17/10/18
 
 
Mário Cordeiro 18/09/2018
Mário Cordeiro

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Desperdício

Depois de tempos de contenção, algumas pessoas parecem ter esquecido que passámos por uma crise, em parte causada por um consumo acima das possibilidades e, por outro lado, por se contraírem empréstimos impossíveis de pagar (sem subestimar a incapacidade e a indigência criminosa de alguns gestores, financeiros, banqueiros e políticos). Quando evoluiremos para uma sociedade mais “crescida”, em que o show-off venha até a ser considerado ridículo?

O desperdício sempre me causou alguma repulsa, ainda mais quando se verifica em questões que tinham soluções simples, dependentes exclusivamente da organização das pessoas.

Já nem me refiro às roupas de marca caríssimas para bebés que nem as usam, brinquedos aos montões que a criança (felizmente!) substitui nas suas preferências pelo contacto com as pessoas e por materiais “naturais e brutos” ou até pelo comando da televisão e outras coisas parecidas.

Todavia, dei comigo a pensar neste assunto quando um amigo meu, pai de gémeos, me disse que andava aflito a pensar que tinha de comprar um carrinho de passeio e ainda mais uma série de coisas, desde esterilizadores de biberões a intercomunicadores, e tudo em duplicado!

De repente veio-me à ideia a quantidade de cadeirinhas de automóvel, cadeiras de comer, parques, carrinhos de passeio, roupas, brinquedos, livros e tanta outra coisa que os pais compram e que em alguns (escassos) meses deixam de servir, de ser necessários ou, simplesmente, não se usam. Em casas tendencialmente pequenas, são mais uns trambolhos que ficam arrumados a ocupar espaço, provavelmente à espera de um utilizador que nunca virá (com o número de filhos por casal quase ridículo que existe em Portugal, é duvidoso quase ter um segundo filho, quanto mais um terceiro, ou mesmo que venha esse filho, acabará por receber o último modelo, oferecido por alguém).

Muitas famílias queixam-se, com razão, das dificuldades orçamentais por que passam. Outras referem não poder ter o que necessitam. Porque falham então as “transferências” destes objetos de bebés para bebés? Claro que muitos casos haverá em que amigos e familiares passam a outros amigos e familiares, mas se houvesse um sistema organizado em cada freguesia ou em cada bairro ou aldeia, talvez fosse possível “reciclar” estes utensílios, poupando muito dinheiro aos pais, libertando-lhes espaço em casa e beneficiando as crianças.

Sei de pessoas que tentaram incrementar este sistema em lojas – segundo sei também, a maioria destas iniciativas foram votadas ao fracasso. Porquê? Pode haver muitas razões, mas uma delas será o novo-riquismo e a necessidade de exibir “sinais exteriores de riqueza” que fazem com que alguns pais considerem que algo em segunda mão é sinal de vergonha. As cadeirinhas do carro, por exemplo, para as quais há forras muito baratas, são um bom exemplo do que se poderia fazer. Se os pais pudessem deixá-las num local onde recebessem um quarto do seu valor e a loja cobrasse mais um quarto, o comprador final ficaria com elas por metade do preço. Toda a gente ganhava. O comércio perderia? Provavelmente, um pouco, mas as lojas também veriam a venda de outros artigos aumentar. Fica a ideia. Não será altura de nos deixarmos da adulação dos sinais de show-off e começarmos a desenvolver a humildade e o sentido prático que fazem parte das sociedades mais desenvolvidas?

A frugalidade é ter-se aquilo de que se precisa sem exagerar, ou seja, sem andar a amontoar objetos e tralha que não servem para nada ou que, hipoteticamente, terão um uso eventual. Temos de ser, em Portugal, mais frugais e mais contidos nesta ânsia do “ter” bens materiais e coisas imprestáveis. Seremos capazes? Quando se vê o que parece ser uma nova espiral de consumo (por exemplo, de automóveis) e estímulos ao crédito para bens da treta, o futuro não parecerá ir mostrar que se aprendeu alguma coisa com o passado.

 

Mudança da hora

Prometi que falava deste assunto. Vou ser sucinto. Subscrevo inteiramente a ideia da Comissão Europeia de que não se mude de hora e tenhamos a “hora de verão” durante todo o ano. Vejo várias vantagens em, no fundo, ter uma hora mais de luz à tarde e menos uma de manhã, no inverno, que é essa a questão. A energia gasta-se mais à tarde do que de manhã; os acidentes de viação, designadamente atropelamentos, são mais frequentes ao fim do dia, quando há pressa em chegar a casa e cansaço e falta de paciência muito maiores que de manhã; as crianças já se levantam, a maioria, quando ainda está escuro, pelo que não será por aí; por outro lado, quando, ao fim da tarde, vão para atividades, ainda o fazem “de dia”. Os roubos, assaltos e ataques dão-se à tarde (ou noite), e não de manhã – a segurança para as crianças que saem da escola, atualmente já noite cerrada, será maior.

Enfim, por todas as razões, creio justificar--se que o governo português adote a recomendação da Comissão e do Parlamento Europeu. Do ponto de vista pediátrico, creio ser recomendável; do ponto de vista pessoal – aí, obviamente que é subjetivo –, também prefiro mil vezes ter mais luz à tarde que de manhã…

Pediatra

Escreve à terça-feira

 

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