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Há cada vez mais pessoas a dormir em tendas no centro de Lisboa

Há cada vez mais pessoas a dormir em tendas no centro de Lisboa

Mafalda Gomes Rita Pereira Carvalho 01/11/2019 12:48

Quase 400 pessoas vivem nas ruas de Lisboa. Da Almirante Reis até ao Cais do Sodré, passando pelo Rossio, as tendas de quem não tem uma casa multiplicam-se e são cada vez mais. Entre duas das discotecas mais movimentadas da capital, está a realidade de quem todos os dias fecha a sua tenda como se fosse a porta 
do quarto. 

Há histórias que não têm apelidos. A vergonha só deixa soltar o primeiro nome e o azar atirou 361 pessoas para a calçada da cidade de Lisboa – que continuam hoje a dormir na rua. Sem paredes de tijolo, o tecido das tendas, que normalmente são utilizadas no campismo, dão alguma privacidade a quem não tem uma casa, um quarto, ou, simplesmente, um teto. Da Avenida Almirante Reis ao Cais do Sodré, passando pela estação do Rossio e de Santa Apolónia, as tendas transformadas em T1 multiplicam-se e são cada vez mais. 

Entre as discotecas Urban Beach e Lust in Rio, junto ao rio, há uma ciclovia que une os dois locais – muito frequentados, aliás, durante todas as noites da semana. Nessa ciclovia há dois mundos: um virado para o rio Tejo, onde se vê o Cristo Rei e a ponte 25 de Abril, e outro virado de costas para o Tejo, onde estão sete tendas montadas em linha. 

O chão é de terra, com buracos, e ao amanhecer, por vezes, há preservativos. “Vêm para aqui à cara podre, depois de saírem da discoteca e nem sequer veem que há pessoas que vivem aqui, nós é que temos de correr com eles”, diz um dos moradores. Alfredo, Maria Eduarda, Ricardo e Maria José são dois casais que vivem ali. Chamam às tendas “casa”, porque não têm uma a sério. E, entre a escuridão que quase não deixa ver as caras, falam sobre os prédios abandonados que há espalhados em Lisboa: “Tantos prédios aí abandonados, porque é que não deixam as pessoas viver lá? A gente paga, nós não temos é 600 ou 700 euros para dar”. 

Maria Eduarda e Alfredo vivem ali há três dias. Estão juntos há sete meses, viveram em casa da cunhada de Maria Eduarda, mas as desavenças familiares atiraram este casal para a rua, sem condições para pagar uma casa. Agora só uma coisa têm garantida todos os dias: o jantar que ela leva por ser cozinheira e porque sobra sempre comida. A par disso, o saco com duas sandes e um iogurte distribuído pela Comunidade Vida e Paz também vai ajudando. 

Apesar de se conhecerem há pouco tempo, os dois casais já se consideram família e contam que estão a procurar uma casa para os quatros, mas não está fácil – têm pouco e pedem muito. Não se queixam da polícia que, aliás, tinha acabado de passar e não incomodou. 

Ricardo e Maria José estão ali há três meses, antes estiveram em Santa Apolónia, e garantem que nunca ninguém lhes pediu para saírem. Tendo uma tenda, é possível ter mais coisas lá dentro, como alguma comida que sobra, roupa e outros objetos que, afinal, todos, sem exceção, deveriam ter. O problema é que saem todos pouco depois de o sol nascer – uns para trabalhar, outros para fazer uns biscates. “A gente sai de manhã, mas está sempre com o coração nas mãos”, diz Alfredo. E Maria José completa: “A mim já me roubaram, tanto aqui, como em Santa Apolónia – roubaram-me um fio de ouro que era para dar à minha filha”. Já a Ricardo rasgaram-lhe a tenda, que custou 100 euros, para roubar uma lanterna. E a mulher remata logo, em tom de brincadeira: “Se tivesse ali dentro 10 ou 20 euros ia já jantar. Estamos a rir, mas isto é uma tristeza”. 

As vidas destes dois casais deram muitas voltas. Agora estão ali, a limpar com lixivia aquilo que quem sai das discotecas suja, a ouvir música brasileira todas as sextas-feiras e a ter de ir até ao balneário público de Alcântara para tomar um banho – a pé, porque “a estrada não tem picos”. 

Saudades? Uns dizem que é só de uma cama, já Maria José diz que tem saudades de um bitoque. 

Desculpas para encobrir a realidade

Quem vive na rua não está sozinho, não é necessariamente um filho da rua. Foram ali parar pelas circunstâncias que um dia se desalinharam – álcool, droga, ou simplesmente falta de dinheiro para pagar um quarto. 

Grande parte dessas pessoas tem família na cidade de Lisboa, a questão é que muitas vezes ninguém conhece a realidade em que vivem. Numa das perpendiculares da Avenida Almirante Reis, mesmo atrás do edifício conhecido como a sopa dos pobres, o senhor António, de 65 anos esconde da irmã e do filho que não tem onde dormir. Desculpas? Inventa muitas. “Sabes, o meu senhorio não gosta nada que eu leve visitas lá a casa”, diz António, que está na rua há dois anos, ao filho sempre que este lhe pede para conhecer a sua casa. 

Já teve tenda, mas não gosta, porque à sexta-feira os funcionários da autarquia de Lisboa vão limpar o sítio onde dorme e não dava jeito para tirar tudo. Já teve um emprego, mas já não tem, agora faz biscates como pintor e é isso lhe garante algum dinheiro para tabaco ou café. Já teve um rendimento de inserção social, mas também já não tem – e espera voltar a tê-lo em Dezembro. Hoje tem um cobertor, uma malinha onde guarda os documentos importantes, uma almofada e vive paredes-meias com a tenda de Nuno, um homem com 49 anos. 

