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Fernando Sampaio. “O nosso sofrimento só nos mete pavor quando é absurdo”

Fernando Sampaio. “O nosso sofrimento só nos mete pavor quando é absurdo”

Bruno Gonçalves Marta F. Reis 08/12/2019 13:12

Capelão hospitalar há 33 anos, a missão tornou-o mais grato pela vida e mais atento aos outros. Fala da fé que se encontra nas enfermarias e da dor que precisa de ser escutada. E de quem a escute.

Em 1986 respondeu à chamada para ser capelão hospitalar do IPO de Lisboa e nove anos depois vestiria a bata no Santa Maria. Passaram 33 anos de uma vida dedicada ao acompanhamento espiritual nos hospitais, ao lado do sofrimento e da reconciliação com a vida e com a fé. Conversámos com Fernando Sampaio, coordenador nacional das capelanias hospitalares e capelão hospitalar do Centro Hospitalar Lisboa Norte, que além do Santa Maria integra o Hospital Pulido Valente e que esta semana acolheu uma conferência sobre cuidados de saúde e espiritualidade, num ano em que se celebra uma década da lei que em 2009 reconheceu a assistência espiritual e religiosa no SNS como uma “necessidade essencial” dos doentes. Está no papel, mas ainda não chega a todos, diz. Numa altura em que a eutanásia está de novo em debate no Parlamento, receia que o direito de pedir a morte se torne uma obrigação numa sociedade onde o fim de vida é tabu e o acompanhamento e os cuidados paliativos são insuficientes. 
 
Anda de bata no hospital. Foi assim desde o início, para se misturar com os outros cuidadores?

Sim, foi. Primeiro, nos nove anos no IPO, que foi onde comecei em 1986, nem um ano depois da minha ordenação.

Porque o mandaram para lá?
Foi por acaso. Era necessário substituir o capelão. Na altura, o coordenador era o padre Feytor Pinto, que perguntou se estaria alguém disponível para uma capelania, e eu respondi.

Tinha que idade?
29 anos. 

E já estava cá em Lisboa?
Sou de Felgueiras. Entrei no seminário de uma ordem religiosa, a Congregação da Missão dos padres de São Vicente de Paulo. Comecei o curso de Teologia no Porto e vim para Lisboa no terceiro ano, depois fiquei por cá. Tive dois anos de pausa antes de ser ordenado.

Imaginou que iria para uma paróquia...
Sim, o normal seria ir para uma paróquia ou então para missões – tínhamos várias comunidades em Moçambique, era uma possibilidade. Mas depois surgiu o IPO.

Que imagens guarda desse primeiro contacto com o hospital? Era um ambiente que conhecia?
Tinha tido algumas experiências de ir ao hospital, de visitar doentes, amigos. Sempre me meteu muito respeito. O sofrimento mete sempre muito respeito. Para mim, as pessoas que mais respeito me metem são aquelas em que o sofrimento é mais dramático, que por vezes vejo até inconscientes. Torcem-me o coração, não no sentido de perguntar porquê tanto sofrimento, mas de perguntar o que posso fazer para aliviar um pouco, ajudar aquela pessoa, estar com ela. É isso que me move.

No IPO, sendo o cancro uma doença grave, nunca pensou na injustiça, nunca se revoltou contra Deus?
Não. Foi uma questão que tive sempre de elaborar dentro de mim. Naturalmente, ouvia isso das pessoas muitas vezes, mas o meu sentimento não era esse. A razão das coisas não está aí. Temos sempre de encontrar uma razão para as coisas e a minha relação com Deus, desde criança, era muito bonita. Nunca tive a noção de Deus castigador, sempre tive a noção de Deus-amor. O modo como a minha mãe me transmitiu a fé era esse.

Pouco habitual à época?
Sim, era, mas o modo como ela falava sobre Deus, sobre os santos, sobre padres, a alegria com que o fazia, sempre me transmitiu esse Deus-amor e, portanto, para mim, a doença não era um castigo de Deus, por isso tinha de encontrar a resposta. E encontrei posteriormente.

