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Ross 128 b. Tem tudo para ser habitável mas é melhor não fazer já as malas

Ross 128 b. Tem tudo para ser habitável mas é melhor não fazer já as malas

Shutterstock Marta F. Reis 16/11/2017 18:18

Cientistas anunciaram ontem a descoberta de um exoplaneta temperado a 11 anos-luz da Terra, que passa a ser um dos melhores candidatos entre os planetas potencialmente habitáveis perto de nós. As expectativas estão altas...para a chegada de novas ferramentas. 

A estrela não se vê a olho nu, mas se quiser espreitar o mundo novo anunciado ontem pela comunidade científica nas vizinhanças do sistema solar é pedir a alguém com um telescópio para olhar na direção da constelação de Virgem e identificar no céu noturno a anã vermelha Ross 128 - o nome é uma homenagem ao astrónomo que a observou pela primeira vez, em 1926, muito antes de os cientistas desenvolverem as ferramentas que hoje lhes permitem calcular a existência de planetas a anos-luz de distância da Terra. 

Depois de encontrar a estrela, será preciso um pequeno exercício de imaginação. Em torno desta anã-vermelha, 20 vezes mais próximo do que a Terra está do Sol, um planeta não muito maior do que nós repetirá a cada 9,86 dias uma volta completa, o que significa que cada ano por ali dura pouco mais do que uma semana terrestre. É esse planeta, batizado de Ross 128 b, que está a entusiasmar os cientistas. É pouco maior do que nós, terá um clima temperado e é a segunda “Terra” mais próxima alguma vez descoberta, já que parece estar à distância certa da estrela para ter água em estado líquido, embora possivelmente no limiar da zona habitável. Tem depois uma vantagem que o torna um candidato de eleição à procura de vida fora do sistema solar: a tal anã-vermelha é uma estrela calma, pelo que não seria uma ameaça constante a quaisquer habitantes que pudessem existir à superfície do planeta.

O planeta foi descoberto através do instrumento HARPS do Observatório Europeu do Sul, que perscruta o universo a partir do Observatório de La Silla, no Chile. A análise de dados conta com colaboração portuguesa do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço (IA), pelo que, mais uma vez, esta descoberta no mundo dos exoplanetas é um bocadinho “nossa”, em particular da equipa do astrofísico Nuno Cardoso Santos. 

Ricardo Cardoso Reis, da equipa de comunicação do instituto, ajuda a perceber o que torna a descoberta especial. É que, embora o planeta Proxima Centauri b, descoberto em 2016, também seja um planeta temperado, parecido com a Terra e bastante mais próximo - está a 4,2 anos-luz e este está a 11 anos-luz -, a sua estrela é bastante mais ativa e a comunidade científica tem dúvidas de que a atmosfera pudesse resistir a isso. “A probabilidade de haver explosões solares e radiação que aniquile tudo o que estiver à superfície é muito superior. Neste, em princípio não acontecerá”, explica o porta-voz.

E, depois, tudo parece encaixar bem para que a vida possa existir por ali, embora, por enquanto, os cientistas não tenham qualquer prova disso. 

É que, apesar de o planeta estar 20 vezes mais próximo da estrela do que a Terra do Sol, a anã-vermelha é 280 vezes menos luminosa do que a nossa estrela, o que faz com que a radiação que chega à superfície seja apenas 1,38 vezes superior à que atinge a superfície terrestre. As temperaturas andarão entre os -60 oC e os 20 oC, o que seria aceitável. E as anãs-vermelhas, estrelas mais pequenas do que o grupo de anãs-amarelas onde se inclui o nosso sol, têm também uma grande longevidade. “Não sabemos quando surgiu esta estrela, mas as anãs-vermelhas que nasceram no início do universo ainda não chegaram a metade da vida”, diz Ricardo Cardoso Reis. O que significa que, a existir vida nestes mundos, pensando no género de vida que conhecemos, teria também muito tempo para evoluir.

Apesar das boas notícias, por enquanto, qualquer viagem até estas paragens está fora de questão. 