Ali vivem 11 pessoas e há duas tendas. A de Nuno custou 40 euros, “mas há umas de 20 euros, só que são mais pequenas, claro”. A tenda isola-o do resto do mundo. Quando entra lá dentro, a realidade não muda, mas está mais descansado. Agora, espera por um visto para sair do país – quer apanhar um avião para Nova Jérsia, onde já esteve uns anos com o irmão, tendo sido obrigado a voltar a Lisboa por causa da doença do pai. A raiva causada pelo abandono que sente não sai das palavras de Nuno e há sempre o sentimento de que os sem-abrigo são esquecidos do mundo. 

Tanto António como Nuno não conseguem pagar um quarto em Lisboa. Se António conseguir voltar a receber o subsídio de reinserção, vai ter todos os meses perto de 190 euros. “Um quarto custa mais de 300 euros, mesmo que a Santa Casa me pague metade, não tenho dinheiro para pagar, porque depois há o problema das cauções, os senhorios pedem duas e três rendas, e eu não tenho esse dinheiro”. 

Paulinho, o rei dos sem-abrigo

Estão três homens sentados à porta da estação de comboios do Rossio: O Mário, o Paulinho e o Zulu. É cedo e a pressa de chegar ao trabalho vê-se no passo acelerado de quem passa. Eles continuam ali sentados, a olhar. Pedem moedas, arrumam carros e pedem mais uma ou outra moeda – é assim que conseguem dinheiro. O Paulinho, que se senta no meio dos dois amigos é o “rei dos sem-abrigo”. A opinião é unânime e a razão é simples: Vive na rua há 30 anos. Tem 47 e muitas tatuagens. Os outros dois amigos vivem há anos, mas não há tantos. 
A Câmara Municipal de Lisboa garantiu este ano que as pessoas em situação de sem abrigo são cada vez menos, mas quem vive na rua garante que não. Paulinho diz que “recebe todas as semanas três ou quatro pessoas para orientar”. É a ele que recorrem quando ficam sem teto. O Paulinho conhece bem os sítios onde se pode montar uma tenda e dormir sem ser assaltado. Neste momento, vive na Calçada do Carmo, mesmo por baixo de uma das entradas da estação de comboios do Rossio, onde vivem mais quatro pessoas – o Paulinho, claro, é o mais velho. 

“Estás com o telemóvel na mão, a gente podia pegar já no telemóvel e levar. Mas para quê? Não ia ficar mais rico e tu ficavas sem ele”, diz Zulu. E Mário remata logo: “Nós não assaltamos ninguém, eu só roubo sardinhas aos romenos para vender aos estrangeiros”. As sardinhas são os típicos souvenirs de íman que Mário aproveita para fazer mais dinheiro, já que não consegue arranjar trabalho. “A gente não está aqui por gosto, isto é tipo bola de neve, vais perdendo, vais perdendo, até que te vês a dormir com a cabeça nesta calçada”, conta Mário, que dorme na Avenida da Liberdade há seis anos, em cima de um cartão que é levado cada vez que há uma corrida nessa avenida. 

Entre anedotas e poemas improvisados, os três homens que a rua juntou contam que a comida é dada pelas associações, pela Comunidade Vida e Paz e que os banhos são tomados nos balneários públicos. Todos garantem que só querem ajuda – uma casa, ou um quarto – e queixam-se que a ajuda da assistência social demora a chegar: “Vamos à Santa Casa, estamos lá seis ou sete horas à espera e levamos um papel para ir comer, só isso”. 

Ao fim do dia, um ou dois pacotes de vinho de supermercado ajudam a esquecer mais uma noite, que é só igual às outras. Ao lado de Paulinho há duas tendas, numa delas está uma mulher que lê um livro em alemão, enquanto espera por uma vaga num centro de desintoxicação. 

Ao i, o gabinete de Manuel Grilo, vereador da Câmara Municipal de Lisboa com o pelouro da Educação e Direitos Sociais, referiu os mesmos números divulgados em junho: 361 pessoas sem teto na capital. Sobre as tendas montadas pelos cantos da cidade, foi referido que “a cidade está dividida em áreas de atuação e todas as pessoas estão identificadas diariamente pelas equipas profissionais e/ou voluntários, pelo que diariamente há um contacto com as pessoas nas áreas que referiu”. “A política do NPISA [Núcleo de Planeamento e Intervenção para a Pessoa em Situação de Sem Abrigo] e dos seus parceiros passa por vários eixos, mas sublinho o objetivo de que ninguém fique mais de 24h por dia na rua por não ter alternativa”. 

“Prefiro dormir na rua do que dormir no centro”

Do Cais Sodré ao Rossio, foram várias as pessoas que falaram sobre a sua estadia na Associação Vitae – centro de alojamento temporário do Beato. “Ninguém vai ali porque gosta, vamos ali porque precisamos”, disse Mário que, tal como todos os outros, garantiu que prefere estar na rua a estar no centro de acolhimento. E as razões apontadas são também as mesmas: “Roubavam-me as coisas”, “uma vez cheguei dois minutos depois das 11 horas e fiquei a dormir na rua”, “ratos no refeitório”, ou “percevejos nas camas”, são alguns exemplos. “Isto é um centro de acolhimento, não é um centro de desacolhimento”, dizem. 

As ajudas ainda não foram suficientes para tirar todos os sem-abrigo da rua, nem para que estas pessoas sintam que a sua dignidade não foi roubada. “Os sem-abrigo nunca vão acabar, eu acho que ninguém quer que todos tenham uma casa”, disse uma das pessoas que todos os dias fecha a tenda como se fosse a porta do quarto. 

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