16/12/18
 
 
Afonso de Melo 06/12/2018
Afonso de Melo

afonso.melo@ionline.pt

Eu tive um tio na Índia

PANGIM - “I had a farm in Africa”, começou por escrever Karen Blixen em “Out of Africa”. Depois vi cinco vezes consecutivas o filme. Era tão extraordinariamente bonito que não dormi descansado antes de sobrevoar num balão de ar quente os flamingos e os hipopótamos do lago Nakuru, os leões e elefantes e girafas da savana do Serengueti, e descer as ravinas do vulcão antigo do Ngorongoro.

Eu tive um tio na Índia. E nunca comecei a escrever um livro assim. Incompetência minha.

O meu tio Carlos viveu na Índia. E em muitos outros lugares em redor dos trópicos, como Sá da Bandeira e São Tomé. Fui lá procurá-lo, mas a vida tinha mudado demais. Era uma figura fascinante e estive com ele tão pouco. Dono de uma tristeza profunda, mas cheia de dignidade. Há tristezas assim: não provocam pena, provocam inveja. Acho que se alimentava dela. Ou ela dele. Sei que eram inseparáveis porque a tristeza nunca está nas coisas: está em nós. Ele e a tristeza eram e foram amantes. Até ao fim.

Comecei a vir à Índia há mais de 30 anos. Entretanto, o meu tio resolveu morrer e nunca pude falar com ele sobre os lugares onde esteve e eu o procurei. Se querem saber, não é importante. Aquilo que nos liga vai para além da vida e da morte. Vai para além do sonho e do sofrimento. Fica naquele lugar de apenas ser. Gostava de me oferecer livros de geografia e desafiava-me a ir pelo mundo. Fui. E irei.

É domingo. Milhares de goeses foram em romaria a Velha Goa para a novena. A tarde arde de um calor capaz de rachar a fachada da Igreja de São Caetano, que é uma cópia meio desajeitada de São Pedro, em Roma, não muito longe do Arco de Afonso de Albuquerque, na Rua Direita, que conduz ao porto dos ferries do Mandovi, mas ligeiramente mais longe da Basílica do Bom Jesus, onde repousa o corpo insepulto (e maltratado) de São Francisco Xavier, motivo de todas as peregrinações.

Lá em Colva, a praia enche-se de mulheres que se deixam boiar ao sabor das ondas, os saris e os sarongues berrantes vogando na água como gigantes alforrecas polícromas. Não faltará muito para que a águia venha pescar, assustando os corvos.

Não, não me sinto em casa. É bem mais do que isso. Sinto-me no lugar ao qual sempre pertenci, mesmo quando ainda não tinha percebido. Do Malabar ao Coromandel. De Buj a Tiruchirappally ao ritmo monocórdico dos tirantes. Num autocarro que se desfazia enquanto trepava os contrafortes do Kachenjunga. Em Bikaner, onde há um templo onde os ratos são tratados a pires de leite, de tão sagrados; em Calcutá, a caminho do Sikkin, de Gangtok e de Darjeeling; em Madrasta, que agora se chama Chennai, a terra dos caris de todas as cores que se comem sobre folhas de bananeira. “Índia: meu pai, minha mãe, minha primeira grande verdade”, dizia Salman Rushdie.

Eu tive um tio na Índia. É uma frase que podia começar qualquer livro e ir por aí fora à medida do seu próprio ritmo. Quando me sento no lugar geométrico dos meus dias sem nome, convenço-me de que os fantasmas são como as moscas e é impossível enxotá-los. Aí olho o sol de frente, como num desafio, e ele envergonha-se e mergulha no mar, corado de tons laranja. 

Goethe afirmou: “A coisa mais elevada a que um homem pode aspirar é ao assombro!” Eis-me assombrado. Nunca, desde que foi expulso do paraíso, Adão voltou a estar tão perto dele outra vez. Talvez um dia, um sobrinho meu escreva um livro começado assim: “Tive um tio que morreu na Índia.” Ou ganhe o atrevimento de copiar Guimarães Rosa: “Tive um tio que se encantou na Índia.” Talvez tenha razão. Posso ficar aqui para sempre, com o mar como música de fundo na noite de estrelas alinhadas. Por mim, o sítio mais longe onde posso ir parar é ao silêncio…

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