16/12/18
 
 
Afonso de Melo 09/07/2018
Afonso de Melo

afonso.melo@ionline.pt

Quando os cucos entram pela boca

A crónica de Afonso de Melo

SOCHI – Alguém, não sei se Cavaleiro de Oliveira, disse uma vez sobre “Os Lusíadas”: “Têm dois defeitos: são demasiado longos para se saberem de cor e são demasiado curtos para serem infinitos.”

A literatura russa é certamente demasiado longa para se saber de cor, e é pena, mas tenho muitas dúvidas de que não seja infinita. De cada vez que releio “Os Irmãos Karamazov”, não acredito na existência de um Deus inofensivo; a cada tentativa de entender Raskolnikov, creio piamente no assassino que é cada um de nós; Gogol é tão, tão grande que se torna impossível escrever sobre ele; comparados com Pushkin, todos não passam de bolhas de sabão dispersas numa atmosfera sem oxigénio. 

No dia em que fui ao encontro de Daniil Ivanovitch Iuvatchov, que assinava Harms, percebi a frase de Marina Tsvetaieva: “Só podemos admirar a vitalidade heroica dos escritores ditos soviéticos que escrevem do mesmo modo como a erva cresce por entre as lajes das prisões – a despeito de tudo e contra tudo.”

Daniil morreu numa prisão de Leninegrado aos 37 anos. Foi sempre tão pobre como rica a liberdade da sua prosa absurda mas de uma ternura ilimitada. Por isso, os seus personagens bocejam e deixam que os cucos lhes entrem pela boca. Por isso, quando Natacha, depois de morrer a cantar, simplesmente se desenterrou e correu para casa, sem dizer nada, e foi para o seu quarto crescer, eu sei que viverei para sempre por entre todos esses livros tão infinitamente russos que me fazem querer, também eu, um dia sem canto, me desenterrar e, sem dizer nada, fechar-me num quarto qualquer que tenha desocupado cá dentro, e simplesmente ler.

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