Que resposta encontrou?
A resposta é simples. Sofremos porque é a nossa condição humana. O nosso corpo é frágil, vulnerável. Somos terra – a palavra homem quer dizer humus, terra. O grande problema é perceber para que serve o sofrimento. O nosso sofrimento só nos mete pavor quando é absurdo, quando não serve para nada. Quando uma mãe dá à luz sabe para que serve o sofrimento; quando andou na faculdade, a dor de barriga que sentia face aos exames, sabia para que servia. Quando percebemos para que serve, damos um sentido ao sofrimento.

Mas no contexto da doença, como perceber o sentido do sofrimento?
Entramos no campo da espiritualidade, da procura de um sentido para a vida. Descobrimos que a nossa vida é mais do que o sofrimento e o importante é saber integrar o sofrimento e a doença no contexto do sentido da vida. Uma vez encontrei aqui um cavalheiro em fase terminal devido a um cancro e a certa altura diz-me: “Bendita doença que eu tive”. E eu perguntei-lhe: “Bendita porquê?” Fez-me soar a campainha. A doença tinha-o feito transformar a sua vida. Tinha uma empresa e vivia para a empresa, não ligava à família. Com a doença, descobriu a família e o valor dos afetos. E descobriu também a fé. A doença foi um motivo para dar um novo sentido à sua vida.

A maior parte das pessoas que encontra conseguem fazer esse caminho?
Sim. No IPO via muitas vezes pessoas num estado avançado da doença que morriam quando perdiam a esperança. Pelo contrário, às vezes, ver nascer um neto ou a realização de um sonho que tinham prolongava-lhes a vida. Uma vez, um doente que acompanhei no IPO durou mais quatro dias para ser batizado. 

Fala de momentos de fim de vida, mas ao longo de tratamentos, de um internamento, qual é o lugar da espiritualidade nos cuidados de saúde?
Há muita literatura científica sobre o assunto. A religião tem uma função de coping, que são estratégias interiores que temos para enfrentar situações stressantes: pode ser a morte de alguém, a minha própria morte, a doença, o sofrimento. Na psicologia da religião, um dos autores que estudaram pela primeira vez a função de coping da religião foi Kenneth Pargament. A nossa alma, o nosso corpo e o nosso espírito estão ligados entre si, somos um só, não há divisões estanques. Se eu, ao tomar sentido da minha espiritualidade, não tenho uma perspetiva de futuro, se na relação com Deus perco a fé, se estou zangado, isso leva a um vazio que, por sua vez, leva a um desânimo face à luta. Se num dado momento preciso de todas as minhas energias físicas e espirituais para lutar contra uma doença, se estou diante de um diagnóstico terrível e me falha uma delas, a minha luta não é total. E, aqui, a espiritualidade tem um sentido lato: está ligada às questões do sentido da vida, da transcendência, mas também da relação com o outro, da reconciliação da vida com passado, presente e futuro.

Todos os tratamentos deviam ter uma componente espiritual?
Têm. Voltando ainda a Pargament, aponta cinco fatores pelos quais a religião interfere na saúde. Um deles tem a ver com os comportamentos. A religião, ao dizer que é pecado, cria critérios para comportamentos saudáveis. Depois existe a função de coping. Se tenho a noção de que Deus é amor e está comigo no sofrimento, que tenho uma comunidade atrás de mim, há uma mobilização maior. Às vezes encontro pessoas que me dizem: “A minha comunidade está a rezar por mim, não estou sozinho”. A pessoa tem um sentimento de pertença, de esperança e de ser amado que é uma força acrescida para a sua luta. Há, por exemplo, doentes que me dizem quando vou dar-lhes a comunhão: “É isto que me faz aguentar o sofrimento”. Além do coping, a religião tem uma função de promoção de emoções positivas e de fomento de emoções, mas também de mecanismos internos de empowerment que capacitam as pessoas para a luta, como a oração, a leitura de textos, a meditação.

