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Um duro coração de manteiga

Um duro coração de manteiga

Ricardo António Alves 11/11/2019 15:05

Pela amostra deste primeiro álbum, publicado originalmente pela Dargaud Benelux, em 2015, a saga de Jonas Crow tem tudo, autores e assunto, para vingar. O texto é de Xavier Dorison e o desenho de Ralph Meyer, ambos parisienses de 1971.

Na vinheta inicial, sob um sol de canícula, um abutre de longas asas estendidas voa com a cabeça inclinada para o solo; a seguir, em grande plano, vemo-lo a fixar o olhar em algo; depois, a carcaça de um cavalo sendo devorada por um bando de aves; no quarto quadradinho, com o mosquedo a voltear, a carniça é arrancada pelos fortes bicos concebidos para retalhar. A partir da segunda vinheta, filacteras sem o apêndice característico transmitem-nos as reflexões de alguém: “As pessoas não gostam de nós./ Há quem diga que é porque passamos o nosso tempo no meio de cadáveres./ Transmitimos a morte como outros transmitem bexigas./ Também consta que cheiramos mal e que podemos dar azar./ Vá-se lá saber onde foram buscar isso!/ A verdade é que as pessoas não gostam de nós./ E ainda bem”. Quinta e última vinheta da primeira prancha: um homem ainda novo, de barba cerrada, vestido de escuro, sentado de caneca na mão e cigarrilha na boca, encostado à carreta que lhe pertence, completa agora o seu pensamento: “Também não gosto delas”. É Jonas Crow – um gato-pingado, um cangalheiro –, o herói desta série. Acompanham-no Jed, um abutre de asa embriada que Jonas não teve coragem de matar, e os dois cavalos da carroça funerária: Zephyr e Cobalt.

Pela amostra deste primeiro álbum, publicado originalmente pela Dargaud Benelux, em 2015, a saga de Jonas Crow tem tudo, autores e assunto, para vingar. O texto é de Xavier Dorison e o desenho de Ralph Meyer, ambos parisienses de 1971. O primeiro é argumentista exímio (O Terceiro Testamento, sequelas de XIII e Thorgal); Meyer tem um lápis ágil e espetacular, além de abundantes recursos expressivos. Diga-se, a propósito, que a semelhança fisionómica com Mike T. Blueberry é mais do que intencional; é um elo que os autores criam – por razões que nesta fase não são claras – com a melhor BD western. A cada um a possibilidade de especular...

Crow é uma personagem, é a personagem: solitário, misterioso (transporta uma história consigo), de mão leve com a artilharia e raiva interior que o tornam temível, além de um coração de manteiga, capaz dos gestos mais altruístas – e também divertidos, como aquela citação da “Epístola de São Paulo aos Californianos”… Se o Duke, de Hermann e Yves H., de quem já aqui falámos, é um pistoleiro que não gosta de armas, Jonas Crow é uma máquina de matar que odeia violência... Aliás, o que aqui não falta é um conjunto de personagens fortes que tornam este western intenso e áspero, embora a violência não seja gratuita, antes uma exigência da própria trama, dotada destas personagens específicas: um antigo garimpeiro às portas da morte, “dono” duma cidade, ganancioso e cruel, uma jovem governanta inglesa hierática e sensual, um criado de casa ressentido, uma velha chinesa perspicaz, um xerife venal e por aí fora, em intriga estonteante.

Undertaker 1. O Devorador de Ouro

Argumento: Xavier Dorison

Desenhos: Ralph Meyer

Cor: R. Meyer e Caroline Delabie

Editora: Ala dos Livros, Benavente, 2019

“Não é fácil o amor”

“...melhor seria arrancar um braço”... canção de Janita Salomé que veio à cabeça ao relermos O Amor Infinito que Te Tenho (2011), de Paulo Monteiro (Vila Nova de Gaia, 1967). Com dez curtas narrativas (um índice daria jeito...), é poesia posta em quadradinhos, sem surpresa, pois o autor é também poeta, embora bissexto.

Histórias muito centradas nas suas circunstâncias pessoais, nem por isso deixam de interessar em várias latitudes – ou não fosse este um livro com várias traduções, e não fosse também o ser humano igual por toda a parte. Amor filial, amor paternal, amor conjugal, amor impossível, amor altruísta, amor egotista, amor que tem à espreita o seu próprio fim, pois que tudo desesperantemente acaba; BD ora solar ora de trevas, quanto mais negra mais carregadas as vinhetas, e mais limpas quanto mais jubilosa.

No fim, Monteiro incluiu excertos do diário da feitura do livro, motivo suplementar de interesse em que podemos acompanhar os itinerários de criação. Os sucessos: “3h30 de trabalho. Hoje saiu-me tudo bem! E se eu desenhasse sempre assim? 3h30 e duas vinhetas!” (4.1.2009). Os fracassos: “Parti a caneta com toda a força contra o estirador e saí para a rua desvairado e furioso comigo mesmo” (22.10.2008). E os impasses:
“É só um livro com meia dúzia de histórias. O importante é a vida. Vou ouvir a Amália. Os fados alegres, claro” (16.2.2009).

 

O Amor Infinito que Te Tenho e Outras Histórias

Texto e Desenho: Paulo Monteiro

Editora: Polvo, Lisboa, 2012

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