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Novos deputados. Quão difícil é o primeiro mês no Parlamento?

Novos deputados. Quão difícil é o primeiro mês no Parlamento?

Mafalda Gomes Joana Marques Alves 27/11/2019 17:53

Uma Assembleia da República renovada, mais jovem e com um toque mais feminino. Esta nova legislatura conta com 94 novos deputados – o recordista das mudanças é o PSD, com 42 caras novas. Além disso, o hemiciclo, que é composto por 230 deputados, tem mais mulheres: comparando com as eleições de 2015, foram eleitas mais 14 deputadas, num total de 89. Um mês depois de terem entrado no Parlamento pela primeira vez, o i falou com quatro dos novos deputados para perceber como está a decorrer a atividade parlamentar.

Miguel Costa Matos. "Não se aprende tudo de uma só vez"

Tinha 14 anos quando entregou a ficha de inscrição na sede da Juventude Socialista. Aos 18 anos ingressou no partido. Aos 25, Miguel Costa Matos entrou pela primeira vez no Parlamento como deputado. E era impossível não se sentir assoberbado. “Entramos aqui e é difícil não sentirmos o enorme peso da responsabilidade de estarmos a representar os portugueses. Foi-nos confiado um mandato para fazer algo diferente numa casa com uma enorme tradição, com muita gente que trabalha todos os dias para mudar o país. Temos de tentar conquistar o nosso espaço para podermos dar o nosso contributo e a nossa perspetiva”, diz ao i.

Para Miguel Costa Matos, o primeiro dia tem-se prolongado “durante as últimas semanas”. “Não se aprendem todos os procedimentos e coisas a fazer no Parlamento de uma vez só, num só dia”, explica o deputado socialista, valorizando ainda o apoio que tem tido dos “colegas mais experientes”. “Tenho sentido da parte de todos os colegas deputados que já cá estavam uma enorme vontade de nos ajudar e de, no fundo, mostrarem como as coisas são feitas e guiarem-nos, sem paternalismo. Sinto também que existe uma vontade de aprenderem com a nossa visão. Há um enorme espírito de partilha e união”.

Miguel Costa Matos admite que ser o deputado mais novo da Assembleia da República atrai as atenções, mas também tem os seus problemas: “O único efeito imediato [da idade] foi que passei o primeiro dia a partilhar com o país, através de alguns órgãos de comunicação, aquilo que eram as minhas expetativas como o deputado mais novo. Mas acho que aumenta sobre mim a pressão e a responsabilidade para mostrar que o Parlamento pode fazer a diferença para as gerações mais novas deste país e que a idade não é um obstáculo para poder fazer um bom trabalho. Pelo contrário, é algo que traz novas perspetivas, que fazem falta ao Parlamento”.

E neste primeiro mês não teve mãos a medir: “Temos tomado posse nas comissões e começado a aprovar requerimentos para as audições. Já me foi atribuído o primeiro projeto de lei para fazer um parecer, que é um projeto de lei do CDS sobre a descida do IRC. Espero começar em breve o processo legislativo, estou com vontade de pegar em matérias concretas e começar a trabalhar reformas que afetem a vida das pessoas”.

Filipa Roseta. "Gosto de sentir que estou a ser útil"

Numa entrevista que deu ao SOL, a deputada social-democrata prometeu que iria receber todos os eleitores que lhe enviassem um email. Mas será que vai ter tempo para isso? A antiga vereadora da Câmara Municipal de Cascais admite que o trabalho na Assembleia da República é muito diferente daquilo que fazia enquanto vereadora, mas mostra-se entusiasmada com os próximos tempos.

“O primeiro dia correu bem, estava tudo preparado para nós começarmos. Houve muito apoio por parte do pessoal da própria Assembleia da República. Os membros mais antigos do nosso grupo parlamentar também ajudaram muito nesta transição. É absolutamente excecional a forma como nos estão a enquadrar para haver uma coesão entre todo o grupo. Formaram alguns seminários para nos explicarem como as coisas funcionavam, como era o dia-a-dia, o que era esperado. Posso dizer que fui bastante mais apoiada do que aquilo que estava à espera”, recorda Filipa Roseta.

A deputada do PSD diz que não houve nada de “muito bizarro” que estranhasse nos primeiros dias da sua atividade parlamentar. “Eventualmente, algum formalismo na maneira como falamos, mas nada demais. É tudo diferente daquilo a que estava habituada, por isso, nesse aspeto, tudo é estranho para mim. Mas é como a dança: a pessoa tem de aprender os passos para dançar”, diz ao i.

Neste primeiro mês, Roseta já esteve a tratar de assuntos como a lista dos edifícios com amianto, a transição digital e o alojamento dos trabalhadores agrícolas do Mira. Tem sido um ritmo de trabalho bastante acelerado, mas a deputada não se mostra preocupada com o futuro: “Eu gosto de intensidade. Na primeira semana, que foi a semana de transição, não senti isso e fiquei preocupada. (risos) Eu gosto de intensidade e de sentir que estou a ser útil, que estou a contribuir e a trabalhar em pastas concretas que podem fazer avançar agendas”.

