16/9/19
 
 
José Cabrita Saraiva 24/06/2019
José Cabrita Saraiva
Opiniao

jose.c.saraiva@newsplex.pt

O faro de Boris

O anúncio da demissão de Theresa May, fragilizada por sucessivas derrotas políticas, estendeu a passadeira vermelha a uma das mais extravagantes figuras da política internacional, Boris Johnson.

O anúncio da demissão de Theresa May, fragilizada por sucessivas derrotas políticas, estendeu a passadeira vermelha a uma das mais extravagantes figuras da política internacional, Boris Johnson. Um dos aspetos que depressa saltam à vista no ex-ministro dos Negócios Estrangeiros e antigo mayor de Londres é o seu cabelo louro despenteado (houve quem previsse que ia haver uma luta pelo poder quando ele apareceu com um corte mais consensual). Mas Boris é conhecido sobretudo pelas suas gafes, comentários embaraçosos e incidentes diplomáticos. Ficou célebre o que escreveu no Telegraph sobre Hillary Clinton em 2007 : “Tem o cabelo pintado de louro e lábios carnudos, e um olhar azul de aço, como uma enfermeira sádica de um hospital psiquiátrico”. Por isso, houve quem questionasse se a sua nomeação como ministro dos Negócios Estrangeiros era uma piada de mau gosto. Apesar de incidentes desse tipo, Boris é de longe o favorito na corrida à sucessão da primeira-ministra. Mas tem mais um pequeno obstáculo no caminho: a notícia de que terá estado envolvido numa discussão acesa com a sua namorada. Uma vizinha ouviu gritos no apartamento e chamou a polícia. Evidentemente, o caso tornou-se um dos temas quentes da campanha para a liderança dos conservadores e será explorado ao máximo. Existe hoje uma corrente puritana que defende tolerância zero para com os políticos. “Cometeu uma gafe? Fora com ele”. “Foi inconveniente? Tem de sair”. E assim sucessivamente. Só que por essa ordem de ideias ficaríamos apenas com os políticos de plástico, aqueles produtos pré-cozinhados que não se comprometem nem arriscam, que pensam duas ou três vezes antes de agir, que não exibem emoção que não seja cuidadosamente ensaiada. Mas será que é isso que queremos, ver a democracia reduzida à mais insossa mediania? Johnson, pelo contrário, é capaz de cometer as maiores gafes e de irritar muita gente. Pode ser truculento e malcomportado. Mas é também um político brilhante, com um faro apuradíssimo. Consegue ser engraçado e cativante. Sem figuras como ele, a política não tinha graça nenhuma. 

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