20/8/19
 
 
Governo enfrenta incêndios a três meses das legislativas

Governo enfrenta incêndios a três meses das legislativas

Patrícia de Melo Moreira/AFP Ana Petronilho 22/07/2019 09:28

População queixa-se de falta de meios e presidente da Câmara de Mação diz ao i que não recebeu qualquer contacto do posto de comando estacionado em Vila de Rei.

Dois anos decorridos sobre os incêndios de Pedrógão Grande e de 15 de Outubro, que mataram 115 pessoas, a região Centro do país volta a enfrentar a fúria das chamas. Mais uma vez, são apontados erros no combate ao fogo.

Com a memória ainda fresca das falhas no combate às chamas e no socorro das populações, esta é uma prova de fogo para o Governo, que tem no horizonte as legistativas, com a ida às urnas marcada para daqui a menos de três meses.

Tendo em conta o historial de incêndios fatais no país, a imprensa internacional já está de olhos postos em Portugal, com a Al Jazeera, a Deutsche Welle, a agência France Press ou a BBC a escrever várias notícias sobre os fogos portugueses e a fazer manchete com títulos como “Chamas enormes forçam evacuações”.

À hora de fecho desta edição, estavam ativos dois incêndios que lavravam, há já 48 horas, nos concelhos de Sertã e Mação. As chamas chegaram a ser consideradas dominadas mas o cenário agravou-se e os incêndios descontrolaram-se.

Em Mação, das 23 aldeias do concelho, eram 15 as que estavam em perigo, cercadas pelas quatro frentes de fogo ativas. Até ao final da tarde de ontem tinham ardido quatro habitações e a praia fluvial de Cardigos, onde estavam cerca de 1.300 pessoas, foi evacuada.

O número de pessoas assistidas pelo INEM ascendia a 30, dos quais 20 feridos (8 bombeiros e 12 civis). Um dos feridos está em estado grave com diagnóstico reservado, com queimaduras de primeiro e segundo grau, tendo sido internado na unidade de queimados do Hospital de S. José, em Lisboa. A vítima é uma moradora da zona de Vale da Urra, do conselho de Vila Real, que estava a ajudar no combate às chamas em Vila de Rei.

Horas depois de ter dado entrada no hospital, Marcelo Rebelo de Sousa – que está em Marvão a acompanhar “de perto” a situação – visitou a vítima. O chefe de Estado fez ainda saber que assim que as chamas estiverem extintas vai visitar os concelhos afetados e que “haverá tempo para balanços, comparações e retirar lições”.

Já o primeiro-ministro ainda não prestou qualquer declaração sobre os incêndios e o ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita diz ter “toda a confiança” na “estrutura operacional que está no terreno”.

As chamas tinham uma frente de 25 quilómetros e estavam cortadas ao trânsito quatro estradas – a EN2, que liga Vila de Rei a Fundada, a EN 244, a EN 244-1 e a EN 348.

No terreno, para combater as chamas em Mação e Vila de Rei, estavam 833 bombeiros de todo o país, apoiados por 258 viaturas e 15 meios aéreos, de acordo com a Proteção Civil. No concelho da Sertã estavam mais 449 bombeiros, com 127 viaturas e dois meios aéreos. Um dia antes, o Exército e as Forças Armadas enviaram 20 militares e quatro máquinas de rasto para apoiar na abertura de caminhos de forma a facilitar o acesso dos bombeiros.

A União Europeia está a fazer mapas satélite dos incêndios e fez saber que está a “acompanhar de perto” a situação, frisando que está “pronta para fornecer mais ajuda”.

Mas, até ao final da tarde de ontem, o Governo ainda não tinha ativado o Mecanismo Europeu de Proteção Civil, através do qual os países europeus disponibilizam meios de combate às chamas.

Erros apontados De acordo com os relatos de vários residentes dos concelhos em chamas, os carros de bombeiros não são suficientes para acudir às zonas afetadas.

Ao i, o presidente da Câmara de Mação, Vasco Estrela também apontou a “escassez de meios” para a dimensão do incêndio. “A maioria dos meios estavam a combater as chamas em Vila de Rei e nem sempre as coisas correram bem”, lamenta Vasco Estrela, que acrescenta que “houve várias alturas que não houve descargas de meios aéreos”.

O autarca salienta ainda que, até ao final do dia de ontem, mais de 24 horas depois de o incêndio de Vila de Rei ter alastrado para o concelho de Mação, não tinha recebido qualquer contacto do posto de comando da Proteção Civil, estacionado em Vila de Rei. “Ao fim de todas estas horas, do posto de comando de Vila de Rei ainda ninguém falou comigo”, lamentou. Até à hora de fecho desta edição o autarca disse ao i que os contactos que tinha recebido eram do secretário de Estado da Proteção Civil, José Artur Neves, e do comandante distrital de Santarém, que tinha saído do concelho de Mação “à hora de almoço” de ontem.

O Observatório Técnico Independente, criado pelo Parlamento para acompanhar os incêndios florestais, alertou ontem que há “problemas que não estão completamente resolvidos”. Por isso, os peritos fizeram saber que vão fazer um relatório sobre estes incêndios.

Também o analista de gestão de risco de incêndio Emanuel Oliveira salientou que desde 2017 que a “paisagem não mudou” e que continua “sem gestão”, dificultando o combate às chamas.

E, enquanto não se reforçar a aposta na limpeza dos terrenos, a área florestal “vai continuar a arder”, Até porque “os meios aéreos, por si só, não resolvem os problemas”, remata Emanuel Oliveira.

Chamas consomem o que não ardeu em 2017 O vice-presidente da Câmara de Mação, António Louro, que tem o pelouro da Proteção Civil, disse que já arderam “60% dos sete mil hectares” de área florestal do concelho que tinha sobrevivido aos incêndios de 2017. No total, entre Vila de Rei e Mação já ardeu mais de 8.500 hectares de floresta que tinha sobrevivo às chamas de 2017.

Entretanto, o fumo dos incêndios florestais em Portugal já criou uma “nuvem” que cobriu uma boa parte da Extremadura espanhola, segundo os serviços meteorológicos espanhóis. Em declarações à agência espanhola EFE, o delegado territorial da Agência Estatal de Meteorologia (Aemet), Marcelino Núñez, disse que a “nuvem” era bastante densa em certos locais, como por exemplo em las Vegas Guadiana (Badajoz), provocando mesmo uma descida nas temperaturas locais até quatro graus.

Um detido Cerca de 24 horas depois do início dos incêndios, a PJ deteve ontem um suspeito de atear um fogo nas redondezas de Castelo Branco. Trata-se de um homem de 55 anos que é suspeito de colocar “um foco de incêndio em zona florestal povoada com pinheiros e mato, dentro de uma vasta mancha florestal, que teria proporções mais gravosas caso não tivesse havido uma rápida intervenção dos bombeiros”, escreveu em comunicado a PJ. O suspeito vai ser presente a juiz para conhecer as medidas de coação, sendo-lhe imputada a “prática de crime de um incêndio florestal”.

Também o ministro Eduardo Cabrita disse suspeitar das circunstâncias em que deflagraram os incêndios. “Há uma estranheza. Como é que cinco incêndios de dimensão significativa numa zona muito próxima?”, questionou o ministro da Administração Interna, que fez saber que as autoridades estão no terreno a investigar as causas e origem dos fogos.

Ao final da tarde de ontem, as autoridades encontraram vários artefactos explosivos em várias zonas do concelho de Vila de Rei, avançou a Sic Notícias. Com Rita Pereira Carvalho

 

Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×