Ao longo destes mais de 30 anos como capelão, tem tido muitas vezes a perceção do alcance dessas dimensões?
Muitas. Há pouco falei do doente que viveu mais quatro dias. Chego a uma terça-feira ao hospital e a enfermeira diz-me: “Tem ali um doente que quer ser batizado”. Fui falar com ele. “A senhora enfermeira disse-me que queria falar comigo, o que me deseja?” Respondeu-me que era isso que queria. “Quer ser batizado porquê?”, perguntei-lhe. “Quero ser batizado porque quero ser filho de Deus”. Bastou. Combinámos para o sábado seguinte, para estar a família. Era um jovem que tinha um problema de sangue e durante a semana levou tantas transfusões que não imagina. Na quinta-feira passei à beira dele e disse-me: “Eu já não estou cá. Sinto-me suspenso na minha cama a mais de um metro de altura”. Até me arrepiei. No dia seguinte, as enfermeiras disseram-me: “Acho que o seu doente não chega a amanhã”.
O seu doente.
Sim, entendem-nos como membros da equipa. No sábado começámos o batismo, ele estava muito em baixo, notava-se que já devia ter partido. O batizado foi ao meio-dia, estava embrulhado no seu silêncio, frágil. Quando lhe fiz as perguntas do batismo, parecia um homem novo, com saúde, não queria acreditar. Morreu naquele dia às nove da noite.

Momentos como esse têm reforçado mais a sua fé ou, acima de tudo, o respeito pelo sofrimento humano?
Têm-me levado, sem dúvida, a um respeito pela dignidade humana até ao fim. Sinto quando estou perante um doente em fim de vida. E nesses momentos só penso na dignidade daquela pessoa e no dever que tenho de a respeitar, de a ajudar a escrever o último capítulo da vida. Isto também me aproximou de Deus, fez-me ver que Deus não está em muitas coisas que pensamos, mas naquilo que nós próprios fazemos e nos deixamos fazer em Seu nome.

Alguma vez pediu para salvar um doente?
Peço todos os dias que ajude os doentes, que lhes dê saúde, às vezes também posso pedir para levar. Às vezes, os doentes dizem que querem morrer, dizem que está na hora de partir, “o Senhor que me leve”. Coloco as intenções do doente: “Senhor, só Tu sabes”.

A eutanásia vai ser de novo discutida no Parlamento. Alguma vez um doente lhe pediu que o ajudasse a morrer?
Quando digo que os doentes por vezes dizem que querem partir não tem a ver com eutanásia. Dizer que se quer partir mostra uma disponibilidade para sair, estar disponível para fazer a viagem, que é diferente de precipitar a viagem. Eu dizer que estou pronto para a viagem é muito diferente de dizer “precipitem-me a viagem”. 

É conhecida a posição da Igreja contra a eutanásia. De todos os casos que já viu, nunca teve uma perceção diferente?
Não. Há que respeitar a pessoa e ajudá-la a debelar o sofrimento. É esse o meu dever. A eutanásia não tira o sofrimento, tira a vida. Os cuidados paliativos ajudam a debelar o sofrimento, a assistência espiritual, o acompanhamento. Aceito que uma pessoa me diga que não faz sentido o sofrimento que está a viver, naturalmente. Isto é uma situação particular de uma pessoa, outra coisa é a sociedade tomar para si a responsabilidade de matar. Aquilo que deve fornecer à pessoa é acompanhamento. Uma vez tive uma pessoa que me disse que queria que eu fosse falar com o médico para que se fizesse a eutanásia. Encontrava esse doente na cama; às vezes, quando eu passava, virava as costas. Eu deixava-me ficar meio minuto à beira da cama dele, para que soubesse que estava ali. Um dia fez-me aquele pedido. Tinha um assunto grave de saúde. Continuei a acompanhá-lo, houve também intervenção da psicologia, foi feita a intervenção médica e, passados uns dias, quando tornei a passar diz-me a enfermeira: “Olhe que o seu doente já anda por aí a visitar outros”. Nunca mais pediu a eutanásia. Era a solidão, o sentimento de abandono. Há muitos casos de solidão, de abandono. Neste pregar do direito à eutanásia, o direito à eutanásia torna-se uma obrigação de pedir a morte. Pela pressão social, pela pressão familiar. É isso que está a acontecer na Bélgica e noutros países.

