Afonso Reis Cabral. Quando a ficção se torna uma forma parasitária

Afonso Reis Cabral. Quando a ficção se torna uma forma parasitária


Para seu segundo romance, Afonso Reis Cabral escolheu uma espinhosa história verídica. Esta exigia não só temeridade, mas a capacidade de a ficção estar à altura da realidade e, ao mesmo tempo, reclamar autonomia e dar-lhe um reflexo imaginário igualmente profundo, para superar o desafio ético e não cair no oportunismo. Infelizmente, falhou


 

A história, já a conhecemos. Mal contada ou muito resumida, chegou-nos alguma versão, e isso bastaria para que não se juntasse ao curso da mais vaga memória. Ainda que só alguns detalhes mais sinistros rompam a película rumorosa, é difícil apagar o arrepio que logo cresce em aflição diante dos contornos do que aconteceu em fevereiro de 2006, no Porto. O fim de Gisberta Salce Júnior persiste como uma lenda atroz, um crime que provoca mal-estar à imaginação só de tentar reconstruí-lo, um desses episódios tenebrosos que marcam de forma indelével a consciência de uma cidade, de um país inteiro.

A autópsia indicaria afogamento como causa da morte, mas a morte da antiga estrela transexual brasileira, aos 45 anos, seguiu-se a vários dias de tortura. Espancada até à inanição, ficou por um fio depois de ser apedrejada e levar repetidamente com murros, pontapés e pauladas. Apanhou sobre o choro, enquanto suplicava. Os agressores eram adolescentes, menores de 16 anos, boa parte deles entregues às Oficinas de São José – instituição católica que recebia dinheiro do Estado para acolher rapazes retirados às famílias –, vagueavam pelas ruas da cidade, sem nada que fazer, em vertigem delinquente, e tinham dado com ela na cave de um prédio abandonado na Avenida Fernão de Magalhães, no Campo 24 de Agosto.

A certa altura, julgando-a morta, e temendo as consequências que adviriam quando o corpo fosse encontrado, resolveram livrar-se dele. Ainda pensaram deitar-lhe fogo, enterrá-lo, mas fosse pelo receio de que isso alertasse o vigilante do parque fosse por falta de ferramentas, três acabaram por arrastar o corpo uns cem metros, do colchão encardido onde agonizava há dias e onde aparentemente já nem respirava, até uma cratera na placa de betão que formava um poço, com a água a cerca de dez metros da superfície. Foi ali que Gisberta acabou por morrer.

Depois de uma aproximação benevolente, com um dos miúdos a reconhecê-la dos tempos em que tomara conta dele, oito anos antes, ele e outros passaram a visitá-la no intervalo do almoço. Chegaram a levar comida à barraca que ela improvisara num extremo da cave, a cozinhá-la, e a mulher que nascera com corpo de homem no interior de São Paulo falou-lhes da vida que levou, do sonho interrompido de ter um corpo que refletisse quem era interiormente, e sentiu-se na obrigação de explicar também a sua degradação, os sinais físicos exteriores que denunciavam o tão débil estado de saúde. Imigrante ilegal, depois de passar por França antes de chegar ao Porto, de ter servido às mesas, alcançado fama com os espetáculos de transformismo em que deslumbrava a noite do Porto com a figura elegante, os modos delicados e os cabelos volumosos, louros, encarnando Marilyn Monroe e outras divas, começou a usar drogas e acabou por se virar para a prostituição. Apanhou sida e, mais tarde, foi-lhe diagnosticada tuberculose pulmonar, pneumonia e candidíase laríngea, uma combinação que, por si só, seria o suficiente para prostrar qualquer um, provocando-lhe astenia, anorexia, febre, anemia, dificuldades respiratórias e mialgia.

Quando se espalhou a notícia de que alguns dos rapazes tinham começado a dar-se com “um travesti” que até tinha mamas, fizera operações, pintava os lábios, os olhos, e que parecia “mesmo uma mulher”, Gisberta voltou a abalar a modorra daquela cidade, e mais miúdos vieram ver. Depois, tudo o que foi preciso foi que um deles se lembrasse de lhe bater. Os outros seguiram-no.

Depois de se terem visto livres do corpo, alguns dos miúdos não conseguiram enterrá-lo na consciência e falaram. As autoridades foram alertadas e, na cave, além do corpo, encontraram “um colchão, dois cobertores, um casaco de ganga com forro amarelo, uma écharpe de malha, uma camisola de malha, várias peças de roupa emaranhada, diversos sacos de plástico. E um par de luvas, um pente, dois batons, um rímel, um eyeliner, uma gilete, uma pequena caixa com dois espelhos, seis preservativos”.

