15/8/18
 
 
Ana Sá Lopes 17/05/2018
Ana Sá Lopes
Política

ana.lopes@ionline.pt

Bruno de Carvalho, o primeiro dos jagunços

Se o caldo em que o desporto se foi movendo em Portugal abriu caminho à ascensão de Bruno de Carvalho, Bruno de Carvalho abriu caminho aos crimes de Alcochete. Eu não sei se, judicialmente, ele é passível de ser responsabilizado.

Uma das coisas mais penosas no futebol é a total ausência de racionalidade e isso não começou com Bruno de Carvalho.

O futebol é a coisa mais parecida com uma paixão cega e basta assistir, por dez minutos que seja, aos intragáveis programas de comentário desportivo para se entender isto. No passado, o “Domingo Desportivo” era um clássico de referência, um programa onde o jornalismo procurava introduzir alguma racionalidade na paixão. Agora, o jornalismo, ou espécie de, alimenta-se da irracionalidade. Um espetáculo televisivo em que casais desavindos lavassem a roupa suja em público seria mais ou menos igual aos programas que ocupam em permanência os três canais de informação.

Talvez o terreno estivesse há muito a ser preparado para a ascensão de um jagunço chamado Bruno de Carvalho, cujas intervenções públicas têm revelado, ao longo do tempo, total ausência de princípios – a comparação com o tio Pinheiro de Azevedo dá-lhe jeito, mas Pinheiro de Azevedo, honra seja feita à sua memória, nunca atingiu a baixaria do sobrinho.

Se o caldo em que o desporto se foi movendo em Portugal abriu caminho à ascensão de Bruno de Carvalho, Bruno de Carvalho abriu caminho aos crimes de Alcochete. Eu não sei se, judicialmente, ele é passível de ser responsabilizado.

Mas, em termos de prática desportiva, seguramente é corresponsável. 

Agora é o tempo da justiça, mas também o tempo da sociedade e da política. Os criminosos devem ser julgados e punidos, mas toda a sociedade tem de refletir sobre o estado de hooliganismo alargado que permitiu a eleição e reeleição de Bruno de Carvalho, dando força aos criminosos. 

A autoridade para o desporto proposta ontem pelo primeiro-ministro pode ser uma boa ideia, se não se tratar de mais “uma comissão”, aquela coisa que recorrentemente se anuncia cada vez que há um problema. A demissão de Bruno de Carvalho é o primeiro passo para a desintoxicação social. Os sportinguistas, a quem cabe a decisão, vão ter de estar à altura.

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