26/9/18
 
 
João Lemos Esteves 12/06/2018
João Lemos Esteves

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Portugal: o país que nasceu da “volúpia das ruturas”

Terá Marcelo assumido uma resistência epidérmica e inexpugnável à mudança? Não: o Presidente apenas terá sinalizado que consente em mudanças cirúrgicas que não consubstanciem mudanças estruturais, ou seja, ruturas

1. O Presidente Marcelo Rebelo de Sousa comunicou aos portugueses – no dia da nossa pátria, da nossa língua e das nossas comunidades – que é preferível a “paciência dos acordos” à “volúpia das ruturas”. Mais uma vez, Marcelo opta por um discurso curtíssimo, repleto de banalidades unânimes – e de mistérios pusilânimes. A vasta comunidade de “glosadores de Marcelo” embrenhou-se logo em mais uma maratona de interpretação das intenções políticas escondidas do Presidente. Para uns, Marcelo manifestou a vontade de manter o atual quadro político na próxima legislatura, até porque, ao invés do que seria expetável, isso poderá ser-lhe benéfico em termos de abrangência dos apoios à sua reeleição em 2021. Para outros, Marcelo, na verdade, pretendeu sinalizar que o futuro de Portugal passa por uma convergência entre PS e PSD para a manutenção das bases fundacionais do regime: o nosso futuro coletivo deverá ser gizado pelo centro-esquerda, com o beneplácito convicto (mais ou menos silente) dos sociais-democratas.

2. Terá Marcelo assumido uma resistência epidérmica e inexpugnável à mudança? Não: o Presidente apenas terá sinalizado que consente em mudanças cirúrgicas que não consubstanciem mudanças estruturais, ou seja, ruturas. Não quer ruturas nem à esquerda nem à direita. Estará (segundo este entendimento) definida a doutrina que animará Marcelo nos próximos meses: a criação de um “bloco central” que fale a uma só voz na Europa e se mantenha unido na definição de políticas públicas duradouras, internamente. Quem terá razão? Desconhecemos: as palavras de Marcelo comportam qualquer interpretação possível e imaginária – já não estamos no domínio da interpretação da arte moderna; antes se trata já de uma corrente artística que se autonomizou designada “arte marcelista”. É de uma verdadeira arte que aqui se trata: do conjunto de regras da sapiência, na justa medida, que permitem proferir palavras fortes com significados dúbios, de forma que os seus destinatários escolham aquela interpretação que mais os favoreça – nestes termos, é impossível não estar em consonância com o Presidente Marcelo.

3. Porque, de entre a multiplicidade de interpretações possíveis das suas palavras, haverá sempre uma que merecerá o nosso acolhimento. Haverá sempre uma que é precisamente aquela que o caríssimo leitor há muito vem defendendo. Haverá sempre uma que é justamente aquela que a caríssima leitora partilhou ontem no seu local de trabalho, discutindo o futuro político de Portugal. Assim se constrói uma popularidade inusitada e uma reeleição ganha à partida: o discurso dúbio e espongiforme de Marcelo é um pressuposto essencial da sua “postura política de promoção do afeto”. Porquê? Porque, ao não assumir posições políticas claras, Marcelo não gera divergências, tão-pouco resistências, em nenhum setor da população portuguesa – deslocando assim o centro de foco político das suas palavras para os seus atos. Para as suas inúmeras deslocações e viagens por esse país (e mundo) fora. A sua permanência na televisão por mais de uma década permitiu a Marcelo Rebelo de Sousa compreender exemplarmente o funcionamento da linguagem mediática dos nossos dias: o que releva é a imagem, a mensagem curta que permita a ocupação do espaço mediático por dias, a conversa ao estilo intimista de um talk show – tudo, portanto, incompatível com a discussão de ideias ou o lançamento de temas estruturantes (porventura politicamente incorretos) para a reflexão da opinião pública.