Para termos uma noção, o Sol está a 150 milhões de quilómetros da Terra, o que equivale a oito minutos-luz. Onze anos-luz são 104 068 035 198 388 quilómetros. Para chegar a Plutão, uma viagem de 4,8 mil milhões de quilómetros, a sonda New Horizons demorou mais de nove anos. “Mesmo para a Proxima Centauri b, com a tecnologia atual, demorávamos qualquer coisa como 50 mil anos. Há algumas tecnologias a ser desenvolvidas que podiam encurtar a viagem, como a vela solar ou a propulsão iónica, mas mesmo assim seria muito tempo para já”, explica Ricardo Cardoso Reis.

A viragem das novas ferramentas 

Por agora sem hipóteses de ver ao vivo e a cores o que se passa neste planeta e nas outras potenciais “Terras” que têm sido descobertas pelos astrónomos - dos mais de 3500 exoplanetas identificados, estima-se que 50 sejam habitáveis e 20 tenham características semelhantes às do Planeta Azul -, a aposta dos cientistas está em novos equipamentos que vão permitir caracterizar melhor estes mundos longínquos e detetar pistas de vida.

Já no final deste mês entra em funcionamento o espetrógrafo Espresso no observatório astronómico VLT, também no Chile, equipamento que foi de-senvolvido igualmente com a colaboração dos investigadores do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço - que junta cientistas da Universidade do Porto e Universidade de Lisboa - e da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e que permitirá detetar os planetas e classificá-los com maior precisão.

Já o maior telescópio da próxima geração do Observatório Europeu do Sul, o ELT, deverá estar operacional em 2024, depois de a primeira pedra ter sido lançada este ano. Com este tipo de ferramentas será possível, por exemplo, detetar oxigénio ou ozono nas atmosferas dos exoplanetas mais próximos de nós, o que é o caso deste Ross 128 b. 

Primeira prova tem 100 anos 

Nos últimos anos, a investigação do Observatório Europeu do Sul e missões como a Kepler da NASA têm permitido detetar cada vez mais planetas fora do sistema solar e estima-se que só na nossa galáxia possam existir 2 mil milhões de planetas capazes de albergar vida, dos quais mil milhões de “Terras”, isto num total de 100 mil milhões de planetas. Este ano, a NASA revelou que a primeira prova da existência de um planeta fora do sistema solar terá 100 anos, embora na altura não se tenha dado por isso. 

Trata-se de imagens de uma estrela captadas no observatório astronómico de Monte Wilson, na Califórnia, que só foram redescobertas em 2014. Nesse ano, um professor emérito de Astronomia da Universidade da Califórnia, Ben Zuckerman, estava a preparar uma palestra sobre planetas rochosos fora do sistema solar e o anfitrião sugeriu--lhe que falasse da poluição em torno das anãs-brancas, termo usado pelos astrónomos para descrever os elementos pesados que invadem as atmosferas destas estrelas, explicou a NASA no início deste mês. 

O fenómeno foi identificado pelo astrónomo Adriaan van Maanen em 1917, no observatório de Mone Wilson, o que fez até com que a exemplar em causa fosse batizada de estrela de Maanen. Foi ao revisitar esta descoberta que Ben Zuckerman juntou as duas coisas: nos últimos anos percebeu-se que os exoplanetas tendem a atrair outros objetos celestes na direção da estrela, que acabam pulverizados pela força gravitacional e causam a tal poluição, elemento que há 100 anos passou ao lado do astrónomo. Jay Farihi, o investigador que tinha desafiado Zuckerman a explorar este tópico, decidiu ir à procura das provas aos observatórios Carnegie, que hoje tutelam os telescópios de Monte Wilson. “Não posso dizer que fiquei chocado, mas honestamente fiquei agradavelmente surpreendimento porque a assinatura (do planeta) estava lá e podia ser vista a olho nu”, disse. Esse registo do espetro da estrela de Maanen, datado de 24 de outubro de 1917, tem agora uma etiqueta a dizer “possivelmente, o primeiro registo de um exoplaneta”.

A 14 anos-luz da Terra, este fica como curiosidade histórica, até porque não se sabe se seria um planeta ou vestígios de um.

Para saber mais sobre planetas, os que importa seguir e como são detetados - o Ross 128 b foi-o através da técnica de velocidade radial, que infere a existência de um objeto a partir das variações na distância da estrela à Terra causadas pela órbita do planeta -, o Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço organiza no dia 25 de novembro, um sábado, uma sessão noturna com o tema “planetas à luz das estrelas”. A atividade começa pelas 21h e requer inscrição no site do IA.

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