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Rita Silva. “Já me partiram o carro inúmeras vezes”

Rita Silva. “Já me partiram o carro inúmeras vezes”

Bruno Gonçalves Luís Claro 27/06/2018 14:33

Presidente da Animal acredita que as touradas vão acabar, porque “as pessoas estão a afastar-se deste tipo de tradições”

Rita Silva chega uns minutos atrasada, porque teve de levar o “pequeno” ao hospital. É assim que se refere a um dos vários animais que estão ao seu cuidado. Foi, por isso, que há dez anos decidiu ir morar para o campo. O motivo da entrevista foi o debate na Assembleia da República, no dia 6 de julho, para abolir as corridas de toiros. A presidente da Animal revela que já assistiu a touradas, por motivos profissionais, e não gostou do que viu nas praças de Portugal e Espanha. Desde criança que acha “aquilo um horror” e relata os muitos conflitos com toureiros e aficionados. 

Já alguma vez na vida assistiu a uma tourada?

Infelizmente já assisti. Fiz investigação em vários campos da proteção animal, quando comecei a trabalhar nesta área, e vi vários eventos tauromáquicos.

O que sentiu quando assistiu na praça a uma corrida? 

É muito chocante. É muito mau. Consigo controlar melhor o choque, mas é muito mau. Não é melhor uma tourada à portuguesa do que à espanhola. O sofrimento não se mede, mas do ponto de vista do público chocou-me mais ver a morte do toiro à minha frente. É ainda mais bárbaro. Vi várias atividades tauromáquicas. Vi as Capeias, que é uma coisa profundamente estúpida e que não tem razão de ser. São umas coisas de madeira e eles metem-se lá dentro e vão contra o toiro. É só isto. Isto não tem objetivo. É uma coisa completamente tola. Vi também as largadas de Pamplona, mas tudo por razões profissionais. Tive de gravar.

Não iria por curiosidade?

Não. Que horror! Isso nunca. 

Poderia ter ido por curiosidade para observar até que ponto o animal sofre ou não.

Isso nem se coloca. O sofrimento do animal já não se coloca desde os anos 50. Já toda a gente sabe que os animais sofrem. Eu sou contra imensas barbaridades no mundo e não preciso de as ver para saber que sou contra. Sou antitouradas desde pequenina. A minha família é antitouradas. Cresci a ser contra a tauromaquia. Lembro-me de, quando era criança, estar em casa de outras pessoas que tinham a televisão ligada numa tourada e de achar aquilo um horror. 

Mas percebeu que as pessoas que estavam assistir gostam mesmo de ver este espetáculo.

É muito assustador. Isso é das coisas que mais me assusta. É aquele efeito ‘matilha’, das pessoas que estão ali a vibrar e a pedir sangue. São pessoas que, em grande medida, estão condicionadas pela cultura na qual cresceram. Aquilo é a vida delas. Crianças nas praças é outra coisa assustadora. 

Não é proibida a entrada de crianças...

É permitido e a fiscalização é miserável. Continuam a ir bebés de colo por muitas queixas que se façam. Choca-me profundamente que alguém fique alegre e esteja ali a dizer: mata, mata, mata...

Não compreende o argumento de que a tauromaquia é uma questão cultural?

Ninguém coloca em causa que seja uma forma de expressão cultural como tantas outras coisas, mas a cultura não é estanque. Não é parada no tempo. Há muitas práticas culturais que foram abolidas e alteradas com o passar do tempo, porque se percebeu, até por questões de direitos humanos, que elas não eram exequíveis. 

A Assembleia da República vai discutir, no dia 6 de julho, a abolição das touradas. Tem alguma expectativa de que os deputados, que têm sido contra restrições às corridas de toiros, aprovem o fim das touradas?

Muito frontalmente lhe digo que a direita é conservadora nesta questão. Há muitos deputados e deputadas que estão pessoalmente ligados à indústria tauromáquica. Familiarmente ligados a esta indústria. Têm uma dama a defender. Depois temos a questão da esquerda. O Bloco de Esquerda e o PEV já tem uma posição oficial contra as touradas. O PCP é muito conservador nesta área porque tem muitas autarquias de zonas com tradição tauromáquica. Há três partidos contra e depois temos o PS que tem muita gente contra. O CDS tem uma postura pró-tauromáquica. 

Assunção Cristas comparou a tourada a um bailado...

Correu-lhe mal. Foi uma situação que lhe correu mal, porque quer agradar aos dois lados.

