23/7/18
 
 
Afonso de Melo 10/07/2018
Afonso de Melo

afonso.melo@ionline.pt

“Dostoievski é botafogo”

Crónica de Afonso de Melo

SOCHI – Paulo Mendes Campos, escritor e jornalista mineiro, entrou nesta curiosa comparação: “Miguel Ângelo é botafogo, Leonardo é flamengo, Rafael é fluminense; Stendhal é botafogo, Balzac é flamengo, Flaubert é fluminense; Bach é botafogo, Beethoven é flamengo, Mozart é fluminense. Dostoievski é botafogo, Tolstoi é flamengo (na literatura russa não há fluminense); Baudelaire é fluminense, Verlaine é flamengo, Rimbaud é botafogo; Camões não é vasco, é flamengo, Garrett é fluminense, Fernando Pessoa é botafogo.”

Ele lá saberá, não entro em tal discussão.

Prefiro ver Dostoievski como Pelé. Pelé fazia o óbvio, mas o óbvio dele era impossível para os outros: fintava cinco defesas e a gente sabia que ele fintaria os cinco defesas, depois o guarda-redes, e o golo perfeito. Ficamos a pensar como aquilo foi feito, mas incapazes de repeti-lo. Dostoievski era Pelé misturado com Yashin: a sua parte negra tem um homem branco vestido de preto e a sua noite branca é um preto vestido de branco (camisola do Santos). Garrincha, por sua vez, era o óbvio pouco nítido. Vicente Feola, selecionador brasileiro em 1958, quis obrigá-lo a não fintar. Pôs uma cadeira no campo e disse: quando chegares à cadeira tocas para o companheiro do lado e vais receber a bola dele para lá da cadeira. Garrincha encolheu os ombros, foi direito à cadeira, passou-lhe a bola pelo meio das pernas e seguiu a sua correria.

Garrincha fintava os mesmo cinco defesas como Pelé, guarda-redes também, mas não fazia o golo perfeito: voltava para trás para fintar todos outra vez. Ora, isso não é Dostoievski. Isso é Kafka descarado. Depois da finta de Garrincha, todos os adversários ficavam como Gregor Samsa, acordando de repente transformados em enormes escaravelhos.

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