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Espaço Ulmeiro. A morte a crédito de uma livraria histórica

Espaço Ulmeiro. A morte a crédito de uma livraria histórica

Diogo Vaz Pinto 18/07/2019 12:09

O Espaço Ulmeiro vem adiando o “dia do juízo” desde há três anos, tendo transformado o seu estertor numa rotina. Se isto lhe permitiu celebrar o meio século de existência no número 13A da Avenidade do Uruguai, em Benfica, a livraria que deve o nome às árvores que ladeiam os passeios na zona vai mesmo fechar portas. Se conseguir apoios, talvez reabra noutra morada. Mas se a crónica desta morte anunciada levou alguns a falarem numa “persistência quixotesca” do seu fundador, José Antunes Ribeiro, o que ninguém disse foi como, à margem da lenda, o desleixo tomava conta do espaço e os livros há muito eram tratados como lixo.

Morrer não é assim tão fácil, já o sabemos, mas há um talento particular em viver de uma morte anunciada, dando folga ao sobressalto que a notícia causa, não só para se recriar mas para rentabilizá-lo. Aí, sim, quando se morre faz muito, estamos diante de um ofício notável, e o luto antecipado torna-se uma ocupação profissional. Antigamente, notou Rilke, “sabia-se (ou talvez se pressentisse) que se trazia a morte dentro de si, como o fruto o caroço”, e o poeta adianta que isto dava às pessoas uma dignidade particular. Ora, em tempos de obtusa devastação, impõe-se uma arte da agonia. E se uns morrem como calha, se há esses que se finam sem aviso nem cerimónias e outros que reservam para as despedidas um certo decoro, escolhendo aquela morte cortês da boa sociedade, temos visto surgir também os pavões da morte. Há por aí exemplares de espécies que, sabendo-se ameaçadas, desenvolvem com a morte um pacto, exibem-na e servem-se dela como uma forma de extorsão, e vão definhando alegremente, vivendo uma morte a crédito, em suaves prestações. São já adaptações, novos modos de comércio, de quem sabe acolchoar as coisas. Assim, se muitos hoje andam aí com a expressão do susto, outros vivem as circunstâncias drásticas dos nossos dias como uma espécie de apocalipse pachorrento.

Desde há pelo menos três anos, a Livraria Ulmeiro anda a tourear a sua extinção “como quem não quer a coisa”. Parece que é desta que vai mesmo fechar as portas. Mas quem pode saber? O seu boletim clínico tornou-se uma espécie de folhetim, e ainda há não pouco tempo se dizia que tinha ganhado um novo fôlego e que, em 2019, ano em que se assinalam os 50 anos de existência, o Espaço Ulmeiro iria renascer, voltando a assumir o relevante papel que chegou a ter como editora independente. Não só isso: foram prometidas melhorias no espaço, obras, planos muitos, castelos no ar. E se a livraria irá agora abandonar o número 13A da Avenida do Uruguai, o casal proprietário, Lúcia e José Ribeiro, admite procurar outro pouso na cidade. Foi feita, contudo, uma ressalva importante por José Ribeiro, vincando que, para isso, seria indispensável o apoio da câmara ou da junta.

Por agora, e até ao fim do mês, continua patente na Fábrica Braço de Prata uma “grande exposição em regime de festa”. Mas se houve alguma mobilização para impedir que a histórica livraria encerrasse, se o espaço contou até com a visita de Marcelo Rebelo de Sousa, e os meios de comunicação foram marcando presença, e não se poupou nos violinos, ninguém parece ter-se perguntado se haveria razões que justificassem salvar esta livraria.

Nos últimos três anos, à medida que os insaciáveis coveiros e ladrões de esqueletos acorriam àquele antro insalubre, com o seu característico fedor da bandalheira preguiçosa, o que ninguém acautelou foi a tremenda desilusão que acometeria o incauto visitante, convocado a descobrir e também contribuir para salvar a livraria que há muito se encontra num estado de degradação medonha. A livraria, que vem funcionando em modo de liquidação total, começou a aceitar doações, e assim o espaço foi ficando cada vez mais atafulhado de pilhas de lixo solidário. Nas condições atuais, trata-se de uma cloaca em que os livros, em vez de erguidos em muralhas, parecem meio digeridos por um estômago incapaz e cansado. Nem é preciso entrar para se levar uma primeira sova, ao ver aquele amontoado de farrapos mutilados. É de tal modo feia que parece a obra de “um orgulho renhido e soturno” (Bruno Schulz), e quem esperava entrar e descobrir alguma pechincha é vencido desde logo. Mas se mesmo assim aceitamos o desafio, “vamos envolver-nos em confusões intermináveis até a nossa febre e a nossa emoção se esgotarem, gastas por esforços inúteis, por uma vã procura”. No meio deste desarranjo, dar com um livro que, por um bom preço, gostaríamos de levar, é como ser sacudido pelo seu apelo, e dispomo-nos a fazer regateios confusos pois, desta vez, não se trata tanto de satisfazer a avidez de colecionador adquirindo certa obra como de fazer alguma coisa por ela, libertá-la daquele desonroso suplício.

