20/9/17
 
 
Arlindo Oliveira 11/07/2017
Arlindo Oliveira
Cronista

opiniao@newsplex.pt

O emprego na sociedade do futuro

O desenvolvimento dos computadores e das tecnologias digitais veio também alterar profundamenteo nosso estilo de vida, mas não tem, até agora, resultado num grande aumento de produtividade

A Revolução Industrial, que ocorreu nos séculos xviii e xix, resultou da adoção de tecnologias que mudaram profundamente a estrutura produtiva da sociedade. Como resultado, a produtividade global da economia teve um crescimento grande e sustentado que veio a conduzir aos níveis de vida a que estamos hoje habituados nas sociedades ocidentais. Muitos historiadores consideram que os anos em que decorreu a Revolução Industrial corresponderam ao período da história da humanidade que mais alterações trouxe ao estilo de vida das populações.

Os dados históricos de produtividade económica suportam esta teoria e demonstram que, de facto, a Revolução Industrial potenciou um ritmo de crescimento económico que não tem paralelo com o observado nas últimas décadas, apesar da introdução sistemática e permanente de novas tecnologias de informação e comunicação. O desenvolvimento dos computadores e das tecnologias digitais veio também alterar profundamente o nosso estilo de vida, mas não tem, até agora, resultado num grande aumento de produtividade. Em parte, isto poderá ser explicado pelo facto de as sociedades precisarem de muito tempo para se adaptarem a novas tecnologias, não tendo ainda havido tempo para aprendermos a usar eficazmente as tecnologias digitais.

A promessa de uma revolução potenciada pelas tecnologias digitais traz consigo um significativo conjunto de desafios. A confluência da inteligência artificial, da robótica, da análise de dados em grande escala e das tecnologias digitais tem, de facto, o potencial para criar uma nova era de crescimento económico que rivalize com o que foi observado durante a Revolução Industrial. Estas tecnologias poderão substituir, com menos custos e maior eficiência, seres humanos em muitas funções. Operadores fabris, condutores de veículos, profissionais de atendimento ao público, professores, advogados, gestores e jornalistas são apenas algumas das profissões que poderão ser colocadas em causa pelo desenvolvimento das tecnologias de robótica e inteligência artificial. Essa substituição, caso venha a acontecer, será gradual, mas forçará a sociedade a repensar a sua organização.

É certo que poderá acontecer aquilo em que muitos economistas acreditam: que a evolução tecnológica fará desaparecer algumas profissões mas fará aparecer outras, mais bem remuneradas, mais criativas e menos repetitivas. Isso foi, de facto, o que aconteceu com a Revolução Industrial. Não existe, porém, nenhuma lei da economia que garanta que isso venha a acontecer com futuras alterações tecnológicas. Os registos históricos não são necessariamente um bom guia para os eventos futuros, especialmente numa economia cada vez mais dependente do conhecimento e numa situação em que os computadores terão competências semelhantes às dos seres humanos para analisar, processar e gerar informação.

Pessoalmente, parece-me muito provável que uma fração significativa da população não tenha, no futuro, empregos satisfatórios e bem pagos, muitos dos quais poderão ser executados por robôs ou agentes inteligentes. Se isso vier a acontecer, toda a estrutura da sociedade terá de ser revista. Não será socialmente sustentável uma situação em que a taxa de desemprego da população ativa seja de 50% ou 70%, uma vez que o trabalho é não só uma fonte de rendimento, mas também um fonte de estrutura para as famílias e as comunidades. A criação de um rendimento universal, pago a cada cidadão independentemente da sua atividade profissional, é um mecanismo que tem sido muito discutido, de forma geralmente apaixonada e nem sempre construtiva. Mas essa é só uma das vias possíveis para garantir que os resultados do crescimento económico potenciados pela tecnologia serão adequadamente redistribuídos por todos, permitindo que cada ser humano continue a ser um membro válido da sociedade do futuro. Uma coisa continuará, agora e sempre, a ser verdade: só a aposta na formação e na educação permitirá que cada cidadão contribua, tão eficazmente quanto possível, para a economia do conhecimento e para a sociedade do futuro.

 

Professor do Departamento de Engenharia Informática do IST

Presidente do Instituto Superior Técnico

 

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