Particularmente cá, com uma população muito envelhecida, receia que isso possa acontecer?
É muito fácil deslizar para a ideia de que se está a ser um fardo para outros. O direito devia ser a ser acompanhado até à morte. Onde é que temos cuidados suficientes para isso, cuidados paliativos? Estamos a andar com o carro à frente dos bois. Há uns anos cheguei a ver estudos em França em que, quando havia alguém que pedia eutanásia, se aplicava uma grelha de critérios para ver o que se estava a passar com o doente, do acompanhamento da família a questões clínicas, de conforto. Verificavam as necessidades que o doente tinha e, quando tudo era garantido, já não havia o pedido. Quem está em situações de grande sofrimento como pode ter autonomia? O que quer é que lhe tirem o sofrimento. E, como disse, a eutanásia não tira o sofrimento, tira a vida. É um erro. Esteve aqui na Católica um homem que acompanhou todo o processo legislativo na Bélgica. Disse a certa altura que a melhor lei seria não ter. Não é a lei o problema, é a nossa natureza humana para ir mais longe. Na maior parte das vezes, o pedido “deixem-me morrer” é um desabafo, “ajudem-me a suportar este sofrimento”. Recordo-me de um cavalheiro que ficou num mutismo, tinha feito uma traqueostomia, não queria receber a família, não queria comer, estava a tentar precipitar a morte. Não sabia o que havia de fazer. Cheguei à beira dele e perguntei-lhe se não se importava que estivesse ali. Pus a minha mão na dele, consegui perceber que era de um determinado sítio onde eu conhecia pessoas, começámos aos poucos a conversar. Passados uns dias, a enfermeira disse-me: “O seu doente já anda por aí”. Tem a ver com a pessoa se sentir acompanhada, sentir-se digna, amada, e sentir-se pertença de alguém, de algo.

Os ateus também procuram o capelão?
Este doente que pediu a eutanásia era ateu. Viria a falecer algum tempo depois da intervenção. Das coisas mais bonitas foi, passados uns dias, a mulher dele vir trazer-me a Declaração Universal dos Direitos Humanos anotada por especialistas, que tinha sido ele a pedir para me entregar.

Passam dez anos da lei que regulou a assistência espiritual e religiosa no SNS. O que mudou e o que está por fazer?
Há muito por fazer no sentido da sensibilização para a importância da espiritualidade. Muitas vezes, ainda entendemos a assistência espiritual e religiosa nos hospitais como sendo só a presença da Igreja Católica, e não é. Todos os doentes têm direito à assistência espiritual, mesmo os ateus. Todos temos necessidade de reconciliação, de autotranscendência, de criar sonhos. Este acompanhamento é fundamental para a humanização dos cuidados de saúde. Uma das coisas que o decreto-lei trouxe foi dizer que a assistência espiritual é um direito de todos os doentes e é uma necessidade essencial face a situações de doença e sofrimento, e isso ainda não é respeitado.

Porquê?
Tem a ver com a nossa cultura de tolerância, uma cultura de tolerância passiva que, por vezes, se torna uma cultura de obstrução. 

Em que sentido?
Dizer “isto é um assunto do doente, o doente é que tem de pedir”. Não se faz nada para promover esse direito do doente. Tenta-se perceber as necessidades dos doentes a vários níveis, porque não se está atento às necessidades espirituais?

Foca-se no que é mais premente?
Todas as dimensões são importantes. Há doentes que expressam dor física grave que não tem a ver com questões físicas, mas com questões existenciais e espirituais. Recordo-me de uma doente que acompanhei. Gritava, as enfermeiras diziam “já lhe demos os analgésicos”. Rezava com ela e ficava a dormir tranquila. Penso que temos de ter uma atitude mais proativa de valorização das necessidades das pessoas e ter em conta o lado espiritual. Às vezes, o doente expressa necessidades espirituais dizendo o contrário. Se diz “estou zangado com a minha Igreja, não quero saber do pastor”, o que está a dizer é “preciso de me reconciliar com a minha Igreja”. Ainda há pouco tempo, uma senhora dizia que não queria nada com o padre e com a Igreja. Acabei por passar por lá e conversámos, ficou muito mais tranquila. 

Para concretizar essa assistência espiritual, o que seria necessário? Também mais meios?
Ver estes serviços de outro modo, reconhecer que contribuem para a qualidade dos cuidados de saúde, como está na lei, e que para se ter uma assistência personalizada, centrada no doente, isso não se faz com um capelão para 400 camas. 