Depois da unção com que se entra num território devassado como este, há o estremeção que toma conta dos sentidos, e, para lá do abalo claustrofóbico, da névoa asmática entre a qual damos pelo silvo da nossa respiração a estreitar-se, levamos um bom quarto de hora só para habituar a vista a esta luz de “aurora lúgubre”, começando a discernir os títulos, fixar alguma coisa entre o formigueiro de letras, das capas esmaecidas, desse rebotalho de papel misturado com cassetes, quadros, numa absurda acumulação de tralha. A incontornável sensação que se tem diante de um antro modorrento como este é a de que nada de pior se poderia fazer para ferir de morte o prestígio dos livros. Para quem trabalha com eles, para quem tem essa paixão e a cultiva minimamente, é desolador ver tanto trabalho, tanta dedicação e cuidado entregue a um desleixo que arranca qualquer volúpia por este objeto.

No ano passado, em entrevista ao Público, José Ribeiro confessava que, se sentia pena de se despedir do projecto de uma vida, ao mesmo tempo estava a vivê-lo como “uma espécie de alívio”. O livreiro explicava então que há um cansaço que se arrasta no tempo. “Não mata mas mói, e obviamente que chegar ao fim não é agradável, mas há momentos em que as coisas são o que são”.

Estamos já mais do que treinados para cheirar à distância a infindável patranha de uns que praticam o seu culto à volta dos livros como de um moribundo, os insaciáveis coveiros que acorrem sempre que soa o alerta para algum cetáceo em decomposição, tendo encalhado depois de subir o rio. E, no entanto, quando numa das reportagens saídas nos últimos tempos vemos o espaço descrito como uma “arca transbordante de livros”,  é difícil desculpar a intrujice que se torna capaz do mais engenhoso dos eufemismos para esconder esta forma de gangrena. E quem quer que ouse desmontar este retrato que mistura doses nauseantes de heroísmo e melancolia vê-se imediatamente alvo de um chilreio de imprecações por parte desses que se portam como os cavaleiros da defunta ordem da literatice.

Mas o aspecto mais grotesco de uma morte que deveria ser apressada e não adiada, até para preservar a memória de um projecto de intervenção cultural que teve um papel assinalável na resistência à ditadura, é a forma como se cede a uma desavergonhada propaganda, confundindo este espaço com aqueles que mantêm de facto uma “persistência quixotesca”, construindo e mantendo vivos esses labirintos preenchidos de restos arqueológicos, bricabraques, arquivos danados que se recusam a revelar à primeira vista o conhecimento que possuem.

Nada atraiçoa mais o espírito de um projecto como o Espaço Ulmeiro do que esta forma de delírio que se faz valer do verniz de um recorte fotográfico manhoso para embelezar um desastre, imagens trapaceiras, ângulos matreiros, o preto e branco que é meio caminho andado para os serviços de taxidermia, documentários que sabiamente desfocam o fundo, se servem de uma musiquinha vivaz, montagens fílmicas que, na comparação com a realidade, produzem, afinal, uma crítica assassina daquilo que pretendem honrar.

Há muito que a Ulmeiro não integra a rota que o bibliófilo percorre nesse secreto prazer de passear por bairros que ainda não cederam à estéril efemeridade dos roteiros turísticos, à depredação imobiliária em que nada persiste e tudo está na iminência de dar lugar a outra coisa. Hoje, as livrarias e alfarrabistas que resistem são as poucas âncoras em cidades que vão sendo convertidas em territórios movediços e em constante evanescência, essas pequenas lojas que estão a desaparecer distinguem-se pela forma como nos oferecem a possibilidade de instituir o quotidiano. A livraria, como notou Jorge Carrión, no livro que dedica ao tema, é “um espaço centauro, nem todo ele privado, nem todo ele público”, e articula-se com a rua, a praça, o café, configurando "as rotas da modernidade como âmbitos de duas acções fundamentais: a conversa e a leitura”.

A Ulmeiro abandonou esse discreto tracejado que obriga a paragens obrigatórias na passeata, não enquadra já as inflexões nas visitas aos alfarrabistas que se sabem abastecer com alguma regularidade, nutrindo-se do passado sem deixar de sentir o pulso do presente; esses lugares onde o aparente caos revela, afinal, uma razão autónoma, e cujos proprietários conservam ainda “aquelas subtis habilidades, aquelas intuições gratificantes, aquele saber lacónico que são virtudes do autêntico livreiro, espécie em vias de uma eminente extinção” (Álvaro Mutis).

Mais do que reconhecer a crise do setor, vir falar na falta de leitores e na perda de poder de compra por parte da classe média, como fez José Ribeiro para justificar o encerramento da livraria, é preciso compreender que, na sua desorientação e desespero, nenhum outro setor como o do livro se aplicou tão ferozmente a desvalorizar a mercadoria que pretende impingir. Só o livro chega ao mercado já em saldos, e, marcado por esse pecado original, vai-se arrastando até acabar a ser vendido a preços irrisórios nas feiras, chegando ao ponto de ser dado ou guilhotinado para poupar nas despesas de armazenamento. Mas esta desvalorização não começa nem acaba no preço. Além do chamado lixo editorial, há essa forma de perda de prestígio a que o livro é sujeito sempre que, na forma como é exposto, fica sujeito às piores condições de desgaste físico, num caos sem tumulto, como esses restos humilhados, as marcas de uma longa carreira de rejeições sucessivas. 

