18/2/20
 
 
Manuel J. Guerreiro 31/01/2020
Manuel J. Guerreiro

opinião@ionline.pt

O novo aeroporto complementar de Lisboa

Enquanto alguns políticos de certos partidos que por cá andam aos gritos em fait divers pouco edificantes, há outros que se preocupam a sério com aquilo que verdadeiramente interessa aos portugueses, tentando chamar à atenção dos cidadãos e das instituições democráticas para estas decisões políticas governativas que podem ter consequências incalculáveis para o bem comum de todos nós.

No meio da histeria política em que o país parece ter mergulhado com discussões extremadas e em periclitante ambiente de violência verbal, à esquerda e à direita, sobre assuntos de importância zero para a vida das pessoas em geral, tivemos conhecimento, na passada semana, de uma decisão ambiental que não surpreendendo absolutamente ninguém, trará consequências potencialmente gravosas para todos os contribuintes e utentes, caso um tal disparate, irreversivelmente, se venha a consumar.

A Agência Portuguesa do Ambiente (APA) emitiu, favoravelmente, a sua declaração de impacte ambiental final relativa ao novo aeroporto de Lisboa, no Montijo. Porém, tal decisão favorável é condicionada, mantendo-se o quadro anteriormente diagnosticado no âmbito da avaliação de impacte ambiental relativamente às cerca de 160 medidas de minimização e compensação que a Aeroportos e Navegação Aérea de Portugal (ANA) terá de dar cumprimento e que implicam um valor estimado na ordem dos 48 milhões de euros.

Do que se retira da leitura de tão seríssima e verdejante decisão da APA, tais minudências passam, entre outras, pela aquisição de salinas "numa área total mínima idêntica à área sujeita a perturbação forte que o aeroporto irá provocar". Bem como, pela compra de terrenos aos felizardos vendedores que convinha desde já verificar quem são e desde quando. Prevendo-se também a celebração de contratos de gestão, ou ainda, a aplicação de outras medidas compensatórias "por perca de produtividade nos campos agrícolas na Lezíria do Tejo", leia-se, atribuição de subsídios - não se sabendo nada sobre quando, quanto e de que forma - aos proprietários e exploradores desses mesmos terrenos agrícolas.

Tudo isto, para além dos muitos milhões de euros que custará uma inevitável terceira travessia (ferroviária), cuidadosamente não incluída nesta fase para não assustar a malta com o balúrdio desse investimento público que ligue, decentemente, a cidade de Lisboa ao respectivo novo aeroporto complementar à Portela cuja única coisa garantida neste momento é uma pista de descolagem / aterragem tão curtinha e perigosa que nem sequer permite a utilização de toda a frota da Ryanair. Não sendo, pois, de excluir a possibilidade objectiva de algum voo terminar por águas-a-dentro...

Extraordinário!

Não obstante tais nuances financeiras insignificantes e outros aspectos técnico-ambientais sem importância, como por exemplo as limitações horárias do tráfego aéreo que será totalmente proibido entre a meia-noite e as seis da manhã e condicionado a 2983 movimentos anuais (gosto particularmente deste número exacto que a ciência "ambientalista" determinou) entre as onze da noite e a meia-noite e entre as seis e as sete da manhã, logo no ano de 2022, data estimada para que o aeroporto esteja totalmente operacional - descontando, portanto, as habituais derrapagens financeiras e atrasos de execução de obra que, tal como a precisão de um relógio suíço, atingem todas e quaisquer grandes obras públicas portuguesas -, a ANA terá de adquirir dois navios eléctricos para transporte de passageiros por forma a assegurar, em regime de exclusividade, “o aumento da oferta de transporte fluvial entre Lisboa e o cais do Seixalinho". Sendo igualmente necessário assegurar o transporte de acesso entre o cais do Seixalinho e o aeroporto do Montijo através de "um serviço tecnologicamente evoluído e eficiente, tendo por base veículos eléctricos ou a hidrogénio de emissões muito baixas ou nulas, tendo em conta a maturidade das tecnologias”. Já quanto à ligação do aeroporto à ferrovia de Lisboa Gare do Oriente e à estação do Pinhal Novo, diz o documento, que terá de se “estudar a criação de algo do tipo shuttle, i.e., autocarros, naturalmente de tecnologia ‘eco-friendly’.

Todo um caderno de encargos tecnológico recheado por uma dose considerável de loucura que mereceu a radiante luz verde de tão idónea agência lusitana do ambiente para satisfação plena do Governo, curiosamente, liderado pelos mesmos que há uns anos se batiam ferozmente contra o Montijo - o famoso "deserto" de Mário Lino - e defendiam com garras e dentes a OTA, pretendendo fazer de nós todos, portugueses, uns perfeitos otários, lembram-se?

Aliás, chegando-se ao ponto de se usarem desesperados argumentos (de razão muito pouco terrena...) como aquela célebre tirada do Dr. Almeida Santos sobre a problemática da localização do novo aeroporto no Montijo se prender com a necessidade de haver pontes sobre o Tejo e que tanto o inquietava pelo fundamentado receio que tinha de alguém poder, a qualquer momento, "dinamitar a ponte Vasco da Gama", já que a outra era mais ou menos indiferente, pois, apesar do bonito nome que tem, não deixa de ser um marco do Estado-Novo e nem serve directamente o Montijo...

Passados todos estes anos e perante o que está para acontecer, sou levado a ter de concordar com Almeida Santos quanto à questão de fundo por si levantada. É, de facto, necessário haver pontes sobre o Tejo, neste caso ferroviária, para que haja um aeroporto na margem sul minimamente competitivo face a outras opções na margem norte. Não por força de uma mirabolante dinamitação das actuais, mas simplesmente, pela necessidade de construção de uma nova que ligue rapidamente Lisboa ao aeroporto, mantendo a cidade altamente competitiva relativamente às suas congéneres capitais europeias.

Ora é por tudo isto que Alverca se afigura como a melhor opção. Alverca tem o que o Montijo não pode ter sem custos astronómicos associados e perfeitamente desnecessários. Ao contrário do Montijo, Alverca tem tudo incluído. Mais e melhor ambiente, mais e melhor segurança aérea, ligação ferroviária existente e mesmo que intervencionada e desejavelmente melhorada, será sempre uma solução muitíssimo mais barata e comportável aos cofres do Estado, ou seja, ao dinheiro dos contribuintes. E que, acima de tudo, servirá melhor todos os passageiros.

Como está bem de ver, não é necessário ter mestrados nem doutoramentos na matéria para se perceber o óbvio.

Enquanto alguns políticos de certos partidos que por cá andam aos gritos em fait divers pouco edificantes, há outros que se preocupam a sério com aquilo que verdadeiramente interessa aos portugueses, tentando chamar à atenção dos cidadãos e das instituições democráticas para estas decisões políticas governativas que podem ter consequências incalculáveis para o bem comum de todos nós.

Quando um dia destes tiverem de se levantar às quatro horas da madrugada para apanhar um voo às sete da manhã, depois de fazerem a viagem de comboio, metro, barco e autocarro até chegarem ao aeroporto e, no regresso, terem de repetir a dose, para além da possibilidade técnica de poderem aterrar no rio, irão perceber que, se calhar, teria sido bom estar na primeira linha do combate a esta idiotice.

Talvez seja tarde!

 

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