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Como é que Freitas do Amaral pagou a dívida de mais de 2 milhões da campanha?

Como é que Freitas do Amaral pagou a dívida de mais de 2 milhões da campanha?

Jornal i 30/06/2019 15:38

PSD de Cavaco Silva, que tinha apoiado candidatura, negou-se a ajudar a saldar a dívida “colossal”.

Freitas do Amaral dedicou um capítulo inteiro “ao pesadelo das dívidas da campanha”. O fundador do CDS recorda que só se apercebeu da gravidade da quantia um mês e meio após a derrota na segunda volta das presidenciais de 1986 contra Mário Soares. Até à data, a existência de dívidas tinha-lhe sido apresentada de maneira a não “criar receios”. Mas bastou a ordem de um levantamento global das mesmas para perceber que o montante era “verdadeiramente aterrador”. No total, Freitas do Amaral viu-se com uma dívida de 460 mil contos, o equivalente hoje a cerca de 2,3 milhões de euros, “sem contar com a inflação”.

Mas o “pesadelo” estava apenas a começar. Apenas havia dinheiro para pagar pequenas dívidas e as contribuições tinham secado.

Rapidamente, a comunicação social tomou conta do assunto e o ex-candidato presidencial chegou a ser acusado de ter violado a lei eleitoral. “Não houve nenhuma ilegalidade”, garante, justificando que “a maior parte das despesas” foi feita durante “a longa” pré-campanha de oito meses. Toda a produção de material de propaganda também foi paga antes de a campanha começar, garante. Apesar de ter “fama de milionário”, a única garantia que Freitas do Amaral podia dar a um banco para realizar um crédito e saldar as dívidas era a sua casa na Quinta da Marinha que, sendo “a morada” da sua família, não queria colocar em risco. Assim, não era possível pagar aquelas contas do seu bolso e a criação de um plano de pagamento era necessária. Na sua procura de soluções, refere que a opinião que mais ouviu foi “a de que não devia pagar nada”, pois “os credores acabariam por aceitar terem perdido a sua aposta”. Mas esta hipótese, segundo o próprio, ia contra um dos seus princípios fundamentais: “As dívidas são para pagar”. A preocupação tornou-se tão grande que Freitas do Amaral confessa que não conseguiu dormir durante dois dias. O ex-dirigente concluiu que a responsabilidade da dívida deveria ser “partilhada com os dois partidos políticos que tinham apoiado oficialmente a [sua] candidatura – o PSD e o CDS”. Apesar de ter recordado Adriano Moreira e Cavaco Silva de que ambos os partidos tinham “ganho alguma coisa” com o seu resultado, prevaleceu o “egoísmo partidário”, conta. “A posição do CDS foi que, se o PSD pagasse, o partido pagaria na proporção das respetivas posições no parlamento, que era nessa altura de um para quatro. E o PSD recusou, alegando que nada ficara escrito sobre o assunto aquando da candidatura”, explica.

No final, Freitas conseguiu pagar as dívidas, após ter enviado cartas a cerca de 2500 “pessoas amigas, conhecidas, parentes, amigas de amigo”, a pedir um contributo. As cartas, que foram em duas levas, seguiram por todo o país, assinadas por Proença de Carvalho. Orgulhoso de ter ultrapassado “dois anos de angústia” e pago tudo “até ao último tostão”, Freitas do Amaral refere que “ficou uma lição para todos os candidatos presidenciais: quem é candidato com o apoio de um ou mais partidos deve fazer antes um contrato com eles em que se defina se os partidos assumem as dívidas todas ou parte delas”. Contudo, o fundador do CDS confessa que ainda hoje se questiona: “Se eu tivesse ganho as presidenciais, será que o PSD e o CDS se teriam recusado a contribuir para ajudar a pagar, ao menos em parte, as dívidas da minha campanha?”.

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