25/10/20
 
 
António Galamba 20/12/2018
António Galamba

opiniao@newsplex.pt

Os fantasmas dos Natais futuros

Por mais eloquentes que estas sejam, é impossível dissimularem a realidade: o atual modelo de gestão política não é sustentável, não é responsável e não prepara o futuro

Vive-se um tempo esquisito, esquizofrénico e com perigosos sinais de dispersão que, ao invés de serem uma expressão democrática da diversidade, são sintomas de um descontrolo aceite pelos poderes, pelas instituições e pelos cidadãos. Até um dia! É como se os fantasmas dos Natais passados de Charles Dickens tivessem cedido o seu espaço, em regime de alojamento local, aos fantasmas de Natais futuros, para pairarem sobre a realidade nacional e europeia. Ao invés dos fantasmas dos Natais passados ou da invocação de uma qualquer vinda do diabo, a sucessão de acontecimentos anacrónicos, disruptivos e irresponsáveis são mais reais que ficcionais.

Tomados por um contentamento medíocre, que ainda assim contrasta com a depressão de quadriénios anteriores, alguns conformam-se com um exercício político sem rumo sustentável, sem valores identitários e com reiterado apelo ao salve-se quem puder, destinado apenas a manter o poder enquanto se entretém a comunidade com narrativas. Por mais eloquentes que estas sejam, é impossível dissimularem a realidade: o atual modelo de gestão política não é sustentável, não é responsável e não prepara o futuro.

No plano partidário, não é sustentável manter a condescendência com uma certa irresponsabilidade perante os sinais de uma certa degradação moral, ética e de sentido do exercício de funções públicas, fingindo que não existem situações indignas para o acervo de valores do Partido Socialista, que não existem guerras internas com projeções na gestão autárquica, como acontece em Lisboa, ou que a voragem do vale-tudo pode ser exercitada logo a partir da Juventude Socialista. É claro que há um padrão. Onde há um problema, o secretário-geral do PS não está, como também nunca está o primeiro-ministro. É assim que esteve ausente do congresso do PS/Madeira, do congresso do PS/Açores e, agora, do congresso da JS. É um certo triunfo do enfado com patamares anteriores do acesso ao poder atual, como se estes não fossem necessários para os futuros eleitorais que se aproximam.

No plano político, perante a comodidade do exercício governativo, por ação, por inação da oposição e por anestesia geral, são cada vez mais frequentes os sinais de insustentabilidade do caminho seguido. Apesar de ter sido gerado um ambiente social de que quase tudo era possível, de se ter apostado numa alegada expressão de modernidade, através da afirmação do mundo digital, no mundo real somos confrontados com inúmeros casos de pré-rutura, esgotamento e disfunção dos serviços públicos e de natureza pública. Semearam-se demasiados ventos com as opções políticas, os estados de alma setoriais e as cativações para agora não se colherem tempestades, algumas sem mínimos de preservação de valores essenciais das pessoas e das comunidades. O drama é que este nivelamento por baixo, depois dos anos da troika, está a gerar um ambiente propício às dispersões sem controlo, sem regras e sem qualquer tipo de filtro. Caldo de cultura para os populismos, os extremismos e outras expressões que reforçaram a insustentabilidade do modelo de funcionamento da sociedade portuguesa e da gestão do país. E o pior é que, por ação dos sucessivos casos e por inação, há um forte contributo da classe política em funções para essa realidade degradada que propicia a visita de fantasmas dos Natais futuros.

Neste quadro, persistir em pulverizar os cidadãos com manobras de diversão, com discussões sobre temas de nichos da população ou com narrativas desculpabilizantes quando não se atacam os problemas reais dos serviços públicos que devem disponibilizar respostas às pessoas e aos territórios é persistir num caminho sem sustentabilidade possível que alimenta uma sociedade dispersa, sem foco e sem pontos de convergência. É estar a criar ambiente fértil para a dispersão dos poderes, dos votos e das atenções em vésperas de eleições para o Parlamento Europeu e para a Assembleia da República que, por impulso dos fantasmas de Natais passados, já serão pontuadas por um certo vale-tudo.

Sem fantasmas dos Natais passados e prescindindo da aparição dos fantasmas dos Natais futuros, desejo a todos um Feliz Natal e um ótimo Ano Novo.

NOTAS FINAIS

PAI NATAL O sentido de solidariedade do Natal está presente na ação de muitos portugueses nos 365 dias do ano em relação a cidadãos em concreto ou à comunidade. Estremecidos pela trágica ocorrência da queda do helicóptero do INEM, somos sobressaltados para exigir que o que está mal ou possa estar mal no socorro, na emergência e na segurança seja avaliado e corrigido, em vez de se andar a inventar novas frentes de atenção mediática ou pública e de investimento. É o mínimo, pela memória dos que vão falecendo em missão.

AS RENAS Não se assistiu a nenhum sobressalto cívico em defesa do peru, do polvo, do bacalhau ou do cabrito, mas vislumbrou-se que a conversa é mesmo só conversa, para granjear atenção e votos. Pela boca morre o peixe. Ontem, hoje e amanhã.

O TRENÓ O Ministério Público abre investigações por tudo e por nada, foram reforçadas as vigilâncias sobre os depósitos e as transferências bancárias, mas estranha-se que ainda não tenha surgido nenhuma notícia sobre a abertura de investigação ao crowdfunding de milhares de euros para suportar o “esforço” de greve. Em regra, quem quer lutar pelos seus direitos tem de pagar de alguma forma, mas há uns mais iguais que outros.

Escreve à quinta-feira

 

Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×