Só consegue ir aos doentes mais graves?
É-se um bocado bombeiro. Aqui, no CHLN, sou eu e mais dois assistentes mas, mesmo assim, não chega. É um hospital muito diferenciado, com muitos doentes oncológicos, imunodeprimidos, urgências. 

Com a crise de vocações até para as paróquias, haveria mais padres e diáconos para ir para os hospitais?
Muito deste trabalho que é feito por padres e pastores pode ser feito por leigos formados, mas ainda temos muito poucos em Portugal. Em França, quem faz o acompanhamento espiritual nos hospitais são leigos, que é diferente de dizer voluntários, que também têm o seu papel, mas aqui temos de falar de um trabalho profissionalizado, contínuo. Quando há um assunto especificamente religioso é que vai o padre, para dar a santa unção, confessar. Não existem cuidados de saúde de qualidade sem assistência espiritual. Temos ainda outra dificuldade que é a presença de outras religiões nos hospitais. A lei trouxe sensibilização, em alguns hospitais houve experiências-piloto, mas é necessário que se estenda. 

Contou há pouco tempo o caso de um doente que ficou três dias sem comer num hospital porque a alimentação não seguia os critérios da sua religião. Só quando o capelão se apercebeu é que isso foi corrigido, como prevê a lei.
Lá está a tolerância passiva, não se pergunta. Quando um doente entra num hospital pergunta-se sobre tudo, sobre a vida íntima, porque não se pergunta pela religião? Tem implicações na saúde, essa pessoa ficou com fome. Foi um colega meu, ao passar pela enfermaria, que se deu conta. Haverá outras necessidades por atender. Sempre que me pedem chamo um pastor, um líder religioso, o xeque Munir, alguém mais ligado à igreja evangélica. Os doentes têm de saber que têm esse direito e que estar internado não os impede de manterem o culto.

A saúde tem estado debaixo de críticas. Que perceção tem de dentro do hospital sobre o estado do Serviço Nacional de Saúde?
Sinto que os profissionais fazem muito, esforçam-se tremendamente. Ao nível do suporte económico, do investimento, há dificuldades que se traduzem naquilo que ouvimos publicamente, de falta de material, de aparelhos que estão sem funcionar porque não há manutenção, e da falta de pessoal, que se vê muito. É necessário repensar o SNS para que o melhor seja garantido aos doentes. Mas oiço os doentes dizer bem do SNS. Às vezes também oiço dizer mal, mas dizem bem, e o SNS é muito importante no país. Sinto que temos hoje mais condições do que no passado, mas tem de ser um caminho progressivo. E existe esse estrangulamento económico.

Um capelão vê muitos milagres?
Todos os dias, feitos pelos médicos. (risos) Não ando à procura de milagres, mas tenho visto gente que pensei que já teria morrido e andam aí vivos da silva. Até a mim já me disseram que fui agente de um milagre, com a santa unção, que as pessoas arrebitaram.

É um momento duro?
A santa unção não é um sacramento para a morte. A minha mãe chamava ao sacramento da santa unção o sacramento das melhoras. Era a experiência que tinha. Depois de eu nascer tinha estado mal; na altura, o médico ia a casa, pago pelas pessoas, e o padre também ia. A dada altura, o médico dizia que não tinha mais nada para fazer e o padre dava a extrema-unção, e era a partir daí que se melhorava. Procuro levar as pessoas a receber a santa unção a tempo e horas. A santa unção está na Bíblia, no livro de São Tiago: “Algum de vós está doente? Chame os presbíteros da Igreja, a fim de que estes orem sobre a pessoa enferma, ungindo-a com óleo em o Nome do Senhor; e a oração, feita com fé, curará o doente, e o Senhor o levantará”. Não diz lá: “Algum de vós está a morrer?” No primeiro milénio era chamada a medicina da Igreja. A partir do séc. ix é que passa a chamar-se extrema-unção, mas isso também tem a ver com a História. Só recentemente é que as doenças crónicas passaram a dominar; até aí, as doenças eram agudas. Vinham de súbito e o doente recebia a extrema-unção. É um dom a medicina que temos hoje.

