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Associações de acolhimento. Uma vida dedicada aos cães e gatos que foram deixados para trás

Associações de acolhimento. Uma vida dedicada aos cães e gatos que foram deixados para trás

Mafalda Gomes Joana Marques Alves 30/08/2019 12:22

A Focinhos & Bigodes, em Lisboa, e a Entregatos, em Sintra, são apenas dois exemplos de associações que se dedicam a acolher animais abandonados. Responsáveis dizem que o número de abandonos continua a aumentar e apelam ao Estado para que sejam implementados mais apoios.

O toque da campainha dá o sinal. De repente, dezenas de cães começam a latir. É possível distinguir os que estão assustados, os que dão o alerta, os que estão entusiasmados por receberem visitas e os que, simplesmente, ladram para imitar os companheiros. É assim que somos recebidos na Focinhos & Bigodes, uma associação de proteção de cães abandonados. À porta, Ana Francisco, a responsável da associação, deixa o aviso: “Vão ver aquilo que realmente somos”.

E a ideia é precisamente fazer um retrato fiel de uma associação que acolhe cães abandonados. Por isso, não é de estranhar que a conversa decorra no meio das jaulas onde cerca de 60 cães estão abrigados. Enquanto falamos, uma mulher passa por nós para limpar o corredor entre as jaulas. “Esta senhora trabalha por turnos e uns dias vem de manhã e outros à tarde. Só temos cerca de 20 voluntários aos pedaços – nem é em part-time, pois não há um horário fixo, tudo é feito consoante a disponibilidade. Eu estou reformada, por isso ando por aqui o dia todo”, explica ao i Ana Francisco.

Todos os animais têm um nome. O Obama afasta-se da câmara fotográfica com medo. “Vivia numa casa onde existia uma criança com síndrome de Down”, explica a responsável, sem adiantar pormenores. A Delta, a Happy e a Kali são bebés e só querem correr. “Duas delas foram encontradas embrulhadas numa manta junto a um separador da estrada”, recorda Ana Francisco. Cada jaula tem a sua história comovente. “Chegaram a atirar cães para o jardim de voluntários. Alguns estiveram quase a ser atropelados. Outros foram agredidos. Cada caso tem a sua história”, explica ao i. Mas Ana Francisco sabe todas de cor e não se esquece de nenhum dos seus meninos. “O Ronaldo é o que está cá há mais tempo. Não lhe sei dizer há quanto… Em que altura é que o Cristiano Ronaldo usava crista? Foi nessa altura que este cão veio cá parar – tinha uma crista como a do Ronaldo”.

Mas manter estes cães felizes e saudáveis tem os seus problemas. As contas são muitas, os braços para trabalhar são poucos, mas a vontade de ver os animais bem cuidados supera tudo. A ajuda da sociedade e das empresas privadas faz toda a diferença. “Vivemos das recolhas e das parcerias com os supermercados, que nos ajudam com ração, vassouras, pás, lixívias, entre outras coisas. Mas as rações que recebemos são de linha branca e alguns animais precisam de rações medicinais. Temos um acordo com uma empresa que nos ajuda a adquiri-las por um bom preço mas, mesmo assim, são cerca de 500 euros por mês em comida”, explica ao i a responsável da associação.

“Depois temos de pagar medicamentos, temos o apoio de um médico veterinário que nos dá assistência e conseguimos um acordo com uma clínica veterinária. Por vezes recebemos contas gigantescas – ainda há pouco tempo, uma das nossas cadelas teve de ir para o Hospital do Restelo com um problema grave. No ano passado, a nossa dose de despesas [total] foi na ordem dos 40 mil euros”, diz Ana Francisco. Para fazer face a estes encargos contam com o apoio de sócios, de empresas que nada têm a ver com o ramo mas que querem ajudar e dos padrinhos, pessoas que não podem adotar um animal, mas inscrevem-se na associação, pagam uma quota mensal de 10 euros e ajudam os voluntários nas pequenas (grandes) tarefas do dia-a-dia.

“Eu gosto disto, mas dizer que é cansativo é pouco. O nosso trabalho não é valorizado. É ótimo que exista um buraco onde se enfia os animais e haja alguém que trate deles. Esquecem-se que isto não é um depósito. Olham para as pessoas que vêm cá como as maluquinhas dos animais, que não têm nada para fazer. Ainda ontem ouvi uma senhora dizer isso: como não têm nada que fazer e não têm filhos, andam nisto. A sociedade ainda pensa assim”, desabafa Ana Francisco.