“Esta é uma casa complexa, mas temos tido apoio para nos orientarmos aqui. A verdade é que já quase todos os novos falaram no plenário e já têm pastas para tratar... Há uma enorme vontade de todos de nos envolver nestes processos. E nós estamos cheios de ideias e vontade de agir”, garante a deputada.

Inês de Sousa Real. "Os outros deputados ajudam-nos a encontrar as salas"

Lembra-se de sentir aquele nervoso miudinho no primeiro dia de aulas? De não conseguir dormir na noite anterior, a pensar constantemente nos professores e nos colegas novos? Para a deputada do PAN, o primeiro dia no Parlamento fez lembrar aquilo que se sente quando chegamos a uma escola nova.

“A Assembleia da República é um espaço muito grande, tem muitas comissões e acaba por ser muito desafiante explorar este espaço. Até porque o PAN, apesar de ter só quatro deputados, vai estar presente em todas as comissões, por isso foi mesmo um desafio ver onde ficam as salas das reuniões, perceber toda a burocracia envolvida naquilo que é o acolhimento dos deputados, etc.”, explicou Inês de Sousa Real ao i.

A deputada do PAN destaca não só a disponibilidade dos funcionários da Assembleia, mas também dos colegas dos diferentes partidos, sejam de esquerda ou de direita: “Independentemente de estarmos em bancadas diferentes, tem havido um cuidado de todos para nos sentirmos integrados. Ajudam-nos em coisas tão simples quanto encontrar o caminho para a sala de comissões”. (risos)

Mas, como seria de esperar, nem tudo foi fácil logo à primeira – todos os processos têm os seus protocolos. “Por exemplo, nós não podemos atravessar pela frente das bancadas do hemiciclo. Ou seja, quando vamos falar, temos de passar por trás das bancadas. São pormenores que quem vem pela primeira vez não conhece e aos quais temos de nos ajustar. Mas, até agora, esta integração tem sido pacífica”, explica ao i.

Ao fim de um mês de corrupio pelas escadarias do Parlamento, Inês de Sousa Real faz um balanço muito positivo da sua atividade parlamentar: “Já apresentámos várias iniciativas legislativas, como a questão do lítio, dos vistos gold, até mesmo dos santuários para equídeos – tivemos um caso muito recente de maus-tratos a animais que consternou o país. Estamos agora a entrar na dinâmica do processo legislativo e temos procurado ir ao encontro daquilo que são algumas prioridades para o país em termos de agenda”.

Alma Rivera. "Agora só me perco uma vez por dia"

Quem nunca teve um momento de surpresa ao ver um monumento histórico e perceber que, afinal, nada tem a ver com as fotografias publicadas nas redes sociais? No primeiro dia no Parlamento, a nova deputada do PCP teve uma experiência parecida. “Lembro-me de achar que a sala era mais pequena do que parecia [na televisão]”, conta ao i.

Alma Rivera não teve mãos a medir: assim que chegou, teve de aprender a mexer-se nos corredores da Assembleia e a desempenhar uma série de tarefas. Entusiasmo de principiante? “Durante os primeiros dias, isso não aconteceu muitas vezes. Há muita coisa para fazer. Apercebemo-nos de que temos muito que aprender, que conhecer e que temos de falar imenso com as pessoas – isso é um ponto muito importante para o nosso partido, a ideia de estar ligado à vida, às reivindicações, às necessidades das pessoas”.

E se há quem diga que o PCP é um partido com mentes fechadas em si próprias e com pouca abertura às novidades, a experiência de Alma Rivera nos primeiros dias no Parlamento parece indicar o contrário. “Senti muito apoio. Todo o grupo parlamentar do Partido Comunista foi espetacular. Os funcionários da própria Assembleia também são muito prestáveis. Tudo isto fez com que os primeiros dias fossem mais fáceis”.

Apesar de ainda estar a habituar-se e a viver um período de transição, Alma Rivera sente desde o primeiro dia o peso da responsabilidade: “A partir do momento em que nos é colocada esta tarefa, é importante corresponder às expetativas e, sobretudo, estar sempre à altura daquelas que são as batalhas que nos propusemos travar nesta frente de trabalho”.

Ao final de um mês, Alma Rivera mostra-se satisfeita com o trabalho que tem desenvolvido. “Sentimos que estamos a contribuir e a procurar que aquilo que se passa lá fora tenha alguma representação e voz cá dentro. Era bom que mais vozes também estivessem a trazer estas preocupações para a Assembleia da República”, diz ao i.

E o balanço positivo expande-se também para a sua capacidade de encaixe neste novo mundo: “Agora só me perco uma vez por dia”. (risos)

 

 

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