01/03/2024
 
 

Uma renovação extemporânea

Na véspera do clássico com o Benfica, Pinto da Costa anunciou a renovação por mais um ano do contrato com o treinador Sérgio Conceição. A maioria dos comentadores achou tratar-se de um ‘golpe de génio’ de Pinto da Costa. Mais um. A provar a sua condição de grande mestre da gestão desportiva.

Também acho o presidente do Porto um caso sério do dirigismo desportivo mundial, mas não por isto. Considerei a renovação com Sérgio Conceição na véspera do FC Porto-Benfica um déjà vu, um truque previsível, para inglês ver, sem qualquer originalidade. Aliás, tratou-se apenas de um gesto de marketing: se fosse mesmo para motivar o treinador (e a equipa) ter-se-ia realizado no recato de uma sala do Dragão e não com pompa e circunstância, com discursos e assistência.

Arrisco mesmo dizer que a renovação até pode ter servido para dispersar Sérgio Conceição e o ‘amolecer’. Com a renovação no bolso, o treinador do FC Porto já não precisaria de justificar nada.

Aliás, há treinadores que começam a perder jogos depois das renovações – como foi o caso recente de Mourinho no Manchester United.

Mas se os portistas têm razões para estar tristes – e os comentadores deveriam rever os seus critérios – os benfiquistas também não têm motivos para embandeirar em arco.

É certo que depois do golo do Porto o Benfica foi para cima do adversário e reduziu-o à condição de uma equipa banal. Foi quase confrangedor ver o Porto jogar assim no seu próprio estádio. Os miúdos do Seixal deram um recital e podiam ter marcado dois ou três golos nesse período.

Mas depois do empate o Benfica encolheu-se. Revelou falta de ambição. E durante a segunda parte foi completamente dominado, só não tendo sofrido golos mercê do desempenho de um guarda-redes que defende o indefensável. Há guarda-redes que só não defendem o que não tem defesa. Ora Vlachodimos até defende o que não tem defesa. No Dragão, isso aconteceu três vezes. E Rafa, um jogador que esteve proscrito, fez o resto, marcando um golo caído do céu. Este, sim, é um pequeno génio.

Pode pois dizer-se que, se a juventude do Benfica fez uma grande manifestação de talento no período que mediou entre o golo do Porto e o empate, mostrou uma notória falta de maturidade na segunda parte.

Enfim, um porto aquém do que se exigia, um Benfica com altos e baixos, foi o que viu no clássico de sábado à noite. Os benfiquistas não têm razões para estar tranquilos e os portistas têm razões para estar verdadeiramente intranquilos.

E Pinto da Costa já estará a deitar contas à vida. Se o Porto não for campeão, depois do avanço que teve, dificilmente Sérgio Conceição poderá permanecer no Dragão. E com esta renovação extemporânea, que teve um efeito contrário ao pretendido, a indemnização a pagar pelo FC Porto será bem mais alta… O ato de ‘génio’ de Pinto da Costa pode revelar-se, afinal, um tiro no pé.

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