13/12/18
 
 
José Paulo do Carmo 07/12/2018
José Paulo do Carmo

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A força do surf português

E é de facto de aplaudir o trabalho que tem sido feito e que criou condições para o surf ser mais um fator de atração turística, de diversidade na procura, dando uma força absolutamente decisiva a localidades outrora esquecidas mas que, graças a este novo “fenómeno”, viram as suas economias crescer exponencialmente

Quem é que praticava surf em Portugal há 20 anos? Meia dúzia de “malucos” que vestiam fatos isotérmicos justinhos e se lançavam ao mar frio quando a maior parte dos outros chegava a casa depois de uma noite de copos. Frases como “o mar está flat” ou palavras tipo “swell” , “drop” ou “shaper” faziam parte de um léxico praticamente inexistente por cá. Nessa altura, ir para a Nazaré estava completamente fora de moda. O mar estava sempre com ondas grandes e o cheiro a peixe seco ao sol era pouco convidativo. Ninguém fazia ideia das provas que compunham o campeonato nem sequer eram do conhecimento comum os nomes dos principais surfistas.

Mas em poucos anos tudo mudou. Mudou ao ponto de, hoje, o surf ser no nosso país o desporto que, supostamente, mais adeptos ganha por ano. E é de facto de aplaudir o trabalho que tem sido feito e que criou condições para o surf ser mais um fator de atração turística, de diversidade na procura, dando uma força absolutamente decisiva a localidades outrora esquecidas mas que, graças a este novo “fenómeno”, viram as suas economias crescer exponencialmente. Basta ver os resultados da já referida Nazaré, mas também Peniche, Ericeira, entre outros… E essa explosão torna-se mais impactante porque o público que leva atrás é repleto de gente gira, que gosta de viver e estar de bem com a própria vida e com os outros, que ama a natureza e a respeita, que cultiva os aspetos mais saudáveis e terrenos da nossa essência - e isso só pode trazer coisas boas.

No meu caso, que pouco percebo de surf (nem devia dizer isto porque cresci ao lado de um primo que sempre carregou a prancha, e nem mesmo as duas hérnias discais que ganhou o fizeram demover desta paixão, que o levou a montar uma surf house na Costa da Caparica ), é interessante ver que já fico acordado até tarde se preciso for, influenciado por amigos, para ver os heats (rondas a eliminar) do Frederico Morais, melhor surfista português da atualidade, e que, mesmo não percebendo muito bem as regras (pareço os chineses a ver futebol), espero ansiosamente pelas pontuações dos juízes para aplaudir e incentivar no meu sofá o atleta luso.

É, por isso, para mim de extrema importância referir o nome do “Kikas”, único representante português no principal quadro do surf mundial, mas também do Tiago “Saca” Pires, que durante anos representou as nossas cores lá fora. Exemplos de profissionalismo para os mais jovens e incentivo primeiro para os que se iniciam nas ondas. É, no entanto, o nome de Francisco Spínola que quero aqui salientar. Porque devemos apoiar, elogiar e incentivar os portugueses que se distinguem nos mais altos quadros. Foi ele que trouxe, de uma forma definitiva, as maiores competições do surf para Portugal, mas também tem levado o desporto do nosso país pelos quatro cantos do mundo - uma luta de anos que vê agora ser reconhecida ao ser nomeado pela Liga Mundial de Surf (WSL) como diretor-geral para a Europa, África e Médio Oriente, sobretudo pela sua “reconhecida contribuição para o desenvolvimento do surf profissional”. E, não contente com o feito, conseguiu ainda trazer para cá a sede da liga mundial.

Eu, que tenho acompanhado, umas vezes mais de perto, outras mais de longe, este percurso, devo--lhe o meu humilde reconhecimento porque, ao mesmo tempo que se vai notabilizando como personalidade mundial do desporto, consegue manter uma postura positiva de consensos de humildade e de respeito pelos outros, o que lhe vai granjeando simpatia por onde quer que passe. O que ele tem dado ao desporto português no geral, mas também ao nosso turismo, é inestimável, sem precisar de se pôr em bicos dos pés ou de chamar para si as atenções. Também na Federação Internacional de Wakeboard temos uma pessoa que muito admiro, o Nuno Eça, que acumula as funções de diretor-geral com as de juiz. É nestes valores e nos seus percursos que devemos apostar e focarmo-nos em criar condições para que eles nos ajudem a elevar bem alto o nosso desporto, que tantos jovens move e que tão importante é para a nossa economia e bem-estar.

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