E esta forma de destituição do livro causa ainda maior aviltamento quando entra em choque com o discurso do livreiro que se tem desdobrado em entrevistas e intervenções exaltantes, lembrando que “os livros não têm prazo de validade”. E depois há esses incontidos laivos de soberba de um homem que, ao depor as armas, não resiste a entreter a própria lenda. E no documentário sobre a Ulmeiro de António Castelo e Andreia Friaças, numa cena bastante curiosa, esfrega demorada e ruidosamente as mãos enquanto fala, e no auge da auto-satisfação conclui: “Se eu não fosse irresponsável isto nunca tinha nascido”.

Este poderia ser um texto sobre a importância histórica daquela “livraria de resistência”, poderíamos recordar o assédio da PIDE ou o cortejo de gradas figuras da nossa cultura que por ali passaram ou que tiveram títulos publicados com o selo da Ulmeiro. Poderíamos também destacar esta ou aquela saída brilhante de José Ribeiro, como quando afirmava que Salvador, o gato que recebia os clientes à porta, tinha um papel fundamental, agindo como “o diretor de marketing” daquela operação. Seria justo também homenagear o percurso desse “puto que nasceu numa aldeia onde não se lia, como era o meu caso, numa casa onde não havia livros, com pais analfabetos, que descobriu as bibliotecas [itinerantes] da Fundação Gulbenkian e teve uma professora primária, que teve uma influência enorme, e que opta por ir para Lisboa para ser livreiro, editor”. Acontece que isso já foi feito, e já vai longa a volta desses passageiros mitómanos enfiados num elétrico fantasma em direção ao postal de uma cidade entre a fábula e a mentira. Mas se o próprio José Ribeiro notou que depois de um certo frenesi mediático muita gente acorreu à livraria e as vendas até aumentaram, também já percebeu que “a realidade quotidiana ultrapassa sempre a boa vontade”. Com uma certa candura, na entrevista ao Público, acrescentava: “Um tipo fica na crista da onda, mas por pouco tempo. E depois há uma adesão sentimental que não se traduz em resultados práticos.” Mas onde se trai é quando confia cegamente no vigor do livro, dizendo que, como objeto este “consegue sempre sobreviver no meio de uma catástrofe”.

Acontece que o livro é quem sai pior deste agonizante final, e, por isso, para nos lavarmos desta visão tão concreta da catástrofe que hoje se coloca como um destino plausível para os livros, nada como recuperar essa memória idílica que vem de uma ardente consciência ainda sem leituras, desse pasmo diante da promessa desse objeto desencadeador de mundos. Todos os amantes dos livros têm uma vaga lembrança desse assombro ainda infante, animado pelo enlevo próprio da inocência, um deslumbramento que é um modo de se ganhar um balanço que durará a vida toda. E num esforço para resgatar “O Livro” nada como citar uma das mais fabulosas descrições desse despertar, no conto com o mesmo título que abre Sanatório sob o signo de clepsidra, de Bruno Schulz, titulo editado há poucas semanas e de que, em breve, esperamos dar conta nestas páginas. Nessa cena vemos o ressuscitar desse ânimo fundador, dessa antecipação sublime das aventuras que cabem entre capa e contracapa: “O Livro... Em algum lugar, no amanhecer da infância, na primeira alvorada da vida, resplandecia o horizonte da sua luz amena. Estava pousado na escrivaninha do pai, cheio de glória, e o pai, nele imerso em silêncio, roçava pacientemente com o dedo salivado a superfície dos decalques, até que o papel cego começava a tornar-se baço, turvo, a delirar com um pressentimento delicioso e, de repente, descascava-se em pêlos de papel crepe, desvendando um rebordo colorido, cheio de finas pestanas, enquanto o olhar descia, desmaiando numa alvorada virginal de cores divinas, numa humidade maravilhosa dos mais puros azuis.” Mas há mais, o conto que arranca o volume e que é uma ode à bibliofilia, ainda nos diz do Livro outros aspetos deste fascínio: “E quando o vento folheava silenciosamente as páginas, agitando cores e figuras, um tremor escorria pelas colunas do texto, soltando cotovias e andorinhas do meio das letras. Assim revoavam, dissipando-se, página após página, e infiltravam-se suavemente na paisagem, impregnando-a com as suas cores. Às vezes, o Livro dormia e o vento abria-o silenciosamente, como se fosse uma rosa de cem pétalas; desvendava-se pétala por pétala, pálpebra sob pálpebra, todas cegas, veludosas e adormecidas, escondendo no âmago, no fundo, uma pupila azul, uma medula de pena de pavão, um ninho gritante de colibris."

 

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