27/2/20
 
 
António Galamba 27/01/2020
António Galamba

opiniao@newsplex.pt

Bufo Leaks

Quem está habituado a anunciar, em 2019, a existência de jornalistas e políticos pagos por um saco azul da órbita do BES, sem que em 2020 se saiba quem eram os avençados, pode tudo; mas os exigentes, não.

A realidade é complexa. Quem se confronta com a realidade tem de ter a ambição de abordar a complexidade com exigência. A exigência transporta consigo cuidados de legalidade, de visão periférica e de avaliação dos meios para a prossecução dos fins, da existência de causa-efeito e de outras premissas da vida em comunidade, no quadro de um Estado de direito democrático.

A efervescência digital e mediática é facilmente tomada por euforias parciais, espasmos de indignação e outras expressões maiores de esforços mais ou menos articulados para tentar distrair a atenção da realidade.

Os Estados não funcionam na suas funções de fiscalizar o cumprimento da legislação. Promova-se o regresso da bufaria, agora sob a forma digital, para a bem da comunidade divulgar alegados documentos particulares, parciais e amiúde truncados para sustentar as narrativas pretendidas.

Portugal foi fustigado por Salazar e por bufos durante demasiado tempo para poder ter a pretensão de dar cobertura à regeneração da espécie, agora sob a égide digital, a coberto de pretensos interesses justiceiros, sempre seletivos e prontos para servir uma história mediaticamente vendável.

Os mesmos que, no Estado de direito, foram ilibados várias vezes da condenação por a prova produzida não ter sido obtida nos termos da legislação, lançam-se em vários suportes de comunicação como os mais afoitos apologistas da rapina digital, da truncagem digital e de uma nova ordem social em que os fins justificam todos os meios.

É vê-los com uma inusitada desfaçatez, lata mesmo, a idolatrarem piratas informáticos, a idolatrarem quem idolatra os piratas informáticos, como se não tivessem razões maiores para se preocuparem com os piratas que têm lá por casa, pelos erros próprios e por uma vertigem padronizada de coação a que nem escapam os próprios treinadores e jogadores.

Que quem está habituado a fustigar o Estado de direito com reiteradas violações do segredo de justiça e da presunção de inocência o faça, isso corresponde a um padrão que só é invertido quando toca aos próprios e às redomas corporativas do exercício jornalístico; mas os exigentes, não.

Quem está habituado a anunciar, em 2019, a existência de jornalistas e políticos pagos por um saco azul da órbita do BES, sem que em 2020 se saiba quem eram os avençados, pode tudo; mas os exigentes, não.

Os exigentes questionam por que razão um Putin, um Maduro, um Kim Jong-un ou um Orbán não são objeto de um leaks qualquer, por que razão sai um leaks de Isabel dos Santos e se deixa tantos outros de fora ou por que carga de água não há leaks sobre tantos negócios lesivos da salvaguarda dos interesses estratégicos nacionais que povoam as nossas realidades.

Os leaks são os bufos da era digital, orientados, parciais e sintonizados com a volatilidade dos nossos dias. Servem para preencher ambições próprias ou alheias, tempo de emissão mediática, e gerar as perceções gerais pretendidas. São o triunfo da ausência de valores, de escrúpulos e de respeito pelas esferas de personalidade dos outros, o supremo elixir de “os fins justificam todos os meios”. A deriva é tal que aparentemente, em desespero, já haverá leaks que surgem para alentar alguma esperança de credibilidade a outros alegados leaks em que os piratas estão em julgamento judicial.

O comovente esforço de associação de leaks, dos posicionamentos dos média e do comportamento das autoridades perante as divulgações para entronizar o perpetrador dos alegados crimes é um exercício confrangedor de desespero. Não há comparação entre a condição de vida miserável de parte do povo angolano por delapidação de recursos nacionais e a miserável condição desportiva de quem falha reiterados penáltis num jogo que perde, não observa o fair play financeiro e persiste em ataques aos outros sem fazer o trabalho de casa que lhe compete.

Vivemos tempos complexos, em que as respostas simples não existem, a consistência da informação impõe a adequada triagem e são precisos pilares que sustentem padrões de valores, modelos de organização, poder de escrutínio e capacidade de fiscalização consequente que construam as abordagens adequadas. Se a realidade é complexa, as respostas têm de ser complexas. Sem entorses, visões parciais ou narrativas enviesadas para tentar justificar o injustificável.

Daqui a apenas quatro anos perfazemos 50 de democracia. Era bom que se fizesse um debate sobre o caminho percorrido, as conquistas e as derrotas, sem clubites e com um sentido prático que apontasse caminhos para fazer o que ainda não foi feito e o que precisa de ser feito perante desafios comunitários nacionais, europeus e globais. Pode ser pedir demais para quem está preocupado com a manutenção da quintinha, a subsistência da narrativa própria ou o quotidiano, mas um país tem de ser mais em todas as instâncias.

Estas dimensões digitais, plenas de oportunidades mas também de riscos, podem não ser prioritárias, mas são demasiado importantes para as nações para que demasiados estejam alheados dos novos riscos existentes, com relevância para vastas áreas estratégicas e de segurança nacional.

Em apenas quatro anos teremos 50 de vivência democrática. Era só o que faltava que, mesmo no plano digital, estivessem de regresso os bufos.

 

NOTAS FINAIS

DESPERTARES. De vez em quando, despertamos. Foi assim com os incêndios florestais, é assim com o Luanda Leaks, como se nunca tivéssemos sabido o que estava em causa. É quase tão inacreditável como a gelatinosa voragem de demarcação de Isabel dos Santos por quem se encantou pelo despudorado exercício de parasitar junto ao poder do dinheiro. Agora que sai das participações que tinha em Portugal, é só esperar pelos próximos donos disto quase tudo.

ADORMECERES. Fingir que se está a dormir: Portugal tem uma legislação sobre combate ao branqueamento de capitais e ao financiamento do terrorismo desde 2017 que obriga o setor financeiro e não financeiro a averiguar se as pessoas envolvidas em transações em numerário são pessoas politicamente expostas (PEP). As contraordenações são pesadas, pode haver inibições de atividade, mas a fiscalização é ténue e lenta. Há soluções informáticas para facilitar o cumprimento da lei, mas o registo é de adormecimento. Até ao dia de um daqueles despertares coletivos, como se não fosse do conhecimento geral não se estar a fazer tudo o que se devia.

DELÍRIOS. É inacreditável o que está a acontecer entre a atual liderança do PS e os sindicalistas do PS na UGT. É não ter memória do papel dos sindicatos na história e na ação do PS, não ter um mínimo de sentido institucional e achar que o atual poder sustentado em parceiros de ocasião parlamentar se pode sobrepor a pilares da vida interna e da sociedade. Quem age dessa forma não tem condições para o exercício institucional de cargos de representação de todos os militantes.

 

Escreve à segunda-feira

 

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