Isto é um resumo, nem sequer da história, mas das circunstâncias do crime. Seguiu-se o processo judicial, não menos complexo no retrato que traçou das condições e abusos que sofriam, tudo o que levou aqueles rapazes a andarem amatilhados pelas ruas da cidade, estrafegando o tédio na fronteira entre a brincadeira e a maldade, jogando à bola ou divertindo–se a atirar pedras a carros em circulação, aventurando-se em pequenos furtos. Apesar do frenesim mediático, das tantas notícias e algumas reportagens que vieram expor uma dolorosa urdidura de problemas provocados pela negligência não só parental como das instituições de acolhimento, pela desorientação, miséria e exclusão social, volvidos 12 anos, a história está longe ainda de ter sido narrada de forma escrupulosa, e descontando a tão bela quanto terrífica elegia que Alberto Pimenta dedicou a Gisberta – “Indulgência Plenária” (2007, ed. & etc) –, esta aguarda ainda um relato capaz de fazer-lhe aquela “forma selvagem de justiça” que Alberto Manguel diz ser o ponto em que os escritores são investidos “no papel de espiões de Deus”.

Num exemplo de formidável otimismo frente aos poderes da literatura para expiar os mais atrozes feitos cometidos pela humanidade, Manguel acredita que a mente humana tem provado ser mais sábia do que o terror e que isto acontece quando pode dar-lhe um nome: “Na própria descrição dos nossos atos mais abomináveis, algo na boa escrita os mostra como abomináveis e portanto não conquistáveis.” E acrescenta que “apesar da debilidade e da arbitrariedade da linguagem, um escritor inspirado pode contar o impronunciável e atribuir uma forma ao impensável, para que o mal perca alguma da sua qualidade divina e fique reduzido a algumas palavras memoráveis” – “Os Espiões de Deus”, ensaio integrado no livro “No Bosque do Espelho” (2009, Dom Quixote).

Depois de uma tão alardeada estreia com o romance “O Meu Irmão”, que fez de Afonso Reis Cabral, em 2014, o mais jovem dos escritores galardoados com o prémio Leya, passaram quatro anos e há um romance que ficou a meio quando, em 2016, vários órgãos de comunicação assinalaram os dez anos da morte de Gisberta. Afonso assumiu que foi o instinto que o levou a abandonar o romance que andava a escrever, percebendo que tinha neste caso matéria bem mais desafiante para servir de base ao seu segundo romance.

Em 2006, Reis Cabral tinha 16 anos, a mesma idade que o mais velho dos 14 rapazes que foram julgados em tribunal, aquele que, apesar de nunca ter agredido Gisberta, de até ter pedido aos outros que parassem, não teve força para se impor e foi julgado como adulto e condenado a oito meses de prisão efetiva pelo crime de omissão de auxílio. Numa entrevista ao “Público”, o romancista diz que teve a reação que o caso provocou em quase toda a gente: ficou “incrédulo”. “Pensava na idade deles, pensava na minha, pensava: o que pode levar pessoas da minha idade, da minha cidade, a fazer isto? E a fazer isto a alguém desamparado?”

“Pão de Açúcar”, publicado há semanas com selo da Dom Quixote, é a sua tentativa de, através da ficção, compor as lacunas, tentar dar resposta àquele “enigma”. E é uma ficção que, se não deixa de estar bem consciente do enorme risco ético que levanta este caso, se abalança com a convicção de que “só a ficção teria esse condão”. E se é notório que Afonso estudou o processo judicial, visitou o prédio – que continua devoluto, embora ostente atualmente um aviso da construtora Lúcios, afirmando que planeia fazer ali apartamentos, lojas e escritórios –, leu muito do que saiu na imprensa e noutras partes e até chegou à fala com algumas das pessoas que conheceram Gisberta, procurando munir-se de uma base sólida de factos antes de estruturar o livro. Contudo, há uma suspeita que começa a  cercar o leitor depois de ter despachado meia dúzia dos seus breves capítulos.

O narrador chama-se Rafa (Rafael Tiago) e é um personagem entre o ficcional e o compósito. Parece captar diversas frequências do que se sabe sobre os rapazes, e a dimensão psicológica depressa acaba por cumprir um mero dispositivo funcional, servindo como eixo para um ponto de vista que raramente consegue ganhar alguma espessura dramática e refletir verdadeiramente as dimensões sociológica, cultural e etária em causa. A narrativa começa, assim, a ceder muito cedo a uma composição formulaica e damos por nós a ler uma reportagem romanceada, cheia de ecos introduzidos ali de forma forçada, a tal ponto chega a transparecer a disciplina com que o autor se fechou a montar as cenas para um guião pré-definido.