Acha que os políticos têm mais dificuldade em admitir que gostam de touradas? 

Totalmente. Eu comecei a fazer este trabalho há 15 anos e existe uma diferença abismal. Há cada vez mais dificuldade em assumir que se é a favor da tauromaquia, porque é polémica. Ninguém quer ser visto como bárbaro ou como alguém que gosta de sangue. 

Mas não votam a favor da proibição.

Há pessoas que são contra a proibição, mas acreditam que as touradas vão acabar com o tempo porque a sociedade vai evoluindo. É uma postura muito comum. Nós trabalhamos para essas pessoas. Não trabalhamos para os aficionados, porque sabemos que não vão mudar de ideias, nem trabalhamos para pessoas que pensam como nós. 

As pessoas não devem ter a liberdade de gostar e de assistir a um espetáculo com estas características?

Sou uma defensora da liberdade e sou descendente de pessoas que lutaram pela liberdade. Tenho esses princípios muito vincados na minha vida. Mas há coisas que são eticamente condenáveis e não podemos ser livres de as fazer. É como perguntar se alguém é livre de espancar outra pessoa ou se é livre de bater na mulher e nos filhos. As pessoas são livres, mas estamos a falar de comportamentos que socialmente já percebemos que não são éticos e não são aceites. Estamos a falar de entretenimento. Não há mais nenhuma razão para manter a tauromaquia que não seja a paixão de um grupo de pessoas cada vez mais diminuto. Mas nós sabemos que a tauromaquia não acaba por decreto.

Como é que acaba?

Nós não apresentamos petições a pedir a abolição da tauromaquia. Já o fizemos quando tínhamos menos experiência. Já aprendemos muito e sabemos que aquilo que continua a manter a tauromaquia de pé, nos oito países onde existe, é o dinheiro público. Para nós a chave é acabar com os dinheiros públicos. Se vivesse exclusivamente dos fundos privados já não existia. As pessoas estão a afastar-se deste tipo de tradições. Cada vez têm menos interesse neste tipo de espetáculo, porque as repugna. Há vinte ou trinta anos os miúdos achavam bonito ser toureiro. Era viril. Hoje em dia querem ser jogadores de futebol. Não é cool dizer que se é aficionado das touradas. Não abona a favor de ninguém. 

Acredita mesmo que, mais tarde ou mais cedo, vão acabar?

Sempre acreditei. Faz um bocadinho lembrar a queda do Muro de Berlim. Ninguém imaginava que ia acontecer até ao momento em que caiu. Foi uma coisa completamente inesperada. Eu acredito que vai acontecer uma coisa muito semelhante com a tauromaquia. Nós estamos infiltrados em fóruns de aficionados, como eles estão nos nossos, e ouvimo-los queixarem-se de que só têm público nas corridas televisionadas, porque as pessoas querem aparecer, e quando os bilhetes são oferecidos. 

Há toureiros e aficionados que tratam muito bem os animais...

Isso chama-se dissonância cognitiva. A psicologia explica. É só o que tenho para dizer. Não estou a dizer que uma pessoa que é aficionada é a pior pessoa do mundo. Pode ser um excelente pai ou um excelente marido. Pode até tratar muito bem o seu cãozinho, mas isso não faz com que aquela atividade seja, do nosso ponto de vista, eticamente defensável. Nós, ao contrário do outro lado, não temos nada contra as pessoas. O nosso problema é a atividade. Somos totalmente contrários àquelas tolices das pessoas que se congratulam quando há um acidente ou quando morre um forcado ou um toureiro. Somos totalmente contra isso. É uma tristeza que as pessoas morram desnecessariamente, mas ninguém se pode vangloriar com a morte de outra pessoa. 

Era capaz de ter um amigo que gostasse de touradas? 

Não tenho amigos aficionados. Não tenho. Tive uma colega de trabalho, há muitos anos, que era de uma terra ao pé de Barrancos e ela era aficionada. Trabalhei pouco tempo com ela, mas lembro-me de discutirmos o tema. Ela argumentava que tinha crescido com aquilo. 

Não arrisca dizer que conseguiria ser amiga de uma pessoa que gostasse de touradas. 

Não lhe posso dizer que sim ou que não. Não sei. Não gosto nada de experiências mentais. Tento não julgar as pessoas, mas é óbvio que me deixaria preocupada ter alguém próximo que se alegrasse com o sofrimento de um animal. Não lhe sei dizer, mas faz-me muita confusão ter proximidade com alguém que acha fantástico estraçalhar o animal.

