15/12/19
 
 
Afonso de Melo 06/07/2018
Afonso de Melo

afonso.melo@ionline.pt

Quero ouvir o murmúrio das estrelas

SOCHI - Mais uma noite mal dormida e uma manhã sem sono. Quem é este homem de olhos claros não de todo estranhos que me fita do outro lado do espelho, como Alice sem maravilhas? Quem é esta criança luminosa que faz um esforço para agarrar a minha mão? Sinto o calor da sua mãozinha na minha pele fria. Não me importava que ficasse aqui ao meu lado durante um bocado: gostava de a ver rir. Deve ter um sorriso inesquecível e um brilho abundante nos seus olhos azuis crédulos... 

Sento-me para escrever e as palavras brotam-me aos milhares. Quero voltar a falar da Sibéria neste Mundial injustamente sem Sibéria. Quero fechar estes nacos de página em branco e regressar ao livro que ficou aberto sobre a cama: “In Siberia”, de Colin Thubron. Jornalista, viajante libertário e solitário, proprietário de todos os mundos ao seu alcance.

Saio para me excitar com cafés bebidos em sofreguidão.

É tão cedo ainda e já há expressões conformadas de quem sabe que nada há para fazer. 

Mas que nada é esse? Mas porque me rodeiam as multidões mansas do absolutamente nada? Ah! O efeito que teria agora um grito... Um berro que estilhaçasse olhos vítreos, também eles claros e multiplicados. Um grito que afastasse as nuvens escuras que vieram durante a noite para nos tapar o sol.

Dostoievski na Sibéria.

Ossip Mandelstam na Sibéria: morto.

“Os poetas são assim mesmo: primeiro matam-nos, depois veneram-nos.”

Boris Pasternak; Ana Akhmatova, a poetisa que teve de esfregar soalhos; Maiakovski, o suicida; Tchekov e Pushkin; até Gorki, Máximo.

Nunca fui à Sibéria no inverno. Só no final da primavera, quase outono.

Preciso de ir à Sibéria no inverno. Quero ver o nada.

Uma brancura completa na qual não cabem gestos, palavras, sons, imagens. Como se estivesse à deriva no preciso centro de uma concha vazia. Nunca pensei que dentro das conchas houvesse um silêncio tão profundo. Sempre estive convencido de que dentro das conchas houvesse o vento e ondas e mar. 

A Sibéria no inverno é a brancura?

Thubron escreveu: “Em Oymyakon registou-se uma temperatura de -97,8 Fahrenheit. Com um frio assim, o aço racha, os pneus explodem e os larícios soltam faíscas ao simples toque de um machado. À medida que o termómetro desce, o nosso bafo gela em cristais e tilinta no chão com um barulho a que eles chamam murmúrio das estrelas...”

Quero ouvir o murmúrio das estrelas.

Quero caminhar para leste e ser inverno.

Sochi, morna e terna na beira do mar Negro. Aqui me traz o futebol, paixão das paixões do homem por mais que a gente se convença, ou tente convencer, de que é apenas a coisa mais importante das coisas menos importantes.

A madrugada também foi branca, insone. Por quanto tempo mais continuarei preso a estes sonhos brancos sem significado nem sons? Não. Não quero continuar aqui por mais um minuto que seja. Quero poder levantar-me! Quero que algum destes fantasmas que esvoaçam em meu redor na sua tristíssima condição de almas penadas me ajude a erguer-me e a pôr-me de pé, andando.

Mas não posso: escrevo nesta vontade contumaz de Sibéria sem Sibérias.

Umas senhoras conversam molemente à beira do rio Sochi, na ulitsa Novaya Zarya.

De súbito, tu no que escrevo.

Podia apertar a tua mão na minha com muita força, que é assim que se exprime o carinho através das mãos. Faria sorrir a senhora dos cabelos negros com uma palavra a despropósito. E tu também te ririas muito. Até talvez eu, embora apenas um pouco. Desafiava-te: vamos à procura de uma Sibéria qualquer e do murmúrio das estrelas. De mãos dadas atravessaríamos sem medo todos estes corredores brancos e infinitos, entrando decididos nas estepes da eterna saudade.

 

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