Como há quem pinte por números, a sensação é a de estarmos a ler uma ficção esquemática, introduzindo, um por um, os dados apurados no processo e na imprensa, com a imaginação tateando a medo e segurando-se ao corrimão dos factos, copiando à vista a realidade através de uma técnica bastante tosca, num realismo em que, logo depois de aplicada a cola, dá a sensação de que tudo fica meio despegado. Vamos avançando por meio de frases de contornos suaves, uma estética branda, medida, controlada, num contraste absurdo com a história que tem por trás. E é a precipitação do final que já conhecemos que nos mantém na expetativa. Nisto, Reis Cabral leva o seu tempo, cobrindo a cerca de arame farpado com o tapete dos dados levantados pela investigação para saltar para o outro lado. Mas, por mais saltos que dê, sempre parece falar de uma realidade que lhe escapa. E são raros os momentos em que a ficção, ao invés de amaciar, nos faz enfrentar “o coração das trevas” que sentimos pulsar uns bons passos à sua frente.

Aquilo que nos é servido não chega sequer a impor-se como um romance, pois não se consegue discernir nesta narrativa qualquer ambição estética e nada de novo se acrescenta à compreensão do caso, do mesmo modo que não há qualquer mudança de perspetiva seja na compreensão que temos do homem ou sequer da forma romanesca.

Ao invés de expor a realidade, Afonso Reis Cabral parece não fazer mais do que aplicar verniz. Se as personagens aludem vagamente aos abusos e maus-tratos de que os rapazes eram vítimas, se vão largando umas asneiras, adotam enfaticamente o calão, trocam insultos e mostram traços de crueldade, raramente conseguem ganhar mais relevo do que desenhos animados. O narrador parece um corretor automático, fabricando uma interioridade que passa a cursivo o que deveria estar em itálico, trocando os demónios íntimos por diabinhos tatuados na pele.

Se as cenas de violação se fazem valer da crueza própria da reportagem, noutros momentos, o registo mostra-se duro de ouvido, incapaz de variações ou de calibrar a tensão, e a ação provoca a dormência própria do ruído branco.

Este modelo de ficção apresenta-se como uma dobra conformista, e é revelador, de resto, o facto de a generalidade das páginas de cultura terem logo vindo caucionar a obra. Nem semanas tinham passado e já surgia o primeiro artigo, em viés de reportagem, a colar este poster ficcional numa superfície que, se não diz “afixação proibida”, deveria pelo menos convidar a uma certa reserva, algum pudor diante de uma história que está longe de ter tido o seu momento de expiação.

Do que aqui se trata – e neste aspeto é que esta obra se mostra uma chave para analisar a amorfia da ficção portuguesa atual – é de um romance-performance. Um género que não é nada invulgar no contexto da nossa literatura nos últimos anos, num definhamento que resulta tanto do modo de receção paroquial como do vazio da crítica, tanto jornalística como académica. A divulgação de uma obra literária passa hoje, necessariamente, por um acordo de vontades, um arranjo, ficando dependente da boa vontade dos pares para obter validação e fazer carreira. A obra está, por isso, incompleta sem o efeito mediador, e, quanto ao romance, este nem chega a desembaraçar-se do mundo, de forma a criar a sua própria razão dissonante, um universo equilibrado sobre leis próprias, mas torna-se um manequim para ser desfilado e vestido coletivamente. De tal modo que, no fim, todos os outros intervenientes – editores, publicitários, dinamizadores culturais, jornalistas e críticos – se sentem coautores, cada um ocupando uma função no negócio familiar.

Na rudimentaridade do modelo de ficção que Reis Cabral aqui aplica, como um bom aluno resolvendo sem dificuldade um exercício de escola (escrita criativa 101), este livro prova ser um tratado sobre as convenções que tornam este um género imediatamente reconhecível e popular entre nós. Sem atrito, marcado por um tom complacente, incapaz de provocar qualquer estremeção, gere habilmente o tempo, compõe um biombo com flores para tapar a cena de um crime, devolvendo algum conforto ao público. E isto é conseguido temperando a infâmia com o pó de arroz da literatice, os lugares-comuns, frases sem grumos, capítulos curtos, um livro que se lê sem esforço, que se alonga, demora desnecessariamente. O leitor é entretido e levado a um estado de torpor pelo éter das frases, da prosa sem espinhas, de uma narrativa como pão de forma, sem côdea.