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Américo Vieira. “Sindicato de Mariano persegue, ameaça e faz coação física”

Américo Vieira. “Sindicato de Mariano persegue, ameaça e faz coação física”

Joaquim Gomes 11/12/2018 17:23

Numa altura em que supostas ameaças entre sindicatos rivais no Porto de Leixões estão já a ser investigadas pela PJ, o i falou com os responsáveis das duas estruturas para perceber os dois lados do conflito. Américo Vieira e António Mariano, históricos do sindicalismo portuário, digladiam-se a propósito do Porto de Leixões e da situação dos trabalhadores a nível nacional. Estivadores mantêm Porto de Setúbal parado e greve às horas extra prossegue nos restantes portos do país 

 

Em entrevista por escrito, vice-presidente do Sindicato Local dos Estivadores de Leixões acusa SEAL de estar a aproveitar a fama da Autoeuropa para ganhar terreno 

As alegadas ameaças [bilhetes que apareceram em automóveis com ameaças de violência e que estão a ser investigados pela PJ] continuam depois das recentes denúncias?

As ameaças não são de agora, acontecem desde meados de 2016, altura em que alguns dos trabalhadores do Porto de Leixões se filiaram no Sindicato Nacional dos Estivadores, Trabalhadores do Tráfego, Conferentes Marítimos e Outros, momento a partir do qual o clima de medo se instalou. Antes da tentativa de invasão pelo SEAL, Leixões sempre foi um porto com paz.

Acusam o sindicato rival, mas o SEAL alega que promovem represálias contra os estivadores que não se filiam no vosso sindicato.

É mais uma campanha de difamação. Nós nunca invadimos assembleias-gerais de outros sindicatos na tentativa de evitar novas filiações. Nunca agredimos dirigentes de outros sindicatos. Nunca sequer ameaçámos estivadores que se associaram a outro sindicato e muito menos ameaçámos trabalhadores que, fazendo do seu trabalho o sustento da sua família, se disponibilizaram para o trabalho extraordinário. É o SEAL que persegue, ameaça e exerce coação física sobre os nossos trabalhadores. Que tenta hipocritamente disfarçar, acusando-nos a nós.

Como comentam as afirmações do SEAL de que o vosso sindicato “representa exclusivamente os direitos dos patrões e dos estivadores históricos, deixando os outros estivadores sem defesa”?

Nada mais falso. Esse tipo de argumentos, de jogo sujo, a que esse mesmo senhor [António Mariano, líder do SEAL] já nos habituou ao longo de décadas, já não colhem e não merecem ser rebatidos, tendo uma finalidade: denegrir a imagem do nosso sindicato e por esse meio “angariar” trabalhadores para as suas fileiras. Esse tal Mariano não tem escrúpulos em recorrer à calúnia mais infame. Basta ver que chama “traidores” aos trabalhadores de Setúbal que se revelam independentes. Pergunta-se: que interesses reais representa e visa ele? 

Porque o faz, na sua opinião?

Ele representa os trabalhadores de Setúbal há mais de 25 anos e nunca nesses anos, até outubro passado, falou deles, nem reivindicou a sua contratação. Fê-lo, vergonhosamente, só agora para aproveitar a fama da Autoeuropa. Esses trabalhadores, endrominados por ele, especialmente os que estão em situação de precariedade, continuam reféns de ambições pessoais e da manipulação em nome de interesses que não sejam única e exclusivamente os seus, como se demonstra pela falhada negociação no Porto de Setúbal. Está crapulosamente a servir-se deles, tal como os de Lisboa, para tentar invadir Leixões, onde a resistência é tenaz. Tenta coagir os patrões a cederem em Leixões em troca de promessa de “amabilidades”, de alívio de pressão do SEAL em Lisboa e Setúbal. O SEAL está desesperado: sabe que há salários em atraso dos seus trabalhadores em Lisboa e nem “pia”, por saber que a responsabilidade é sua, devido ao interminável martírio das greves que decreta de forma irresponsável. Tanta valentia e agora ajoelha perante salários sistematicamente em atraso no Porto de Lisboa? Ou será porque já adivinha que vai acontecer em Lisboa e na Figueira da Foz o que aconteceu há cinco anos já em Aveiro, com os trabalhadores a serem lançados na miséria, no seguimento das falência da empresa de trabalho portuário e em que só se salvaram os estivadores que se tornaram independentes e formaram um sindicato autónomo?

 É verdade que, cerca de 30 anos depois, o vosso sindicato subitamente abriu a possibilidade de adesão de novos sócios só por causa do surgimento do SEAL?

É verdade que durante esse tempo não houve admissões. Mas também não houve contratação de novos trabalhadores. Só que, em Leixões, a filiação sindical é um ato livre de vontade e um gesto de liberdade. O nosso sindicato nunca andou à caça de filiados, como anda desenfreadamente o SEAL, para arrecadar 4% de descontos sobre o salário de cada um. Já em período recente foram admitidos novos trabalhadores para fazer face às necessidades de mão-de-obra e o nosso sindicato passou a filiar os estivadores que manifestaram interesse nessa filiação. O SEAL, com promessas irrealistas, arrebanhou uma vintena de trabalhadores, acusando hipocritamente o nosso sindicato de lhes recusar a filiação. O nosso sindicato defende e promove a livre filiação, não acreditando em monopólios sindicais.

No caso de Leixões, entendem haver, neste momento, justificação para uma greve?

Nem em Leixões nem noutro porto. A greve, declarada de “solidariedade”, não é mais do que um embuste, usando os trabalhadores só para prosseguirem uma agenda pessoal e política. Greve em Leixões porquê? Não temos salários em atraso, ao contrário do que agora sucede em Lisboa, há três meses, situação de que o SEAL nem sequer fala. Por outro lado, o nosso sindicato sempre negociou e obteve dos patrões, nos últimos 25 anos, aumentos salariais como em nenhum outro porto do país, nem sequer noutro setor de atividade. As nossas empresas de Leixões não faltam e nunca faltaram aos seus compromissos laborais, nem estão à beira da falência, como em Lisboa e na Figueira da Foz.

Até que ponto está a greve a prejudicar a atividade laboral do Porto de Leixões? 

A greve em curso ao trabalho suplementar só está a afetar os portos de Setúbal e Lisboa. Em Leixões só há a preocupação de dar a melhor resposta ao excesso de trabalho que sempre ocorre em momentos de instabilidade. O nosso lema é: “Operar todos os navios, Leixões não para.” Só assim servimos o porto e os nossos trabalhadores. 

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