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Antonin Artaud. Uma dor que fala contra toda a esperança

Antonin Artaud. Uma dor que fala contra toda a esperança

Diogo Vaz Pinto 15/04/2019 11:58

Saiu há semanas, com selo da Flop, Para acabar de vez com o juízo de Deus e outros textos finais (1946-1948), uma antologia de Artaud que nos coloca perante uma denúncia que só por pura hipocrisia tantos hoje subscrevem sem qualquer implicação concreta

Era miúdo e andava a tentar pôr ordem numa carta dirigida não sei a quem nem com que propósito. O mais natural era que fosse algum pedido de desculpas. Nos rascunhos que se acumulavam ao tentar explicar-me na língua do arrependimento, as letras bem largas não se liam melhor, em boa parte porque a caneta que me veio à mão primeiro era vermelha. Ao dar a carta a ler a um adulto, fui obrigado a passá-la a limpo mais uma vez depois de me ter dito que escrever a vermelho é como mandar o destinatário à merda. Na edição de uma parte substancial dos escritos finais de Artaud, é evidente que esta falta de educação foi levada em conta pela Flop ao escolher esta cor para a letra. E nem são muitas as páginas que o leitor vira antes  que a “criança que se incendiou a si própria” o deixe bem claro: “E agora,/ quero dizer-vos, a todos os seres,/ que me estive sempre a cagar para vocês.” 

Por esta altura, para lá das questões de etiqueta em que passamos a vida mergulhados como em formol, faz parte do mito desgrenhado de Artaud e é, portanto, do conhecimento geral o grau do transtorno com que conseguiu, por fim, escapar ao longuíssimo e infernal internamento em asilos psiquiátricos. Depois de quase uma década, e com outras tentativas goradas pelo meio, houve um conjunto de amigos que conseguiram providenciar as condições para que deixasse Rodez. Ali, em três anos e meio, e contra todas as suas forças, foi submetido a cinquenta e uma sessões de electrochoques, como lembra Pedro Eiras na nota de apresentação do volume. Numa delas fracturou uma vértebra, noutra chegou a ser dado como morto, despertando do coma quando já ninguém o esperava. Saiu a 25 de Maio de 1946, e regressou a Paris numa liberdade vigiada e para espalhar o susto por aqueles que se lembravam “do jovem actor de beleza radiosa”, agora transformado “num fantasma descarnado, sem dentes, febril” (no testemunho de Claire Goll). É difícil saber com que linha se terão cosido esses meses que lhe restavam, com um cancro em fase terminal a roê-lo mesmo nas horas silenciosas. Quem o encontrou morto foi o jardineiro da casa de saúde onde vivia. Estava sentado ao lado da cama, e, como nos conta Aníbal Fernandes num dos imprescindíveis textos que assinou para nos situar entre as várias traduções que nos tem legado de Artaud, este tinha deixado uma última anotação escrita num caderno: “continuarem a fazer de mim este enfeitiçado eterno, etc., etc.”

Essa morte, a 4 de março de 1948, e após ter ingerido uma dose excessiva de hidrato de cloral, acaba por ser um detalhe desses cujo rigor não corresponde minimamente à verdade. Há muito que Artaud mostrava como as circunstâncias que selam uma condenação à morte apenas dilatam o período de agonia de modo a que todos os carrascos possam forjar os seus álibis. De resto a 26 de Janeiro de 1930 numa carta sua a um médico, ele falava da exiguidade do espaço que tinha para sobreviver estando na sua pele. “Sofro com angústias devoradoras. Quando entrei esta manhã em casa fui sacudido por soluços nervosos, sufocações que me dobravam ao meio. Ando cada vez mais obcecado pela ideia do suicídio, e tanto mais terrível ela é por me surgir como única saída LÓGICA. Mesmo que eu não esteja às portas da morte, estou moralmente a morrer.”

Nesse texto fulcral que é “Van Gogh, o Suicidado da Sociedade”, Artaud lembra que “um alienado também é um homem que a sociedade não quis ouvir, que ela quis impedir de enunciar verdades insuportáveis”. E esclarece que, “nesse caso, o internamento não é a sua única arma, e [que] a reunião concertada dos homens tem outros meios para vencer as vontades que quer quebrantar”. E recorda ainda como, “para lá dos pequenos feitiços de bruxos menores, há os grandes ataques de feitiços globais, em que todas as consciências alertadas periodicamente participam”. Nos momentos mais agudos, em que a “lucidez transtornada” que faz deste autor alguém que podia contar com a sua tão sensível paranóia para caçar em territórios apavorantes, deparamo-nos em muitos destes textos com o respiro avassalador dessa paranóia produtiva, visionária, um rasgo e um faro que fazem dele um ser de instintos sobrenaturais, com aquele mesmo raio que lhe percorreu as veias uma e outra vez, agora dominado, aparafusando-lhe os nervos.

