15/11/18
 
 
Afonso de Melo 12/07/2018
Afonso de Melo

afonso.melo@ionline.pt

O canalha de Coyocán tinha uma história para contar

Na Rússia, quando um homem se senta para comer e beber, não se levanta antes de ter esvaziado, pelo menos, garrafa e meia de vodca.

MOSCOVO – Ontem , ainda vi um mexicano. São de uma teimosia admirável, os mexicanos. A sua equipa nunca vai longe, mas eles teimam em ficar até ao fim. O ano passado, em Kazan, depois do Portugal-México para a Taça das Confederações, entrei num bar meio manhoso para comer um qualquer daqueles pedaços de carne cozida e fria que fariam o Ivolguín, de O Idiota, lamber os alcoólicos beiços de incomprensível sofreguidão, e vi-me, de súbito, submergido por uma maré verde de gente que cantava Cielito Lindo até ao exaspero da desafinação e ao desmantelamento das cordas vocais.

Na Rússia, quando um homem se senta para comer e beber, não se levanta antes de ter esvaziado, pelo menos, garrafa e meia de vodca.

Fomos esvaziando.

Eu e um casal sentado a meu lado que, sinceramente, não faziam a bota bater com a perdigotal. Enfim, não era comigo. Estava absolutamente decidido a dormir sozinho e, assim à distância, acho que foi o que fiz, Deus me perdoe.

Para cá e para lá na taramela, Eusébio ao barulho que nenhum de nós era menino, venho a saber que o casalinho, ainda que por conveniência orgânica própria das libações e das madrugadas, era de Coyocán e digo-vos que o nome me fez logo comichão no sangue. Ora bem, se há algo que junte o México com a Rússia, esse algo é Coyoacán, o vilarejo dos coiotes antes de a Cidade do México se tornar uma espécie de devoradora de “barrios” e engordar até à enormidade dos seus 16 ou 17 milhões de habitantes, assim por baixo.

Aguentei-me firme, mas o nome saiu-me pela boca aos borbotões como se o vomitasse: Ramón Mercader!

O canalha de Coyoacán!

Saltou de uma sombra para, com uma picareta escondida no bolso da gabardina, fender a cabeça de Trostski.

Não sou de meter em intrigas políticas, mas tenho uma certa simpatia por Leon Trostski. 

Não me perguntem porquê. Ou, vá lá, perguntem. 

Eu respondo como posso.

Estava Trotski com a ponta da picareta enfiada no seu crânio lenhificado quando avançam, de supetão, os seus guarda costas que, ao que se sabe, não eram tão poucos como isso. Desatam a espancar, e bem, o tal de Mercader, canalha de pai e mãe até à quinta geração, quando ouvem uma voz sumida, quase transparente. 

Trostski já vivia no México há tempo suficiente para compreender que nada se deve fazer de um momento para o outro, mesmo que depois de ter o encéfalo incomodado pela ponta de uma picareta.

Como eles dizem: “Una cerveza para ahora y otra para ahorita”. Então murmurou: “Não o matem que esse homem tem uma história para contar”.  

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