19/10/17
 
 
Eduardo Oliveira e Silva 02/08/2017
Eduardo Oliveira E Silva

opiniao@newsplex.pt

A teia

Aos poucos, todos os cargos públicos ou privados que dependem da política estão a mudar de titulares, notando-se a indicação de uma vaga de diplomatas para funções estratégicas

1. De forma paulatina mas imparável, o PS e os partidos da coligação informal que constituem a geringonça tomam conta dos lugares públicos e privados que, direta ou indiretamente, são condicionados politicamente.

A lista é enorme e não é por aqui e ali aparecer um cidadão mais alaranjado que a substância da situação se altera. Há sempre uns casos escolhidos para serem usados como exemplo por quem detém o poder. Estão lá para enfeitar. São uma espécie de pena de um chapéu. É de facto difícil, por exemplo, sustentar tecnicamente a nomeação de Miguel Frasquilho para a TAP.

Com o governo PSD/CDS, a situação era semelhante mas menos grave, e diferente por várias razões. Desde logo, porque a comunicação social não estava tão adormecida (mesmo assim está, por enquanto, mais desperta do que no tempo de Sócrates) e escrutinava com alarde sistemático todas as nomeações. Por outro lado, sempre funcionavam a CReSAP e alguns reguladores que, apesar de validarem escolhas um tanto esdrúxulas, sempre iam servindo minimamente de crivo ou de barreira para que, à partida, se não propusessem certos nomes escandalosos. Finalmente, havia a circunstância de PSD e CDS fazerem pactos sistemáticos com certos elementos do PS aos quais os ligavam interesses políticos, pessoais, profissionais ou de confraria que impunham determinadas escolhas que, por sinal, até irritavam bastante os militantes dos partidos da coligação da época, desconhecedores dos meandros. No fundo, era a aliança do que se chamou o arco da governação e que levou, por exemplo, a que pessoas como Faria de Oliveira no PSD ou Guilherme d’Oliveira Martins no PS fossem sistematicamente escolhidos para tudo e mais alguma coisa, no privado ou no público.

Uma das novidades da ordem atual resulta de os escolhidos serem, às vezes, surpresas absolutas, havendo dificuldade em perceber imediatamente de onde aparecem, até por não terem ligações históricas, nomeadamente, ao PS. Hoje contam também as afinidades com uma esquerda mais radical ou as relações familiares e pessoais com dirigentes de topo. Há, entretanto, movimentos que traduzem outras tendências de poder. Sucedem-se, designadamente, escolhas de gente oriunda da diplomacia para lugares políticos, coisa que já vinha acontecendo de forma mais moderada no tempo de Passos e Portas. A escolha de diplomatas para lugares políticos é de evitar. Se são bons técnicos, ficam marcados para a vida. Aliás, os verdadeiros servidores do Estado (casos dos militares, magistrados e polícias) só por exceção deveriam exercer cargos políticos acima de diretor-geral, até para os preservar e defender, permitindo que continuem sempre a ser mais-valias para o país. A influência da diplomacia na política é hoje um facto incontroverso. Seria interessante, aliás, averiguar até que ponto esse poder foi determinante na liquidação da ex-secretária de Estado dos Assuntos Europeus, Margarida Marques, grande amiga de António Costa, inopinadamente substituída por uma diplomata que estava nos confins do mundo. As razões deverão procurar-se nos meandros de uma congregação de 900 elementos que atuam em sintonia e habilmente, embora às vezes ao jeito do Sir Humphrey de “Yes Minister”. Veja-se que faria muito mais sentido a Representação Permanente em Bruxelas, REPER, ser assegurada por um político e não apenas por um diplomata, dada precisamente a relevância que assumem as relações com a União Europeia a todos os níveis do nosso quotidiano económico, político e social. A ideia, porém, nunca se concretizará. Da mesma forma que não se concretizou a criação de um ministério dos Assuntos Europeus a par de um dos Negócios Estrangeiros. No entanto, a sua existência esteve prevista no projeto de governo do PS. António Costa acabou por recuar e deixar a ideia no papel, regredindo ainda mais agora, com a saída de Margarida Marques para – enfatize-se – dar lugar a alguém vindo da diplomacia.

Voltando às nomeações de um ponto de vista mais genérico, interessa alertar para a circunstância de, quando acabar esta legislatura, já todo o stock de funções de nomeação política estar esgotado, consolidando-se uma máquina que, ao nível nacional e regional, tem lugares estratégicos na Segurança Social, IEFP, Educação, Saúde, Administração Interna, Proteção Civil, mais umas quantas autoridades e mesmo no bastião dos reguladores supostamente independentes. Os escolhidos irão constituir um exército essencial para a manutenção do atual poder e, futuramente, uma força de oposição, se houver mudança de ciclo político. Isto para não falar do poder autárquico, onde tudo também muda sistematicamente ao sabor das alianças e constantes reviravoltas que ocorrem regularmente nos nossos mais de 300 municípios e 3 mil freguesias, mesmo sem que haja eleições, quanto mais depois delas.

2. Há mais incêndios e são mais devastadores. Mas há mais dinheiro para a prevenção e para o combate, mais meios terrestres e aéreos, mais equipamentos específicos, melhores condições de ataque, mais vigilância por satélite e eletrónica, mais formação, mais ciência, mais apoio meteorológico e muito mais ajuda internacional. Com tudo isto, só falta dizer que há, portanto, mais interesses económicos envolvidos. Como diz o outro, investigue-se…

 

Jornalista

 

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