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António Galamba 31/08/2017
António Galamba

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É preciso muita pachorra

Apesar do PS estar na oposição, recordo-me de duas reuniões em 2012 e 2014, em que António José Seguro defendeu junto do líder do SPD e vice-chanceler alemão, Sigmar Gabriel, a atribuição a Portugal deste novo projeto da Volkswagen, que agora alguns querem colocar em causa

O dito povo dos bons costumes tende a ter maior tolerância com as circunstâncias quando ainda é fresca a memória da austeridade hardcore e a austeridade light lhe permite ter mais algum dinheiro no bolso para as necessidades e as superficialidades.

O conforto do poder, dos interesses partidários e das lógicas de clientela política podem gerar margem de manobra para os facilitismos que a verve ou a ação permitem, sobretudo quando a oposição está no limiar da inexistência ou da inconsequência.

A conjugação destas realidades com a fragilização dos meios de comunicação tradicionais, também sujeitos a influências e ao mercado, com o reforço das potencialidades das redes sociais, em especial para ampliar comunicações, fermentam um caldo de cultura de irresponsabilidade, de tribalismo e de inconsistência lesivas da verdade, do rigor e da esmagadora maioria dos direitos de personalidade.

A verdade é que na última década se consolidaram na sociedade portuguesa turbas de ativistas digitais, mais ou menos dinamizados em função de determinados objetivos, que se entretêm a recuperar notícias antigas como se fossem de hoje, a construir narrativas com base em mentiras ou meias verdades, a simplesmente reproduzir acefalamente argumentos soprados por alguém ou a destilar comentários como se a liberdade de expressão fosse o mesmo que o insulto, o destilar de ódios ou a intolerância perante a diferença.

O triste caso dos cadernos de exercícios da Porto Editora é o reflexo dessas leviandades, superficialidades e de um frenesim histérico em que estamos integrados, sendo de gargalhada que tenha sido um humorista a reconduzir os factos à sua significância. Grave é que não se atalhem outras realidades lesivas da dignidade humana, da igualdade de género e das injustiças que persistem. Grave é que, 43 anos depois de 25 de Abril, com a Esquerda no poder, em registo bafiento, o governo intervenha em tons de azul para recomendar a retirada de publicações. Grave é que nesta como noutras matérias, as designadas referências morais da Liberdade, dos Serviços Públicos e de outras expressões comunitárias se remetam a um ensurdecedor silêncio perante os sinais de outros tempos e as falhas do tempo presente, por exemplo, no Serviço Nacional de Saúde e noutras funções do Estado.

De forma epidémica generaliza-se uma leviana irresponsabilidade com a qual pretendiam que fossemos solidários, por militância. Uma irresponsabilidade que convive bem com um ministro das Finanças que aumenta em 10% as senhas de presença nas reuniões da Comissão de Remunerações da Caixa Geral de Depósitos (máximo de 10 por ano a 5500 euros cada) enquanto são inflacionadas as comissões bancárias dos depositantes. Uma leviandade que assiste impávida a uma luta entre PCP e BE sobre o domínio sindical da Autoeuropa, depois de todo o trabalho que deu para que Portugal conquistasse a produção de um novo veículo, numa empresa que é um dos pilares das nossas exportações. Apesar do PS estar na oposição, recordo-me de duas reuniões em 2012 e 2014, em que António José Seguro defendeu junto do líder do SPD e vice-chanceler alemão, Sigmar Gabriel, a atribuição a Portugal deste novo projeto da Volkswagen, que agora alguns querem colocar em causa. Uma falta de consistência que considera normal que se confunda que o alívio fiscal no IRS previsto para o próximo ano beneficiará 3,6 milhões de agregados familiares quando vai beneficiar 1,6 milhões ou que, a propósito de alegadas dificuldades no fornecimento de alimentação aos bombeiros, um secretário de Estado possa afirmar “Comi belíssimas refeições no teatro de operações”.

Está quase tudo com demasiadas ânsias. Uns para reivindicar do bolo orçamental mais pelo apoio político dado à solução governativa, outros para mostrar trabalho que assegure prestígio ou sobrevivência e alguns para alimentar as narrativas de conveniência. No meio de tanta euforia e brandir de resultados, até já a crise política foi colocada como estigma para alguns comportamentos e reivindicações mais exigentes. O tal juizinho da entrevista ao “Expresso”.

Num tempo de regresso das rotinas, entre as negociações orçamentais e as agitações eleitorais autárquicas, persistem os sinais de inconsistência, de falta de sustentabilidade das opções políticas e de volatilização do que é dito e feito. Razões mais do que suficientes para não exercitar nenhuma solidariedade canina e ter muita pachorra. As convicções e os valores não devem ser permeáveis às razões das circunstâncias e muito menos aos cantos, mesmo quando são de sereias.

NOTAS FINAIS

TRANSPARÊNCIA TOTAL SIM. Quando ainda se aguarda a divulgação da lista dos jornalistas e dos políticos avençados pelo GES, está em curso a caça às viagens pagas aos políticos e aos dirigentes dos serviços públicos. Mandará o rigor que o esforço de transparência e escrutínio seja extensível aos jornalistas que aos longo destes anos viajaram a expensas de empresas e depois publicaram peças jornalísticas. Isso é que era transparência a sério.

TRANSPARÊNCIA ENSANGUENTADA. O Xico Marques é um pilha-galinhas. Agita semanalmente o pretenso produto do furto, promete sangue e apesar de castigado continua impunemente a perorar na linha dedicada. Com a promessa vampírica de “ à noite vai haver sangue”, o espécime arrisca-se a ser apelidado de “Cabidelas”. Não fora o prestígio gastronómico do arroz de pica no chão, coitado do bicho, e estava encontrado o rótulo para tão ridículo personagem. Investigue-se, que a sul também há capoeira. Sem pinto, mas com pio.

 

Escreve à quinta-feira

 

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