Pergunto-lhe isto porque as discussões entre os movimentos a favor e contra são sempre muito agressivas. 

Infelizmente é verdade e aí já não posso ser tão diplomática, porque a verdade é que estamos a falar de pessoas cuja atividade se centra na violência e isso nota-se nos debates. Eu já tive de ser escoltada em conferências e debates sobre o tema, porque fui ameaçada. 

Foi ameaçada por pessoas ligadas à tauromaquia? 

Sim, sim... Já me partiram o carro inúmeras vezes. No último ano aconteceu duas vezes. Felizmente isso tem acontecido menos nos últimos anos, porque quem está agora à frente desses movimentos a favor da tauromaquia já não se centra só no emocional como acontecia antigamente. Eles procuram pessoas que não sejam tão emocionais e já têm outros cuidados. Antigamente era uma desgraça. Lembro-me que passaram com um jipe por cima de um dos meus colegas da Animal. 

Imagina quem faz isso?

Não acredito que sejam estas pessoas com mais visibilidade. Acredito que sejam apoiantes.

Mas tem a convicção que são pessoas ligadas à tauromaquia.

Infelizmente sei que são. Já nos aconteceu o mesmo com os circos. Têm acontecido coisas surreais. Uma vez em Torres Vedras um cavaleiro tauromáquico passou por cima dos manifestantes com o cavalo. Isto é perigoso e não há super-heróis. Muitas destas pessoas são caçadoras e têm armas. É preciso ter muito cuidado. Nós dizemos sempre aos nossos ativistas que não há heróis. Dizemos sempre para não se armarem em heróis porque são pessoas que vivem nesta cultura das armas. Há muitas destas pessoas que têm nos seus perfis de Facebook fotografias com animais mortos a sangrar. Coisas muito bárbaras. Isso a mim assusta-me. Eu não vivo com medo e não deixo de fazer o meu trabalho, mas gosto de olhar por cima do ombro. 

Não há também exageros dos manifestantes antitouradas? Como, por exemplo, às portas das praças chamarem assassinos aos aficionados. 

As nossas ações são pacíficas. Às vezes há um ou outro ativista que caiu ali um bocadinho de paraquedas e começa com algumas ofensas, mas nós não permitimos isso. Temos uma boa relação com as polícias e não fazemos nada sem a presença policial. Muitas vezes pedimos à polícia que nos identifique pessoas que nos cospem para cima, que fazem gestos menos próprios... 

Tem muitos animais em casa?

Vivo com animais. Sou a tutora legal dos animais que estão ao cuidado da associação. Nós não temos um abrigo aberto. Sou a tutora destes animais e eles vivem comigo. Mudei-me para o campo para poder ficar responsável por eles. 

Quantos animais vivem consigo?

Não lhe vou dizer quantos por uma questão de segurança. Muitos estão relacionados com processos judiciais e com casos bastantes complicados. Temos tudo legalizado, mas não tenho um número para lhe dizer. 

Cresceu no campo?

Sou do Algarve. Vim estudar para Lisboa com 17 anos e fui ficando por aqui. Vivi também em Trás-os-Montes num sitio onde nem supermercados havia. Era um senhor que ia com uma camioneta vender coisas. Quando comecei a trabalhar na Animal fui viver para o Porto e depois vim para uma zona rural nas imediações de Lisboa. Estou lá a viver há dez anos.

Vai aproveitar a nova lei para levar os seus animais ao restaurante?

Acho fantástico que se possa levar os animais a restaurantes. É uma medida de evolução. Os meus animais vivem no campo à solta, à vontade... São animais muito velhinhos com doenças crónicas e outros problemas. Eu, pessoalmente, não os levarei, mas única e exclusivamente porque as características deles não são essas. Tenho imensas amigas e amigos que levam os animais a esses locais, porque são animais sossegados e habituados a estar em locais fechados.

Os proprietários temem conflitos dentro dos restaurantes.

Os animais não vão, de repente, desatar a saltar para cima das pessoas. Isso não funciona assim. Claro que também depende do bom senso das pessoas. Compreendo que as pessoas fiquem reticentes com tudo o que é novo, mas estamos em 2018 e é mais do que tempo de incluir os animais na nossa vida. Faz parte da liberdade dos proprietários dos restaurantes poderem decidir se querem ou não ter animais no seu espaço. Ninguém os obriga. 

Há cada vez mais pessoas a ter animais em casa?

