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O trabalho segue dentro de momentos

O trabalho segue dentro de momentos

Luís Caldas de Oliveira 30/10/2018 11:22

A obsessão de estar ao corrente de toda a informação no momento em que ocorre faz-nos estar sempre a verificar o ecrã do telefone ou o correio eletrónico. Sendo as notificações do telemóvel a principal causa desta obsessão, que tal limitá-las ao essencial?

Numa crónica anterior já referi o estudo de Sara Sarasvathy, que concluiu que as pessoas identificadas como empreendedoras usam com maior frequência o raciocínio efetivo em vez do mais comum raciocínio causal (“Como Pensar como um Inovador”, 20-mar-2018). Este e outros trabalhos demonstram que nem sempre a perceção do que pensamos ser uma competência essencial do empreendedor coincide com a realidade. Um exemplo é pensar que só pessoas viciadas em trabalho (workaholics) poderão ter sucesso como empreendedores. No entanto, tal como as horas de estudo não asseguram a passagem no exame, também o sucesso não se mede com o número de horas passadas a trabalhar. No estudo tal como no trabalho, o mais importante é a forma como o fazemos. Vem isto a propósito do livro “It Doesn’t Have to Be Crazy at Work” de Jason Fried e David Heinemeier Hansson, respetivamente CEO e CTO da empresa Basecamp. O primeiro autor foi um dos fundadores da empresa e o segundo é o criador da conhecida plataforma Ruby on Rails para desenvolvimento de aplicações web, disponibilizada gratuitamente pela Basecamp. O livro, reconhecido na coluna Bartleby da The Economist como “a melhor coisa publicada este ano sobre gestão”, mostra como é possível a uma empresa como a Basecamp manter um aumento sustentável dos lucros sem ter os colaboradores num permanente estado de exaustão. De acordo com os autores, as duas principais causas para a falta de eficácia no trabalho são: (1) a divisão do dia em minúsculos e fugazes momentos de trabalho intercalados por uma miríade de interrupções físicas e virtuais e (2) uma obsessão com o estabelecimento de objetivos não realistas. Nesta crónica irei centrar-me no primeiro.

O impacto das interrupções na eficácia do trabalho é também o tema do livro “Deep Work: Rules for a Focused Success in a Distracted World” de Cal Newport. O conceito de trabalho profundo define-se como uma atividade profissional realizada num estado de concentração que maximiza as capacidades cognitivas. O leitor já deverá ter tido a experiência de estar tão concentrado numa atividade que não notou nem a passagem do tempo nem o que se terá passado à sua volta. O seu cérebro tem uma capacidade limitada de receber estímulos e nesse momento todos os canais estiveram ocupados com a atividade que tinha em mãos. Isso é o trabalho profundo. Cada um de nós poderá entrar com maior ou menor facilidade nesse estado de concentração, que dependerá muito dos estímulos que recebemos no período de transição. Qualquer interrupção leva-nos de volta ao estado de alerta para o que nos rodeia e dificulta o regresso ao estado de concentração.

Uma das secções do livro de Fried e Hansson é dedicado ao medo de ficar de fora ou FOMO (Fear Of Missing Out). Esta obsessão de estar ao corrente de toda a informação no momento exato em que ocorre, faz-nos estar sempre a verificar o ecrã do nosso telefone ou a caixa de correio eletrónico. O FOMO já não abrange apenas a vida pessoal com as notícias da nossa rede de amigos ou sobre as ocorrências no mundo. As ferramentas profissionais estão a tornar-se cada vez mais instantâneas com a informação a ser difundida de forma independente da sua relevância ou urgência. Os colaboradores não precisam de ter informação ao minuto sobre tudo o que ocorre na empresa. Na empresa Basecamp encoraja-se a alegria de ficar de fora ou JOMO (Joy Of Missing Out). A informação relevante sobre a empresa é resumida em pequenas mensagens mensais que sumarizam o trabalho e os progressos de cada equipa nos diferentes projetos que desenvolvem. A empresa tem 54 colaboradores que trabalham em 30 cidades à volta do mundo.

Não sendo o leitor um colaborador da Basecamp, deverá estar a pensar em que é que esta crónica lhe pode ser útil. A minha sugestão é começar pelo que mais o interrompe durante o dia: o seu telemóvel. Sendo as notificações do telemóvel a principal causa da obsessão pelo FOMO que tal limitá-las ao essencial? Escolha uma ferramenta para receber mensagens urgentes e desligue as notificações de todos os outros serviços de mensagens, notícias e redes sociais. Deixe apenas notificações ativas para as chamadas telefónicas, a aplicação com que gere a sua agenda, as aplicações de mapas, transportes, mobilidade e serviços de entrega de encomendas. Reserve tempo na sua agenda para trabalho profundo usando a facilidade de “não incomodar” do seu telefone. Use este modo também durante a noite e evite a utilização de ecrãs antes de adormecer. O fundo do seu telemóvel pode também ser uma fonte de distração: é difícil trabalhar a olhar para a fotografia das últimas férias. Prefira um fundo neutro ou motivador que lhe recorde a necessidade de concentração. Ponha o seu telemóvel a trabalhar para si e não contra si.

 

Professor, investigador do INESC-ID, Laboratório de Sistemas de Língua Falada

 

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