01/03/2024
 
 

A síndrome Bruno de Carvalho

Não tenho por hábito escrever sobre futebol e, na verdade, este não é um texto sobre futebol. Achei que depois de Bruno de Carvalho haveria bom senso e os principais agentes do mundo do desporto ganhariam juízo e sobretudo vissem o ridículo em caiem quando desatam a disparar para todo o lado.

Também pouco me importo quando isso acontece pois como diz o povo, cada uma sabe de si. O que me preocupa e, honestamente, aborrece e transtorna é este clima de suspeição e de terrorismo que vivemos nos dias de hoje no mundo do desporto.

Ao nível do futebol, somos campeões Europeus, temos o melhor jogador do mundo, os melhores treinadores e uma geração de novos grandes talentos a despontar. Em outros desportos temos campeões do mundo, da Europa e Olímpicos, que vão da canoagem ao atletismo e que, nos últimos tempos, são os únicos que não nos envergonham. Mas ao que parece, ficou por cá um vírus que tem vindo a afetar sobretudo quem não sua as camisolas e apenas delas vive – a síndrome Bruno de Carvalho.

A corrupção é um mal intrínseco na sociedade, mas nos últimos tempos, sobretudo no mundo do desporto, parece que não há limites na luta pelo poder.

Dirigentes desportivos que não medem as consequências dos seus atos e, sobretudo das suas declarações. Em constante terrorismo mediático, assessorados por profissionais da comunicação, outrora jornalistas de qualidade e respeito, mas que veem no mundo do desporto um aliciante financeiro que os media não conseguem acompanhar e, por fim, dirigentes, funcionários de órgãos públicos e políticos que se parecem deslumbrar pelo “vipismo” do mundo do desporto.

Vivemos em sociedade aberta e democrática e, como é normal, pessoas dos mais diferentes quadrantes interligam-se independentemente dos credos, convicções e orientações. O problema é que no meio disto tudo há sempre quem confunda os papéis e, para proveito próprio, usufrua das normais relações sociais, sujando-se e sujando todos os que estão à sua volta.

Depois de Bruno de Carvalho confesso que achei que as coisas pudessem acalmar – mas não! Dirigentes que avançam com providências cautelares, juízes a integrar órgãos sociais desportivos, jornalistas que divulgam informações furtadas e comentadores às paletes que a troco de meia dúzia de disparates têm o seu minuto de fama.

Vive-se um dos momentos mais deprimentes do desporto nacional. Um verdadeiro caos que parece estar ainda a começar.

Opina-se de forma infundada e com base na sempre irresponsável expressão do “diz-se que”! Gastam-se horas de espaço televisivo e de páginas de jornais com imagens sensacionalistas e acusadoras sem que, na verdade, haja qualquer acusação. Fazem-se pré-julgamentos e ditam-se sentenças em praça pública sem citações ou probatórias.

Tudo isto parece não ter fim! Parece não haver limites para a mediocridade humana. Ao contrário, o bom senso e a serenidade parecem esgotadas.

Como é evidente, na base de tudo isto, está o poder e sobretudo dinheiro. Muito dinheiro! O desporto e em concreto o futebol são uma poderosa indústria e com uma margem de progressão ainda desconhecida.

Talvez fosse o momento de repensar os atuais modelos. Não aqui, mas a nível europeu e mundial. As atuais regras do jogo apenas contribuem (tal como na economia) para aumentar o fosso entre clubes ricos e pobres e, por isso, vale de tudo para não perder o comboio e cair no fosso dos menos favorecidos. O fair play financeiro é uma anedota e só tem contribuído para promover mais corrupção e jogadas de bastidores.

Por muito que me custe admitir a síndrome de Bruno de Carvalho existe e vai ser muito difícil de combater e, por ventura, eliminar.

 

Escreve à quinta-feira

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