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Da velha estante: o regresso de Tomahawk Tom

Da velha estante: o regresso de Tomahawk Tom

Ricardo António Alves 23/03/2020 19:04

Tomahawk Tom é uma curiosa personagem da BD portuguesa, criada por Edgar Caygill (!), cujas aventuras foram publicadas no Mundo de Aventuras, Condor e Jornal do Cuto. Cowboy mestiço, filho de uma cheyenne, tem todas as qualidades do herói positivo; sem defeitos, seria figura demasiado plana, não fora essa miscigenação étnica que permite o contacto entre os dois maiores antagonistas deste universo: os colonos, invasores europeus, secundados pelo exército norte-americano, e as nações indígenas. A dupla pertença é-lhe, aliás, constantemente apontada, normalmente sob a forma de insultos, como “meia-casta”, a que ele normalmente dá de ombros, com fleuma. Acompanha-o Jacky, um adolescente resgatado ainda criança num acampamento em que decorrera o massacre dos progenitores perpetrado por índios.

Este “Caygill” é um pseudónimo conjunto de Roussado Pinto (1926-1981?), um dos figurões do pulp lusitano (o célebre Ross Pynn), e do seu desenhador, Vítor Péon (1923-1991), um dos nomes de referência dos quadradinhos portugueses em meados do século passado.

Em O Regresso de Tomahawk Tom - Tempestade em Dakota Sul, Péon encarrega-se também do texto. A história aborda os normais tópicos do western: neste caso, o início da construção da linha férrea transcontinental, ligando os Estados Unidos costa a costa; a primeira companhia a concluir o traçado que lhe fora cometido ganharia um prémio atribuído pelo Governo. Pistoleiros e tiroteio, sabotagem, ciladas, caçadores de bisontes, índios sioux, a cavalaria, todos estes motivos de coboiada aqui comparecem. A fuga ao clichê, para além da condição étnica do protagonista, é a circunstância de se tratar de um Indian-friendly western, consagrado já noutras partes e media, como no cinema, máxime O Soldado Azul (1970), de Ralph Nelson, com a inesquecível música de Buffy Sainte-Marie.

A narrativa é fluida e o desenho extraordinariamente dinâmico, não sendo perfeccionista. No geral, estamos uns furos abaixo de um Blueberry a que Péon, em nossa opinião, foi beber, ou não o considerasse Jean Giraud, num pequeno ensaio que escreveu, como “um dos maiores, senão o maior autor de BD western […] não só da Europa, mas também da América” (“A Banda Desenhada como Arte”, 1979).

Edição do autor, com uma tiragem de dez mil exemplares, foi um flop comercial, inviabilizando outras séries que Péon aí anunciava: Sax, um corsário com paixão pela leitura, e O Reverendo Benedict Jr., cujas frases heterodoxas prenunciam as tiradas do nosso já conhecido Undertaker: “Será mais fácil a um homem justo passar pelo fundo de uma agulha do que a um homem mau escapar à mira do meu Colt!!!”

Escorreita BD western, O Regresso de Tomahawk Tom tem certamente um lugar numa biblioteca básica da BD portuguesa.

O Regresso de Tomahawk Tom – Tempestade em Dakota Sul

Texto Vítor Péon

Desenho Vítor Péon

Editora Edição do autor, Lisboa, 1975

 

BDTECA

A Viagem de Abel Também edição de autor, em 2014, foi este Le Voyage d’Abel, texto de Isabelle Silvain e desenhos de Bruno Duhamel. Camponês, único habitante de uma aldeia francesa, Reclesme, prisioneiro da terra, Abel tem o sonho de conhecer o mundo, aspiração partilhada com o cão e o trator. Uma beleza pura, agora reeditada pela Grand Angle.

Zé do Telhado Contado por Camilo Castelo Branco nas Memórias do Cárcere (1862) e cantado por José Afonso no álbum Fura Fura (1979), posto na tela pela primeira vez por Rino Lupo (1929), vendido nas feiras por esse país fora em literatura de cordel, o sargento de lanceiros condecorado por bravura com a Torre e Espada, bandoleiro salteador, deportado para Angola, onde viria a morrer, José Teixeira da Silva, mais conhecido por Zé do Telhado (1818-1875), vê agora a sua vida em BD por Eugénio Silva: Zé do Telhado - De Lanceiro a Salteador (Calçada das Letras).

Billy the Kid. E já que falamos de bandidos, completemos o círculo e voltemos ao Oeste, com um dos mais coriáceos outlaws daquelas terras sem lei, William Bonney (1859-1881), nascido, quem o diria, na ilha de Manhattan, e não em qualquer cidadezinha sem lei a oeste de Pecos. Na coleção West Legends, depois de Wyatt Earp, a legenda do pistoleiro celebrizado por outro xerife, Pat Garrett, o homem que o matou e depois arranjou um ghost writer para lhe fazer a biografia. Este álbum, editado pela Soleil, relata a participação de Billy numa dessas muitas guerras particulares provocadas por interesses contraditórios: a Guerra do Condado de Lincoln, pomposa designação para uma escaramuça de sicários, que opôs comerciantes a fazendeiros, de que se fez a história da grande nação americana.
 

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