Há cada vez mais gente a adotar animais, mas nem todas as pessoas têm capacidade de viver com um animal. Nem todas as pessoas sabem ou se preocupam em compreender as necessidades daquele animal. Acham que é dar-lhes comida, água e levá-los à rua uma ou duas vezes por dia. Isso não é respeitar a natureza daquele animal por muito domesticado que ele já esteja. Os animais, em geral, precisam de exercício e de estimulação. Não estamos a falar de robôs.

Não há a tentação, principalmente nas zonas urbanas em que as pessoas se sentem mais sozinhas, de humanizar os animais?

Há pessoas com muitos problemas que fazem isso, mas acho que nós não devemos humanizar os animais. Eles são eles, com as suas características, animais. O que não nos impede de ter relações de amizade profunda e relações fraternais que não têm de ser doentias. Eu sei que os meus animais são cães. Não os trato como meninas ou meninos. Não lhes visto vestidinhos e não lhes pinto as unhas. 

Houve o caso da criança que foi morta por um cão, em janeiro de 2013. Hoje toda a gente sabe que o cão se chama Mandela e ninguém se lembra do nome da criança. Não é um sintoma de que alguma coisa não está bem?

Isso não é verdade. O Mandela vive comigo e é um dos meus protegidos. É um cão que esteve envolvido numa tragédia. Uma juíza decidiu entregar-me a mim este animal por considerar que não iria beneficiar ninguém haver mais uma morte. Houve um incidente devido a várias circunstâncias que se passavam na casa. Eu sei o nome completo desta criança. Nunca falei desta criança publicamente, porque não tenho esse direito. Esta família perdeu tudo. Perdeu uma criança. Foi uma altura muito dura e houve muitas ameaças só porque tentámos que não houvesse uma segunda morte. Foi só isso. Aquilo que aconteceu foi uma tragédia.

Foi-lhe dado algum treino depois de lhe ser entregue?

Claro que sim. Houve um processo de reabilitação durante alguns meses na escola “It’s All About Dog”. Eu ia, nessa altura, visitá-lo com muita frequência. A partir daí continuei a trabalhar com ele. Até hoje.

Não teve nenhum sinal de agressividade?

Não. Absolutamente nada. Ele tem apresentado um comportamento estável. 

Voltou a falar com os familiares?

A família, uma parte da família, nomeadamente os antigos detentores legais do animal, contactaram-me a agradecer. Anos depois. Faz agora em agosto cinco anos que ele está comigo. Eu optei por não dar sequência a esse contacto. Agradeci apenas as palavras. Mas estas pessoas contactaram-me pelo Facebook só para agradecer por termos salvo o cão. Aquilo que aconteceu foi uma tragédia que não devia ter acontecido. 

Não foi essa a única tragédia com crianças e basta andar na rua para perceber que há muitos cães perigosos sem açaime e sem trela.

Temos de ter muitos cuidados. As pessoas têm de ser responsáveis. Por isso é que eu digo que não são todas as pessoas que têm capacidade para viver com animais. Assim como não são todas as pessoas que têm capacidade para ser pais de uma criança. É lamentável, mas é verdade. 

É diferente a relação entre as pessoas e os animais nas zonas rurais e urbanas?

Conheço muitas pessoas de zonas rurais que têm uma relação muito fraternal e muito próxima com os seus animais. Não creio que seja uma questão urbana ou rural. 

Um animal que vive, numa grande cidade, num T1 é feliz?

Depende. Se ele passear várias vezes ao dia... Conheço pessoas que vivem em apartamentos e vão a casa várias vezes ao dia para os passear nos parques e são animais felicíssimos.

É muitas vezes acusada de ser fundamentalista. Sente que é radical nestas questões que envolvem animais? 

Eu até acho que sou muito razoável. Acusam-me de ser fundamentalista e radical... Eu não como animais, mas não imponho essa postura a ninguém. As pessoas não são obrigadas a ser veganas para serem nossas apoiantes, mas naturalmente que a direção não pode defender uma coisa e fazer o contrário. Eu tenho familiares e amigos que comem animais. 

O que aconteceria, por exemplo, ao toiro de lide se as touradas acabassem?

Não existiria se não houvesse tauromaquia. Ou seja, se não houver tauromaquia simplesmente não é criado. Aqueles que estiverem vivos podem ser mantidos em reservas na vidinha deles. Se os querem manter mantenham-nos em reservas, mas não os criem para os estraçalhar.

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