15/12/19
 
 
Rui Patrício 01/03/2019
Rui Patrício

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Bacall and whistleblowers (para a Filipa)

Parece que está na moda atribuir o qualificativo de whistleblower a torto e a direito, dando-o a vulgares ladrões de informação alheia (verdadeira, suposta ou truncada) e/ou a pessoas que se dedicam a espreitar pelo buraco da fechadura (sobretudo digital) e/ou a devassar a privacidade alheia das formas mais variadas e, amiúde, descaradas

Voltou-se a falar sobre a figura do whistleblower e – embora eu preste uma atenção muito contida ao que se passa no espaço público-mediático – ouvi ou li coisas que me parecem, salvo o devido respeito por melhor opinião, rematados disparates ou, pior, mal-amanhados exercícios de cinismo. Parece que está na moda atribuir o qualificativo de whistleblower a torto e a direito, dando-o a vulgares ladrões de informação alheia (verdadeira, suposta ou truncada) e/ou a pessoas que se dedicam a espreitar pelo buraco da fechadura (sobretudo digital) e/ou a devassar a privacidade alheia das formas mais variadas e, amiúde, descaradas. E isto de modas é irresistível, vem em vagas, e há sempre quem não resista, mesmo que – por função, por conhecimentos e/ou por responsabilidade – tivesse o dever de o fazer e de não ir em cantigas fáceis. Mas para resistir é preciso ter várias características, que são um bem escasso, e vai daí há quem trate de dizer que piratear informação, em busca do lucro ou da devassa interessada, é nobre. Coisa que os suspeitos do crime usam em sua defesa quando o dinheiro não pingou ou, sobretudo, quando são apanhados e se veem na iminência de se sentar no “banquinho” para responder em juízo. Aqui-d’el-rei, que afinal eram larápios abnegados que só queriam repartir com os desvalidos desta vida e foram vítimas do malvado xerife de Nottingham.

Que os presumíveis e alegados bandidos usem isto em sua defesa, muito bem, pois as garantias de defesa devem ser todas, e não me choca. Mas já me choca, e até me nauseia, que os utilizadores do produto do furto e da devassa, ainda com os restos do doce a escorrer pelas comissuras, tenham o despudor de confundir estes piratas de meia ou de maior tigela com o que é um whistleblower – figura jurídica concreta e séria, e que tem requisitos. E com coisas sérias não se brinca, salvo se for para humor inteligente, o que não é o caso. E pessoas com responsabilidades, institucionais ou académicas, ainda pior, e só alimentam a confusão, seja por malícia, seja por patetice, seja por não resistirem à sedução de dizer ou escrever o que em cada momento parece que fica bem. Tenham paciência, mas whistleblowing – independentemente das questões que coloca – é outra coisa, e só confunde quem quer ou quem não sabe.

Talvez fosse avisado estudar um bocadinho mais, ou ter mais cuidado antes de abrir a boca e ir para o espaço público disparatar. Ou, pelo menos, revisitar esse filme magnífico, que é o preferido de uma grande amiga – rectius, de uma amiga, porque os amigos são sempre grandes, por isso são poucos –, que é “To Have and Have Not”. Aí podiam aprender muitas coisas, entre o mais a lição magistral que Bacall dá a Bogart sobre enganos e mistificações, ou o simples e básico significado de whistle. Tal aprendizagem já seria um bom começo. E é tão simples, quase como – para quem não sabe usar os lábios, mesmo que seja só para to whistle – estar calado. Desculpem a antipatia, quiçá mesmo a arrogância, mas há dias em que a paciência tem limites e não resiste ao descaramento ou à estupidez. E, entre uma coisa e outra, venha a insinuante e diabólica-angélica Bacall no filme de Hawks, e escolha.

 

Escreve quinzenalmente à sexta-feira

 

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