Já no final da entrevista, vemos à porta da associação um grupo de padrinhos que tinha ido passear os afilhados. Filipa, de 24 anos, ajuda a Focinhos & Bigodes desde que tinha 13. “Nesse ano, eu e uma amiga encontrámos uma cadela e não tínhamos onde a pôr. Os meus pais não gostam de ter cães em casa e, na altura, uma voluntária da Focinhos ligou-nos a oferecer-se para tratar da cadela”, conta ao i. Assim começou a experiência de voluntariado: “Comecei por limpar, dar ração, arrumar tudo. Só depois comecei a ter afilhadas e a passeá-las. Venho sempre ao domingo e, quando consigo, durante a semana”. “É preciso algum estofo para lidar com as histórias, mas eles [os animais] valem sempre a pena”, acrescenta.

Quanto ao futuro da Focinhos & Bigodes, grandes mudanças poderão surgir no futuro: “A Câmara de Lisboa quer mudar as nossas instalações e as da União Zoófila para a zona da Pontinha, para uma área que liga a Odivelas. Falam-nos num projeto para 2021. Estas instalações onde estamos agora são da câmara. Por agora, estamos a conversar, estiveram cá algumas vezes para falar sobre o assunto. Vamos ver o que acontece”, explica Ana Francisco. O i tentou confirmar esta informação junto da autarquia mas, até ao fecho desta edição, não obteve resposta.

Um refúgio para milhares de gatos Chegar à Entregatos, uma associação de proteção de animais em Sintra, não é fácil. Nem o Google Maps o ajudará a encontrar a sede. O i tinha tudo combinado com os responsáveis e só com o apoio de um deles conseguiu chegar ao destino. Ema Mock recebe-nos numa salinha que serve “para os outros trabalhos mais burocráticos, para os voluntários descansarem”, para estar um bocadinho em paz. Mas a verdade é que os gatos já tomaram conta desta pequena divisão. Alguns passeiam pelo sofá, outros estão dentro de jaulas. Ninguém diria que, passando uma porta interior, entrávamos num armazém amplo, com um pé alto enorme, onde estão mais de 250 gatos à solta. Uns estão deitados nas suas camas, outros atiram-se aos arranhadores, alguns divertem-se com os brinquedos espalhados, mas a maioria vem ao nosso encontro, cheirar, observar, perceber se somos os seus futuros donos.

E estes não são apenas gatos do concelho de Sintra: “Recebemos muitos dos concelhos vizinhos – Odivelas, Cascais, Oeiras, Loures. Mas também temos gatos do Porto, Ponta Delgada, alentejanos, de Aveiro…”, conta ao i a responsável da associação, que já teve a seu cargo mais de 3 mil animais ao longo de dez anos. Muitos escolhem esta associação porque gostam do trabalho desenvolvido na Entregatos, mas há ainda outros fatores preocupantes: “Devia existir um sítio onde se pudesse denunciar as associações nas quais as pessoas não confiam. Mas a maior parte dos casos vem cá parar porque as outras associações não recebem mais animais. Eu não estou a dizer que isso está errado – se calhar, quem está errada sou eu. Mas nalguns casos não conseguimos mesmo dizer que não. Cada vez que digo que não a um gato fico com um aperto com o coração. Não consigo recusar um bebé, uma mãe com bebés, um velhinho ou um doente”, diz Ema.

E nota-se bem o carinho desta responsável pelos seus patudos. Todos eles têm nomes e conhece a história de todos. “Às vezes aparecem uns mais antissociais, que não interagem tanto connosco, e acabo por ter alguma dificuldade em lembrar-me do nome logo de repente. Mas são a exceção”.

Ninhadas deixadas ao deus-dará, bebés maltratados pelos donos, gatos de rua espancados pela vizinhança, há de tudo um pouco na Entregatos, mas dois dos principais fatores de abandono de gatos são questões muito mais simples: “As principais causas são as alergias – muitas vezes, os pediatras nem mandam fazer exames e dizem logo aos pais para se livrarem dos animais – e a idade e a falta de capacidade para cuidar dos animais – quem dá um gato bebé a uma pessoa de 80 anos? Não se pode dar gatinhos jovens a uma pessoa idosa. Há tantos gatinhos com seis, sete, oito anos saudáveis, felizes, prontos para serem adotados”, explica Ema. O marido, Miguel, acrescenta outros pontos importantes: “A maioria dos portugueses que emigram não levam os animais consigo. Além disso, há ainda a questão do desemprego e da falta de condições financeiras para manter o animal”.

São muitas caixas de areia para limpar, muitos medicamentos para administrar, muitas taças de comida para encher, muitas consultas no veterinário para pagar.

É difícil dar conta de tudo e, tal como a Focinhos & Bigodes, a Entregatos não tem mãos a medir. “Eu e o Miguel passamos aqui entre 12 e 14 horas por dia. Foi uma opção que fizemos, mas é muito duro em termos pessoais”, conta Ema, emocionando-se. O cansaço acumulado começa a tornar-se um fardo cada vez mais difícil de carregar e as emoções ficam à flor da pele. Vale-lhe o apoio de quem está à sua volta. “Vamos recebendo donativos, estamos no quinto abrigo em dez anos e cada um é melhor que o outro. Devemos bastante dinheiro aos veterinários, é certo, mas eles confiam em nós, sabem que não ficamos a dever. É mais fácil conseguirmos ajuda financeira do que braços para trabalhar”, conta ao i.