Ainda sobre a morte, não o acto premeditado mas a ocorrência de tom burocrático, esse sopro que apaga a vela quando a chama se transferiu já para outro lado, vale a pena lembrar que Artaud, se não partiu mais cedo, foi porque, além da denúncia que tanto o empenhava, vivia a recusa de quem não quer dar esse prazer aos outros, de quem se renega a morrer e suporta novas doses de veneno para cuspi-lo nas caras que fingem compadecer-se dele. Assim, numa das páginas desta antologia, diz-nos: “Renego o coração/ e também a morte.// É sempre por piedade/ pelos outros/ que nos deixamos meter num esquife,/ que nos deixamos enfiar// no buraco cavo,/ oco de cânfora/ e de sangue avermelhado.” E aqui deve notar-se também como a partir de um certo ponto esta escrita não tem mais nada a ver com as lógicas da sedução, e a sua natureza já não quer ter nada em comum com esse atraso da consciência a que se chama humanidade. Renegando o baptismo ou o coração, denunciando a forma como os sentimentos atrasam, tal como as paixões ou as instituições, a única ânsia aqui é a de deitar por terra, sacudir-nos violentamente, pois como nos diz nesse outro texto, traduzido por Ernesto Sampaio, “está tudo a mais, nesse demais sempre a pesar sobre a existência, ela própria uma ideia a mais, filósofos, sábios, médicos, padres, pouco a pouco, de mansinho e brutalmente, têm-nos feito esta vida falsa porque não há profundidade nas coisas, não há além, nem mais voragem do que a que formos capazes de lá pôr”.

Nesta tradução de Pedro Eiras há um passo em que Artaud reage contra as reservas desses que não entendem a necessidade que possam ter os papéis que ele punha cá fora, essa obra que não pretendia já espevitar o público das letras, mas seviciá-lo. E se lhe diziam que a coisa tal como estava já cheirava mal, ele respondia-lhes: “Ora, precisamente, ainda não cheira mal que chegue para afastar de mim a crítica, ou o ataque, ou o julgamento, ou a agressão de qualquer natureza que seja. / E que tem isso a ver comigo? Na verdade, poderia não ter nada a ver comigo e eu poderia andar em frente e dar tudo ao desprezo mas o azar é que precisamente tem tudo a ver comigo.” Outros antes dele já haviam chegado a essa margem onde as esperanças que os homens entretêm de si para si mesmos se tornam ninharias, mesmo se disfarçadas, destiladas no interior de obras notáveis. A relevância desta obra é a forma como rejeita a literatura e o esforço daqueles  para dar um novo fôlego às velhas ilusões. Investido no “estralhaçamento das tradições”, ao mesmo tempo que se via sem escolha, Artaud dava-se conta de que só a infâmia oferece armas à rebelião daqueles a quem a hipocrisia fere de tal modo que a sentem nos órgãos que criaram fora do corpo. Daí a noção de que “certa forma de pessimismo traz consigo a sua própria lucidez. A lucidez do desespero, dos sentimentos exacerbados e como que à beira do abismo. E a par da horrível relatividade de toda a acção humana, esta espontaneidade inconsciente incita, apesar de tudo, à acção” (“Em Plena Noite Ou o Bluff Surrealista e outros textos”, trad. de Paulo da Costa Domingos).

Depois da sua morte, Artaud foi alvo de elogios tremendos, e Aníbal Fernandes nota que o autor tem tido “uma posteridade emocionada e inspiradora”, e neste ano, tendo a sua obra entrado em domínio público, é natural que as edições e reedições se sucedam. Se, por um lado, isto nos dá uma ideia da forma como, com cada urro, esta dilata as tenebrosas margens dos textos que marcaram a literatura do século XX, por outro, não devemos deixar escapar a ironia de que só por pura hipocrisia hoje tantos subscrevem a denúncia de Artaud sem, depois, assumirem qualquer implicação concreta. Chegámos, assim, à altura de Artaud ser vertido por psiquiatras, por curiosos… O que não deixa de ser uma forma de o neutralizar – “tentar devorar Artaud por todos os meios hipócritas de deus”. E aqui vale a pena lembrar o que disse Pierre Jean Jouve a propósito desse prestígio conferido a alguns danados a partir do momento em que não podem encostar a sua face à nossa para se rirem horrivelmente de nós ou nos afastarem à dentada: “Nos nossos dias, um verdadeiro snobismo da loucura acabou por tomar conta de críticos e amadores; toda a gente quer ser louca; toda a gente quer ver de perto o esgar da loucura. E são expostos os desenhos dos manicómios como se fossem de mestres”. É enganador todo esse prestígio que não faz mais que atrair os curiosos, sabendo-se, como disse Artaud, que “a curiosidade é a mais obscena das coisas”. “Nada de confianças, nada de camaradagem,/ comigo não,/ nem na vida nem em pensamento”, advertiu ele. 

Tão mais acertada, por isso mesmo, se torna a escolha dos editores de nos apresentarem agora uma selecção dos últimos papéis de Artaud nesta cor, fiel não apenas a uma escrita em verdadeira carne viva, mas que nos coloca em linha com todos esses “cúmplices de uma mesma sujidade social”, aquela que dele fez um suicidado. Assim, mais honesto do que o leitor que se entregue a uma fria admiração, será esse que chegue a sentir vergonha diante destes textos “onde o espírito avança de alto a baixo armado” (Jean Paulhan). Não deixa de ter piada, por outro lado, a sem-vergonhice com que exaltam Artaud o género de homens amolecidos incapazes de mandar seja quem for à merda.

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