Trabalhar com crianças é mais difícil?
Não é com as crianças que é difícil, é com as famílias. Impressiona-me sempre a doença e o sofrimento mas, como disse, não fico a perguntar pela injustiça, mas acompanho a pessoa no sofrimento. As crianças são mais inteligentes do que a gente pensa. Noutro dia li uma história de um médico que falava de uma criança que estava em fase terminal e que ia visitar todas as manhãs. Perguntou-lhe: “Estás sozinha?” Ela disse: “Estou, a minha mãe está lá fora porque está a chorar”. “Como sabes que está a chorar?”, continuou o médico. “Sempre que ela quer chorar, sai”. “E porque chora?” “Porque sabe que vou morrer”. E a partir daí falaram sobre a morte. E o que aquela criança percebia da morte emocionou-me. “Quando vou a casa, adormeço na cama dos meus pais e de manhã estou na minha. Parece-me que a morte é assim, adormeço neste mundo e acordo nos braços de Jesus”. As crianças são espantosas, veem tudo com mais simplicidade. Conheci uma criança a quem depois fiz o funeral, no IPO, tinha 11 anos. Tinha sempre o terço na mão e rezava todos os dias. Houve intervenções cirúrgicas paliativas, mas os médicos nunca faziam nenhuma sem primeiro lhe explicar. Morreu em casa, com a mãe e com o pai, com a família sempre a tentar explicar-lhe tudo, a responder-lhe às perguntas sobre a morte.

Fala-se pouco da morte.
É um tabu. Houve há pouco tempo um encontro em Fátima sobre morte, crianças e luto, fiquei admirado de estar tanta gente, é um sofrimento muitas vezes invisível. Em relação à morte vivemos atualmente uma espécie de parvalheira, pensamos que não morremos. Dormimos todos os dias com a morte e precisamos de nos reconciliar com a vida e com a morte, precisamos de ter a noção de que somos frágeis, de que somos fracos, de que morremos, não para nos tolher, para nos dar gosto pela vida, como é bom viver.

Era diferente quando as pessoas morriam em casa?
A morte medicalizou-se e hospitalizou-se, ficou distante. E morre-se sozinho no hospital.

Vê muitas pessoas que morrem sozinhas?
Sim, ou os familiares não estão ou abandonam. Temos medo da morte. A morte é banalizada na televisão mas é a morte dos outros, não é a nossa. Quando aquela criança teve a perceção de que a morte estava a vir, porque as crianças também têm essa perceção, como têm os adultos, chamou o pai, a mãe e a irmã, rezaram e partiu. Uma vez, no IPO, uma senhora morreu agarrada à minha mão, parece que estava à espera de alguém. A espiritualidade neste tempo é muito importante. Uma amiga minha tinha o pai com Alzheimer. Em casa ficava tranquilo a ouvir o terço num CD. No momento final estava muito agitado. Rezou-lhe o terço ao ouvido e ele acalmou e morreu. O ouvido é o último que morre, ouvimos até ao fim.

Visita doentes em coma?
Também. E tem-me acontecido histórias bonitas, de doentes que arrebitam. Há muitos doentes que nos marcam também pela sua fé. Recordo-me de uma moça que tinha uma atitude face à vida e uma fé espantosas. Antes de morrer teve sonhos de encontro com a luz e com Deus, como que preparando-se para a morte. Tinha sempre um sorriso bonito e às vezes devia estar torcida de dor. E eu perguntava-lhe onde é que ela ia arranjar aquele sorriso. Um dia disse-me: “Se a nossa vida for só estas coisas neste mundo, é demasiado difícil e a minha tem-no sido”. Tinha casado aos 30 anos, uns dias depois descobriram-lhe um tumor no útero e passados três anos morreu. “Estou convencida de que isto é só o começo de algo extraordinário que Deus tem para mim”. Foi das coisas mais bonitas que ouvi. O sofrimento está ligado à nossa condição humana, material. Se fosse um castigo, seria completamente arbitrário. A minha convicção é que Deus ama-me infinitamente e está presente nas minhas vicissitudes, na alegria e no sofrimento. 

