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Carlos Carreiras 22/05/2019
Carlos Carreiras

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Conferências do Estoril: dar poder à humanidade

As Conferências do Estoril definem-se como uma janela do mundo para o mundo. Em coerência com essa visão, nada melhor do que trazer até Portugal um homem que todas as semanas entra em nossa casa para ler o mundo como só ele sabe: Fareed Zakaria.

Perceber o que se está a passar no mundo é cada vez mais decisivo para sobreviver à dinâmica de transformação acelerada que varre as nossas sociedades. Isto é válido para os países, para as empresas e para os indivíduos. 

Na era da conectividade absoluta e da disrupção tecnológica, a regra é a da imprevisibilidade. O domínio da informação é a chave do sucesso. 

Cascais oferece ao país uma oportunidade única para compreender os movimentos tectónicos da política internacional e das sociedades que compõem o mundo globalizado. 

Começam já na próxima segunda-feira as Conferências do Estoril. Durante três dias, de malas feitas do Centro de Congressos do Estoril para o campus da Nova SBE em Carcavelos, dezenas de oradores de classe mundial tentarão responder a desafios filosóficos que atormentam intemporalmente o homem. Como o consenso sobre a ideia de justiça, direitos e deveres humanos ou a necessidade de um apelo para erradicar as desigualdades. Outras questões, mais prosaicas mas não menos importantes, também estarão em cima da mesa. Trinta anos depois da queda do Muro de Berlim, queremos saber o que sobra do comunismo como projeto político. E, mais ainda, o que seria de nós se esse muro da vergonha não tivesse caído. Como estaremos no day after das eleições europeias, vamos descodificar o que está a acontecer à nossa União em particular e à sociedade liberal e ocidental em geral.

Começamos com um zoom-out sobre uma questão quase tão antiga quanto a natureza humana: a pobreza. Será a ausência de condições materiais de existência o maior crime contra a humanidade? A provocação está feita a nada mais nada menos que três Prémios Nobel. Edmund Phelps, um americano Nobel da Economia, Bernard Kourchner, francês fundador dos Médicos sem Fronteiras e Nobel da Paz, e Rigoberta Menchú, a guatemalteca também Nobel da Paz, partilham pela primeira vez o palco em Cascais. 

E porque o púlpito está entregue aos Nobel, prepare-se para uma viagem ao lado mais sombrio da (des)humanidade e dele seja resgatado pelo admirável Denis Mukwege. Médico ginecologista em Bakuvu, tratou e acolheu mais de 46 mil mulheres vítima da mais abjeta violência no inferno em que a República Democrática do Congo se transformou durante a guerra. Denis, um combatente humanitário, esteve onde nós nunca estivemos, viu o que nós nunca vimos. Venceu o Nobel da Paz em 2018. 

Com outras armas, outra combatente pela liberdade e pela dignidade é Svetlana Alexievich. A escritora bielorrussa, vencedora do prémio Nobel da Literatura em 2015 e autora dos magistrais Vozes de Chernobil e O Fim do Homem Soviético, também estará entre nós para identificar e derrubar velhos e novos muros que fragilizam as nossas democracias.

A crise do regime representativo vai ser tratada a fundo por uma jornalista e historiadora de estatuto mundial. Anne Applebaum, que também venceu um Pulitzer com o seu fantástico livro Gulag, procurará remédios democráticos para a democracia.

Com grande amplitude geográfica, as conferências dão naturalmente maior destaque ao nosso espaço civilizacional. 

Pierre Moscovici, um dos mais poderosos comissários europeus, faz uma viagem relâmpago às conferências para encontrar o equilíbrio entre justiça fiscal, direitos humanos e valores europeus. 

Guy Verhofstad, antigo primeiro-ministro belga e uma das vozes mais importantes da construção europeia, lidera os liberais europeus. Está entre nós para fazer uma defesa apaixonada da nossa União no rescaldo de umas eleições imprevisíveis. 

Durão Barroso e José Luis Rodríguez Zapatero, um social-democrata e um socialista, dois ex-primeiros ministros de Portugal e Espanha em tempos difíceis, embarcam num diálogo improvável. Recordarão as lições do seu tempo e a forma como elas podem ser úteis para perspetivarmos um futuro mais próspero para a península Ibérica e para a Europa.

Carlos Mesa, Luís Alberto Lacalle e Miguel Otero. Dois presidentes (da Bolívia e Uruguai) e um diretor de jornal venezuelano. A América Latina, tantas vezes olhada como um laboratório para as ideologias revolucionárias, vai deixar-nos algumas lições sobre as experiências socialistas. 

O combate à corrupção será o mote de um dos painéis mais polémicos das conferências. Sérgio Moro, o superjuiz brasileiro transformado em ministro da Justiça de Jair Bolsonaro, partilha o palco com a ministra da Justiça do Governo português, Francisca Van Dunem, e com a antiga procuradora-geral da República Joana Marques Vidal. Há hoje a ideia clara de que o combate à corrupção é absolutamente decisivo para credibilizar as democracias e anular uma das mais grosseiras fontes de agravamento de desigualdades. Mais nos dirão os protagonistas da justiça em Portugal e Brasil. 

Uma das características do séc. xxi é que ele é mais metropolocêntrico. Isto é, as cidades são unidades cada vez mais determinantes. O ordenamento das cidades, ou a falta dele, é replicador de desigualdades. Souto Moura e Siza Vieira, os dois Pritzker portugueses, vão dizer--nos como a arquitetura pode contribuir para que as cidades, os espaços políticos por excelência, sejam cada vez mais geradoras de solidariedade, inovação e inteligência. 

As Conferências do Estoril definem-se como uma janela do mundo para o mundo. Em coerência com essa visão, nada melhor do que trazer até Portugal um homem que todas as semanas entra em nossa casa para ler o mundo como só ele sabe: Fareed Zakaria, o autor de vários best-sellers e estrela da CNN com o seu Global Public Square.

Um país que debate com pluralismo. Que pensa fora da caixa. Que faz a ponte entre todas as geografias. Este é o posicionamento que define Portugal como ator insubstituível no concerto das nações. 

Que Cascais contribua para isso só pode ser, para nós, motivo de orgulho. 

Seja bem-vindo às Conferências do Estoril.

 

Escreve à quarta-feira

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