“A câmara deu pela primeira vez um subsídio a associações, ficámos muito gratos porque, até então, nunca nos tinha sido dado nenhum. Mas esse valor não chega nem para metade do que nós gastamos aqui por mês”, diz Ema. Em média, são precisos 3 mil euros por mês para manter a associação aberta. E não há ordenados: “É tudo para medicamentos, ração boa, patês bons, areia, veterinário, chips, testes, esterilização, renda, gasolina, água e luz”.

Perante as dificuldades, não seria mais fácil baixar os braços e passar o testemunho? “Isso é que era bom!”, diz Ema, já com um olhar mais determinado. “Estamos até com um projeto para criar um abrigo de raiz. Esperamos ter novidades em breve”, explica ao i. Na verdade, o melhor que podia acontecer era que não fosse necessário avançar para outro projeto: “O nosso maior sonho é que isto acabe. E não por preguiça, mas sim porque já não há mais gatos a precisar da nossa ajuda”.

Mais abandonos O i pediu à Direção- -Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV) informações sobre o número de animais deixados ao abandono, mas este organismo, tutelado pelo Ministério da Agricultura, explicou que “não é possível determinar a evolução do número de animais abandonados” (ver páginas 20-21). As responsáveis da Focinhos & Bigodes e da Entregatos não têm dúvidas: o número de animais abandonados continua a aumentar.

“Eu penso que de há três anos para cá há mais animais abandonados. Este povo precisa de ser civilizado e não é nem sequer sensibilizado [para este assunto]. Não pode largar o animal na esquina. Se quer ter o animal, tem de se lembrar quando o acolhe que ele vive 15, 16 ou 17 anos e é um elemento da família. Não pode ser amarrado com uma corda às portas das associações, não pode ser abandonado no mato”, diz ao i Ana Francisco.

A responsável da associação de acolhimento de cães defende que deve haver mais apoio do Estado: “A esterilização é obrigatória e a legislação que saiu no sentido de as câmaras ajudarem as associações a realizarem esta intervenção na íntegra tem de ser cumprida. As associações que vivem do favor da sociedade civil não têm capital para pagar as contas todas. E há câmaras – a de Lisboa é uma delas – que já não tem capacidade para receber animais e encaminham os casos para as associações. Nós gostamos muito de colaborar, fazemo-lo com a maior boa vontade, estamos aqui porque queremos, não queremos vencimento, mas também não queremos que nos ponham este peso todo em cima”.

No caso dos gatos, o abandono tem um impacto tão grande que alguns chegam mesmo a pôr termo à vida. “Os gatos que estiveram isolados a vida toda e nunca tiveram contacto com outros da sua espécie têm de ir para uma jaula para se habituarem progressivamente à presença de outros animais. Ao fim de dois ou três dias, deprimem e morrem. Suicidam-se. Nada que façamos os anima. Os mimos, o colo, a comida à seringa, nada. O abandono mata mesmo”, refere Ema Mock, da Entregatos.

A responsável diz que o abandono de gatos está longe de terminar: “Nunca tivemos tantos gatos como temos neste momento. As pessoas acham que o termo abandono só se aplica aos animais que são largados na rua. Se forem deixados numa associação ou num canil municipal, já não é abandono”.

Ema acredita que a falta de consequências e a pobre aplicação da lei potenciam este problema: “Não há castigo para quem abandona. Algumas pessoas vêm aqui entregar animais dizendo que os encontraram na estrada e é mentira. Nós vemos nos olhos deles e dos gatos. Mas como é que nós comprovamos?” A verdade é que o Governo quer que, até 2021, todos os gatos tenham um chip, por forma a identificar o dono. “Até agora, não se viu diferença nenhuma”, garante Ema.

Outro dos problemas são os animais que nascem já na rua. “Muita gente humaniza os animais, defende que é bom os animais terem bebés e que não se deve esterilizar. Não sou contra que gatos de casa tenham filhos. Mas quando tiverem uma ninhada, fiquem com os bebés todos. Não comecem a oferecer nas redes sociais gatinhos com um mês e meio à primeira pessoa que aparece”, explica ao i. A responsável da Entregatos diz que não se importa com a opinião dos outros e só gostava que as pessoas estivessem mais informadas: “Chamam-nos radicais e assassinos porque esterilizamos todos os animais, mas gostava que estivessem aqui uns dias, só como uma mosca, a observar, para perceberem como isto funciona e o porquê de tomarmos estas decisões”.

 

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