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Crianças. Uma terapia chamada histórias de embalar

Crianças. Uma terapia chamada histórias de embalar

Beatriz Dias Coelho 13/03/2019 19:44

Nas alas pediátricas de vários hospitais por todo o país, a Associação Nuvem Vitória leva todas as noites histórias de embalar às crianças internadas. A ideia é transportá-las para longe dali, conseguindo com isso serená-las. Os voluntários – conhecidos por “nuvens” – gostam de ser descritos como “serena-dores”. O i acompanhou uma visita ao Hospital de Santa Maria

Sofia (nome fictício) estava internada e precisava de ventilação externa para respirar. Certa noite, não queria mesmo colocar a máscara. Uma “nuvem” foi então contar-lhe uma história de embalar, mas a menina já estava semiembalada por causa da falta de oxigénio. Para escolher o melhor livro, a nuvem perguntou à mãe do que gostava a menina – purpurinas, princesas e golfinhos, informou a mãe. A nuvem não tinha nenhum livro que correspondesse à descrição e decidiu inventar uma história. “Era uma vez uma princesa que vivia no fundo do mar, que tinha um vestido enorme, cor de rosa, cheio de purpurinas. Passeava pelo mar e, um dia, um golfinho viu-a e ficou apaixonado”, começou a nuvem. Nada fazia prever a reação de Sofia: exclamou um profundo “ah” de espanto, o que provocou um aumento da ventilação, levando-a a inspirar mais oxigénio. As interjeições de entusiasmo foram aumentando à medida que a história avançava; ao mesmo tempo, a máquina que fazia o controlo da respiração da menina apitava insistentemente. Assustada, uma enfermeira acabou por ir ao quarto da criança, mas encontrou-a melhor do que a tinha deixado.

O episódio aconteceu durante o projeto-piloto da Associação Nuvem Vitória, que decorreu no sexto piso da Unidade de Pediatria Geral do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, em 2016. A nuvem – nome dado os voluntários que vão de quarto em quarto contar histórias às crianças internadas –, por sua vez, era a presidente, Fernanda Freitas. “Aí percebemos que uma história podia de facto ajudar, apesar de não sermos terapeutas e de a nossa função não ser essa. A nossa função é serenar, gostamos de ser considerados ‘serena-dores’”, conta ao i numa noite de segunda-feira, ao percorrer os corredores da mesma unidade do hospital.

Enquanto isso, duas nuvens, Francisco e Susana, de 28 e 30 anos, percorrem os quartos de todas as crianças do piso, desde bebés a adolescentes. “Todas as noites de segunda a sexta vimos ler duas horas de histórias aos meninos. Além desta dupla aqui no sexto piso, está mais uma no oitavo e outras duas no nono, porque é um piso muito grande. E também temos nuvens no São João, em Vila Franca de Xira e em Alcoitão, e, a partir de sexta-feira, em Braga”, explica a responsável do projeto, que hoje está aqui como coordenadora – todas as noites há uma em cada hospital. Quanto ao financiamento, não falta quem queira ajudar a associação: “Não temos falta de financiamento, felizmente. Recentemente, o Francisco e outra colega, da consultora CGI, levaram o nosso projeto a um programa que a empresa tem chamado Dream Connectors, e ganhou a nível mundial”, explica Fernada. Além do financiamento, que foi aplicado na formação dos voluntários e no desenvolvimento de um livro em braille que permita aos pais cegos contarem uma história aos seus filhos, a vitória permitiu ainda algo de que há muito a associação precisava: uma plataforma para gerir as escalas dos atuais 400 voluntários, que até aqui eram geridas num ficheiro excel, que está a ser desenvolvida pela consultora.

Perto das 21h, as nuvens Susana e Francisco saem do quarto do segundo ouvinte da noite, uma das três crianças que por estes dias estão em isolamento. “Correu bem”, comenta Francisco à saída. “As crianças em isolamento têm de ouvir as histórias primeiro do que as outras, para não transportarmos nada doutras crianças que possa afetá-las”, explica ao i o consultor, que se tornou voluntário da Nuvem Vitória logo em 2016, quando estava à procura de um projeto de voluntariado e a associação lhe chegou aos ouvidos. “O primordial da nossa atividade é não interromper nada e não estragar o ambiente. E tem sido espetacular. Depois de um dia de trabalho cansativo pensar que ainda vou para um hospital contar histórias para crianças, fico a pensar que queria mesmo era um sofá, mas a verdade é que sempre que venho para cá saio com um sentimento de recompensa enorme e sem ter nada em troca”, afirma. Susana, que é educadora de infância e já tinha o gosto pelas histórias antes de se tornar nuvem, concorda: “Entrei no projeto por influência de uma outra nuvem, minha colega de trabalho, que me contagiou. É um mundo diferente daquele com que nós trabalhamos todos os dias e acho que foi isso que me fascinou na Nuvem, perceber que trabalho com crianças que, no fundo, são sortudas, porque não estão neste contexto.”

