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México. “Eu tenho a minha carteira bem guardada nas calças”

México. “Eu tenho a minha carteira bem guardada nas calças”

António Rodrigues 30/01/2019 23:27

Governo mexicano garante que não paga o muro na fronteira, mas López Obrador insiste no diálogo e em evitar polémicas sobre a questão

O presidente mexicano, Andrés Manuel López Obrador, é cauteloso nas suas declarações quando se trata do muro. A sua atitude desde que assumiu o poder, em dezembro, tem sido de respeito e diálogo. Mesmo quando Donald Trump afirmou em meados deste mês, depois de uma conversa telefónica entre os dois, que “de uma forma ou de outra, o México vai pagar pelo muro”, não quis AMLO, como é conhecido, alimentar polémicas, limitando-se a dizer que “em nenhum momento da conversa se tratou esse tema”.

Quem não se coibiu de comentar a questão, mesmo sem se espraiar muito, foi o subsecretário de Estado para a América do Norte. “Tenho a minha carteira guardada nas minhas calças e não a abro, e o mesmo se aplica ao governo”, referiu Jesús Seade, antes de voltar ao mesmo mantra do seu presidente: “Não temos falado sobre esse tema; as conversações são muito positivas noutros temas.”

Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa, daí que López Obrador prefira calar agora as palavras que disse durante a campanha eleitoral: “Não aceitamos a construção do muro na nossa fronteira, não aceitamos o uso da força, a militarização da fronteira. Não se resolvem os problemas, a paz e a tranquilidade são frutos da justiça”, referiu num discurso em Piedras Negras a 4 de abril do ano passado.

Desde que assumiu o cargo, López Obrador mantém uma narrativa conciliatória em relação ao vizinho do norte, sobretudo em relação às imprevisibilidades do seu homólogo e à sua conhecida falta de tato na abordagem diplomática.

“Há quem gostasse de nos ver confrontados, nós queremos procurar ter sempre uma relação de amizade e de cooperação” com os EUA, afirmou López Obrador durante uma conferência de imprensa no passado dia 9. 

“Não temos nenhum compromisso com a negociação ou com a relação por altifalantes. Ele [Trump] tem um estilo para governar que respeitamos, mas continuamos a negociar com os seus representantes”, explicou, por seu lado, o subsecretário de Estado, citado pelo “El Economista”.

Até porque, se a questão do muro é prioridade número um para Donald Trump e os seus apoiantes, para López Obrador, o seu governo e os mexicanos em geral, trata-se de matéria que não se coloca, por só se ter a perder. 

“O presidente Donald Trump insiste que o fluxo migratório das nações da América Central representa uma crise para o seu país; no entanto, no Conselho Internacional de Empresários (COINE), onde nos concentramos em analisar contextos políticos que têm origem e consequências económicas, financeiras e empresariais, consideramos que um muro não será necessariamente a solução”, explicou Martín Rodríguez Sánchez, presidente da organização que representa os empresários da América Latina e das Caraíbas, em conversa com o “Excelsior”.

López Obrador, como Martín Rodríguez, considera o muro apenas um fogo--de-vista sem influência no fluxo de imigrantes da América Central em direção aos EUA. Desenvolver os países de origem dos imigrantes, investir, melhorar as condições de vida, garantir a existência de um mercado de trabalho é visto como política de maior sucesso.

Tem de se resolver “o problema da imigração atendendo às causas”, disse o chefe de Estado mexicano. “Estamos a tentar persuadir e convencer os EUA de que o melhor é desenvolver os países centro--americanos e o México”, acrescentou.

Porque, na verdade, como explicou a embaixadora do México nos EUA, Martha Bárcena, em declarações à Televisa, nenhum mexicano gosta de ver um muro na fronteira com os EUA. Daí que o executivo esteja empenhado em incentivar o desenvolvimento económico no norte do país: “A posição do governo é claríssima. Vamos estimular a fronteira norte, vamos estimular melhores empregos na fronteira norte, vamos criar essas cortinas de desenvolvimento do sul ao norte para que a migração seja uma opção, e não uma necessidade.”

Do que Andrés López Obrador parece seguro é de não se envolver ou ver o seu governo envolvido na questão do muro em si, atribuindo o tema a razões eleitoralistas de Donald Trump e considerando a sua abordagem como território que não lhe cabe explorar, por ser assunto interno de outro Estado.
 

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