29/02/2024
 
 

Margarida despetalou-se...

Para guimarães Rosa as pessoas não morriam: encantavam-se. Gosto. Gosto que as pessoas não morram. Gosto que as pessoas não me morram.

Maria Margarida Ribeiro dos Reis foi uma mulher entre homens. Uma mulher que administrava um jornal de homens feito para homens, porque era assim no tempo em que lá cheguei. Aliás, era curioso que “ABola” tivesse duas mulheres na gerência: a filha de Ribeiro dos Reis e a filha de Vicente de Melo.

A gente em geral tratava-a por doutora.

A doutora gostava da Redação, do ritmo da Redação, daquela vida de ir atrás da vida, procurando desvendar o segredo dos homens e da Humanidade.

Tinha nome de flores num jardim que acabaria por se encher de cardos. Fumava uns cigarros fininhos, coloridos, seguros entre os seus dedos compridos, gostava de companhia para almoçar, detestava almoçar sozinha, procurava, aqui e ali, nas salas da Travessa da Queimada, um ou outro daqueles pelo quais sentia maior carinho, e depois descíamos a Rua Diário de Notícias com o cuidado inevitável dos seus saltos altos a caminho do Farta Brutos, do Oliveira, do Ramiro, havia lá uma placazinha de azulejo com o seu nome, tal como havia uma com o nome do Saramago, e ela contava histórias dos primórdios do futebol, das ideias do seu pai, o tenente-coronel Ribeiro dos Reis, da amizade que criara com Stanley Rous, primeiro, e depois com João Havelange, presidentes da FIFA, de como tirara um curso de arbitragem e estivera em 1958, na Suécia, naquele Mundial que viu nascer Pelé e morrer Cândido de Oliveira.

Fumava, fumava muito, fumava sempre muito.

Conversava com o gosto de um golo de whisky, em copo alto, com um bocadinho de gelo, e depois queria ter Paris nos olhos e o assunto passava então a ser Paris, a sua Paris, uma Paris (adivinhava eu, com receio de lho perguntar) cidade-luz-da-sua-solidão.

Fui embora de “A Bola” antes de Margarida Ribeiro dos Reis ter vendido as suas quotas e ter abandonado o jornal que o seu pai fundou. No dia em que decidi que não havia mais lugar para mim nas Cinco Letras Mágicas, como lhe chamou um dia Vítor Santos, tivemos uma conversa longa, longa. Sabíamos que era um adeus. Não um daqueles adeus de até já, volto dentro de momentos, encontramo-nos aí pela rua um desde dias, vamos almoçar a qualquer lado (mais provavelmente ao Farta Brutos, na Travessa da Espera), manter-nos-emos em contacto.

Mantivemos. De forma cada vez mais rara. A última, salvo erro, com o João Bonzinho, lá para a Ericeira para onde se mudara entretanto. Olhando um mar revolto.

Às vezes falávamos ao telefone. Palavras curtas.

Promessas de almoços por cumprir.

A verdade é que havia uma coisa que nos magoava a ambos, igualmente, muito mais a ela como não poderia deixar de ser. Uma mágoa comum de “A Bola” ter deixado de ser “A Bola”. Ser outra coisa, muito distante, cada vez mais distante.

A doutora Maria Margarida Ribeiro dos Reis gostava de pessoas. Com ela, havia coração. Um coração de senhora que adorava chegar cedo ao seu escritório na Travessa da Queimada: foi a única dos administradores a ter um gabinete no mesmo andar do da Redação.

Talvez a distância vá corroendo a ternura como o tempo corrói o ferro.

Pode ser que não: continuo a sentir por ela a ternura de sempre.

Ainda bem, que Guimarães Rosa não deixa que as pessoas morram. Sinal que estará aí, fumando o seu cigarro coquete, parisiense, preso nos dedos magros. O pior que pode acontecer-lhe é, diria Vinicius, despetalar-se...

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