Passou também pelo Júlio de Matos. Que memórias ficam?
Gostava muito dos doentes. Há lá uma unidade com doentes cadastrados e mesmo aí encontramos doentes muito carentes. Às vezes, um doente pedia um abraço e depois havia logo outros a pedir. Há uma carência física, no fundo, uma carência materna, de colo.

Além de ser coordenador das capelanias, fundou o Gabinete de Escuta (GEscuta), onde qualquer pessoa pode desabafar. A experiência no hospital foi importante?
Surgiu da minha experiência e de outros colegas da necessidade que as pessoas têm de desabafar e falar das suas necessidades, também espirituais, a partir de uma experiência que estava a ser desenvolvida em Espanha. Tivemos muita procura. A certa altura deixámos de promover porque não queríamos deixar ninguém sem resposta, mas tem sido uma experiência muito rica.

Vão ter agora um Gabinete de Escuta na capela do Centro Comercial Colombo. Quando abre?
Sim, a partir de janeiro. Vamos estar no meio do mundo.

É a Igreja a ir para a periferia, como diz o Papa Francisco...
Ir para a periferia significa estar atento às pessoas que precisam de ajuda, que sofrem. Há muito sofrimento psíquico e espiritual entre nós. Há uma psicóloga no Porto que se chama Manuela Fleming que tem um livro muito interessante, Dor Sem Nome. Diz uma coisa muito bonita. Damos sentido às coisas através da palavra, dizendo-as, nomeando-as. Acontece na saúde. Tenho uma dor de barriga enorme, parece que vou morrer, chamo o 112, vou à urgência e o médico diz: “Tem uma pedra no rim”. A pessoa fica aliviada, o diagnóstico é palavra que dá nome à dor e, ao nomear, dá controlo. Diz esta psicóloga que a dor precisa da concha da palavra para ser dita. Mas para eu dizer a dor preciso de alguém que a oiça. Hoje temos muita dificuldade em nos ouvirmos genuinamente uns aos outros e, muitas vezes, a solidão vem daí, o “ninguém me entende”, que significa muitas vezes “ninguém me escuta genuinamente”.

Estes 33 anos mudaram-no muito?
Muito, não seria o mesmo se não tivesse passado pelos hospitais.

Em quê? Vive-se mais agradecido?
Esse é um aspeto. Mais agradecido a Deus pela vida que tenho, por cada dia que acordo e mexo os pezinhos. Houve uma senhora que encontrei no IPO que dizia uma coisa que agora aplico em mim: “Chego à noite, agradeço a Deus o dia que me deu e peço-lhe que me dê mais uma noite e um dia para Lhe poder agradecer no dia seguinte”. Outra velhinha muito sorridente foi confessar-se um dia e a penitência que lhe dei foi que agradecesse essa graça. Disse-me que era o que fazia sempre. Há por aí gente que é santa. Além disso, penso que mudei na atenção às pessoas, à necessidade das pessoas de serem escutadas. E, no fundo, leva-nos a perceber que na nossa vida humana queremos tanta coisa, e é certo que são necessidades que temos, mas deixamos cá tudo. Há coisas que não ficam cá, que é a riqueza que encontramos no cuidar e no ser cuidador, nas trocas de ternura que se fazem. Neste campo da saúde fazem-se muitas trocas de ternura.

O Natal, como se vive no hospital?
É um período muito bonito mas, num hospital, o Natal é todos os dias. Natal, Quaresma, Páscoa. É o tempo de cada doente. Claro que há sempre decorações nos serviços, uma festa aqui, outra acolá, é um tempo de maior valorização do simbólico e do estar com os outros, mas, num hospital, o tempo é sempre muito denso.

Já pensa na reforma do hospital ou ainda é cedo?
Daqui a quatro anos, aos 66. Quero fazer outras coisas, ler, entregar mais tempo ao Gabinete de Escuta. Encanta-me conversar. Às vezes passo uma hora ou duas a conversar – então na Quaresma, nem queira saber. E é bom ver que, depois da confissão, as pessoas vão felizes. Quando um encontro é de alma parece que há ali uma terceira pessoa, há uma comunicação profunda.

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