4. Quem perde com esta nova tendência política? Perde a democracia. Perde a vitalidade do sistema político-partidário, que fica acorrentado a uma ideia de preponderância da aparência sobre a substância. Convém lembrar aqueles que se preocupam muito com as fake news e o efeito perverso das redes sociais que os (verdadeiros!) riscos para a nossa democracia residem aqui: na total ausência de política na… política. Não deixa, aliás, de ser curioso que Marcelo Rebelo de Sousa, discípulo de Marcello Caetano, venha propor exatamente o mesmo que o seu mestre em 1969: uma “evolução na continuidade”. Mudança, sim – desde que provocada por um amplo acordo partidário e que não mude o essencial da política portuguesa. Para reforçar a sua tese, o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa censurou então a “volúpia da rutura”.

5. Ora, volúpia significa luxúria, sedução, atração – o que a priori já é, por si, uma ideia mais voluptuosa do que a paciência dos acordos. Registamos aqui a nossa profunda discordância e desagrado pelo olvido do nosso Presidente da República sobre como se formou a grandiosidade de Portugal. Portugal é produto da volúpia das ruturas, não da “paciência dos acordos” que, na maioria das ocasiões, apenas redundou na “impaciência dos desacordos”.

5.1 De facto, foi a volúpia das ruturas que fez com que D. Afonso Henriques rompesse com sua mãe, D. Teresa, fundando definitivamente a nossa pátria em 1143, com o Tratado de Zamora.

5.2 Foi a volúpia das ruturas que fez com que gerações e gerações de portugueses sempre tivessem lutado pela independência da nossa pátria, apesar de todas as probabilidades adversas e dos vaticínios contrários. Foi a volúpia das ruturas que fez com que reconquistássemos a independência, no séc. xiv, vencendo a Batalha de Aljubarrota e, mais tarde, em 1640, pondo termo ao domínio filipino. Graças a estes portugueses ínclitos e guerreiros, temos hoje a bênção de sermos portugueses (e não sermos espanhóis). Foi a volúpia da rutura – não a paciência infrutífera dos acordos.

5.3 Foi a volúpia da rutura que permitiu a aventureiros portugueses “dar novos mundos ao mundo”, espalhando a portugalidade por esse mundo fora – em virtude do seu glorioso esforço, hoje afirmamos que Portugal é o mundo (pela presença de cidadãos oriundos de sítios tão diversos do globo entre nós) e o mundo é Portugal (face à presença de portugueses nos sítios mais inesperados do globo e da importância vital, com reconhecimento generalizado, das comunidades portuguesas espalhadas pelos cinco continentes).

5.4 Foi a volúpia das ruturas que permitiu aos capitães de Abril pôr termo a um regime autoritário caquético, sem futuro e prisioneiro do passado, devolvendo a liberdade aos portugueses. Por essa rutura tão voluptuosa estaremos eternamente gratos aos jovens militares: porque não há melhor dádiva que a liberdade.

5.5 Foi a volúpia das ruturas que permitiu a Francisco Sá Carneiro, num tempo em que a esquerda reclamava o seu imperialismo ideológico e moral, fundar o partido mais português de Portugal: o PPD/PSD. Foi a volúpia das ruturas que permitiu a Francisco Sá Carneiro lançar as bases de um verdadeiro programa governativo reformista, no início da década de 80, tragicamente interrompido pela sua morte. No entanto, essa matriz de inconformismo crónico com as injustiças e o atavismo das estruturas sociais haveria de permanecer indelével no património político do maior partido português.

6. E será, meu caro Presidente Marcelo, a volúpia das ruturas que fará com que os portugueses construam uma sociedade socialmente mais justa, mais rica, moral e patrimonialmente, nos anos que virão. Será a volúpia das ruturas que fará com que os portugueses criem um modelo de sociedade que garanta a cada indivíduo as oportunidades para se desenvolver, crescer e triunfar na vida. Para que cada um – independentemente da sua origem, religião, sexo ou orientação sexual – possa ser feliz, participando ativamente na pólis.

7. Será a volúpia das ruturas que fará com que a liberdade seja, finalmente, levada a sério em Portugal. Será a volúpia das ruturas que exigirá, no futuro, um Estado que ajude mas não chateie; que regule mas não bloqueie; que seja ativo mas não seja (despropositadamente) ativista.

 

joaolemosesteves@gmail.com

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