Lida a história da última criança isolada, as nuvens são surpreendidas pelo choro de um menino de quatro anos no corredor. A mãe tenta acalmar Pedro (nome fictício), internado desde a última semana. Fernanda intervém imediatamente. “Queres uma história com a mãe?”, pergunta-lhe. “Escolhes uma, queres?”, insiste a nuvem. Pedro gosta de leões, mas não há nenhum nos livros desta noite. Francisco junta-se e contrapõe com outro animal. “Pode ser um porquinho?”, lança. Pedro, ainda choroso, anui. Já no quarto, Francisco vai folheando as páginas do livro “A Garagem do Gus” (Leo Timmers, HarperKids), enquanto, ao colo da mãe, Pedro ouve a história, agitando no ar o seu avião amarelo. Se no início não está tão atento e continua um pouco rabugento, isso muda com o avançar da história: a meio do livro, Pedro já não chora e até participa. Criança calma, missão cumprida.

Entretanto, o outro ocupante do mesmo quatro, mais velho, intervém também. O menino, que até aí estava mais embrenhado em perceber como ligar o tablet que tinha nas mãos, desiste da tecnologia e começa a observar o livro e a seguir a história. Num português que ainda não domina – tem origens asiáticas –, lança algumas palavras e abre-se em sorrisos, enquanto aponta para as páginas do livro que Francisco segura. “Vitória, vitória...”, diz a nuvem, “acabou-se a história”, completa o menino no final. Depois volta à tecnologia, fixando o olhar no tablet à espera que, por fim, se inicie.

Passados ao quarto seguinte, é Susana quem toma as rédeas das histórias. Nas camas, duas meninas de oito anos já ensonadas ouvem-na, concentradas. Desta feita, o livro chama-se “Baralhando Histórias” (Alessandro Sanna, Kalandraka) e narra de outra forma o conto tradicional “O Capuchinho Vermelho”. Susana começa a folhear o livro, mas algo não está bem ali e as crianças reagem: em vez de Capuchinho Vermelho, a nuvem fala num Capuchinho Verde que vai a casa da tia, e não da avó. “Vermelho!”, diz Joana (nome fictício), a corrigir Susana. Na outra cama, Inês (nome fictício) prefere ouvir e sorri ao ouvir a história toda trocada. “A menina lá foi pela floresta fora e encontrou uma girafa”, continua Susana, que é imediatamente interrompida por Joana. “Hã? Um lobo!”, exclama a menina, entre sorrisos. Enquanto isso, Inês aninha-se. Francisco conta uma segunda história, mais calma, e à saída do quarto, Inês parece muito perto de adormecer.

Por vezes, as histórias e as crianças trocam as voltas às nuvens. Num dos últimos quartos, ao ouvir uma história, um bebé acaba mesmo por adormecer sem acabar o biberão que tomava.

Estratégias de nuvem As nuvens de cada noite falam sempre com a enfermeira responsável para saberem os nomes – o primeiro, apenas – e as idades das crianças antes das visitas. A ideia é escolherem os livros e adaptarem a forma de contar a história consoante as idades. Para os quartos, as nuvens levam apenas os livros, uma voz calma e, como forma de identificação, vestem t-shirts azuis com o logótipo da associação. Cada história é um novo desafio, garantem, mas as nuvens estão preparadas e têm sempre estratégias na manga. “Sempre que entramos num quarto é um desafio, porque nunca sabemos qual vai ser a resposta. Tentamos perceber se as crianças gostam mais de animais ou de unicórnios, por exemplo. Temos de ir ao encontro do que elas gostam e tentamos chegar a elas também através dos pais”, exemplifica Susana. “A ideia é que as crianças olhem para a nuvem e não fixem uma cara, mas um sentimento”, diz, por sua vez, Francisco. Fernanda complementa: “Cria-se uma relação com as histórias. A ideia é as crianças envolverem-se no universo da magia das histórias de embalar.”

Mais do que transportar as crianças para outro lugar, as histórias de embalar acabam por ser também um escape para os pais. Patrícia Sievert, 36 anos, sabe-o melhor que ninguém: rendeu-se como ouvinte e decidiu mesmo tornar-se nuvem. “A minha filha esteve internada 11 noites e 12 dias no ano passado, tinha ainda dois anos, e foi aí que conheci o projeto. A Maria não era de todo uma criança recetiva, mas eu adorava e achava espetacular como as nuvens conseguem chegar tanto às crianças como aos pais. São cinco minutos de conforto e é um alívio para os pais, que estão aqui o dia todo. Estar do outro lado a contar histórias é espetacular e muito gratificante. Uma vez por semana, cá estou eu”, conta ao i no fim de mais uma noite de rondas.

 

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