste subdesenvolvimento é a fuga das empresas para os locais onde o ecossistema de inovação lhes é mais favorável. Portugal aparece no meio da tabela, com o investimento global em investigação e desenvolvimento de 1,32% do PIB em 2017, claramente abaixo da média europeia, de 2,08%.

Inovação e investigação são duas faces da mesma moeda, o motor de desenvolvimento de qualquer país ou região. A tecnologia e a digitalização assumem um papel muito relevante neste processo, e a falta de competências em digitalização é também um problema. A Comissão Europeia argumenta que para reverter esta situação é necessário um investimento substancial em investigação tecnológica e científica, criação de ambientes de negócio menos adversos ao risco e preparação do cidadão para os processos de transição. A agenda europeia propõe seis ações, nomeadamente:

• Garantir o investimento público essencial e estimular o investimento privado;

• Adequar o enquadramento regulamentar às necessidades do desenvolvimento da inovação;

• Colocar a Europa em posição liderante no mercado da criação de inovação;

• Promover a rápida divulgação da inovação e a respetiva adoção na União Europeia;

• Estabelecer missões de investigação;

• Investir em competências de empreendimento e interdisciplinares, e integrar estes valores nas universidades e nos vários níveis de ensino.

Não é difícil entender que os transportes estão presentes em todas estas ações genéricas, mas com particular incidência no que à mobilidade urbana respeita, não só na tecnologia, mas também nos processos, nas novas formas de regulamentação, no impacte sobre os cidadãos, no impacte sobre as cadeias de distribuição de mercadorias, etc.

Vivemos neste momento uma crise mundial que nos traz, infelizmente, bons exemplos da importância dos transportes na vida de um país e de uma cidade ou de uma área metropolitana.

Não obstante este entendimento e uma clara constatação de forte dinâmica no setor da mobilidade urbana em Portugal, não temos uma agenda para a investigação e inovação nos transportes. A Fundação de Ciência e Tecnologia lançou, em 2016, 15 agendas temáticas de investigação, mas não dedicou nenhuma dessas agendas aos transportes. Em vez disso, os transportes aparecem fragmentados nas várias outras agendas temáticas. É sabido que esta fragmentação prejudica a criação e o entendimento da existência de um ecossistema de inovação dedicado ao setor. Sendo certo que os transportes surgem de forma resiliente em quase todas as outras agendas temáticas, esta fragmentação prejudica fortemente o desenvolvimento de inovação no setor.

Aparece agora, pela mão do Instituto Europeu de Inovação e Tecnologia (EIT), a criação da iniciativa EIT – Urban Mobility, com uma agenda de inovação e investigação ambiciosa que visa transformar a mobilidade urbana, tornando as cidades espaços de melhor qualidade de vida, com um cofinanciamento do EIT (uma unidade da União Europeia) até 400 milhões de euros para o período de 2020 a 2026, renovável por igual período.

A Universidade de Lisboa, numa estratégia claramente empreendedora e inovadora, toma parte nesta iniciativa, na qualidade de parceiro principal (core partner), e desta forma abre a possibilidade a empresas e outras entidades públicas e privadas a entrarem neste processo e participarem de projetos de implementação de inovação nos transportes.

É certo que não temos a agenda de inovação e investigação que deveríamos ter em Portugal, mas temos agora uma oportunidade a não perder.

Quem não tem cão caça com gato!

 

Professora e investigadora em transportes
Departamento de Engenharia Civil, Arquitetura e Georrecursos do Instituto Superior Técnico

 

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