18/11/19
 
 
Ana Carvalho 22/06/2017
Ana B. Carvalho
Sociedade

ana.carvalho@ionline.pt

Voltei ao inferno

Cresci a ouvir que, no final da vida, caso nos tivéssemos portado bem ou mal, uma de duas portas poderiam ser abertas. Para ser sincera, a ideia de me ver a abrir uma porta para o céu quase sempre me fez rir, mesmo quando cheguei a seguir alguns passos de uma das religiões que o defende. Não me fazia rir o idílico conceito de paraíso, mas sim os requisitos que nos exigiam para lá chegarmos. Se esses lugares existiam realmente, eu habituei-me a vê-los em pequenos tropeções que ia dando pela vida. Não me é difícil ver o céu numa planta que nasce no meio de um terreno morto, num abraço, ou até no bolo de chocolate da minha mãe. Já o inferno, esse pareceu-me, durante muitos anos, um universo distante. 

Um dia, o meu avô, ao ver as terras que cultivou a vida toda serem cercadas pelas habituais chamas de verão, dizia-me: “O inferno é cá na terra, minha filha, está mesmo aqui.” E, como sempre me habituou, tinha razão.

No último domingo vim, pela primeira vez, àquele que é o cenário mais dilacerante da vida dos portugueses. Quando cá cheguei, senti o sangue congelar. Nada nem ninguém me tinha preparado para ver e sentir o que Pedrógão Grande tinha para me mostrar. São muitos os que insistem, na nossa formação de jornalistas, que sejamos distantes e não mostremos emoções perante situações noticiosas, perante relatos de entrevistados ou histórias que testemunhamos. Mas todas as normas e ditados são nulos quando nos deparamos com o inferno dos outros.

Senti o luto e o pesar dos que me contavam num pranto o que perderam, aquilo a que assistiram e os que nunca mais iam ver por perto. Entretanto tive de me ausentar e, ao saber que havia de cá voltar, arrepiei-me. O dia tinha sido de horrores, mesmo dentro da redação, sempre sem saber ao certo quanto e o que ardia, o que se havia ou não prostrado perante a força da natureza .

No entanto, tudo indicava que o pior já havia passado. Fiz a viagem, ontem de manhã, bombardeada pelo positivismo de autoridades que nos diziam que estava tudo a correr pelo melhor. 

Quando cheguei a Góis, havia verde. Não se via fumo. Senti um certo alívio, o cenário de Pedrógão era de morte e de luto, mas Góis deu-me um certo alento, dentro do possível. 

À chegada, confirmaram-me as boas notícias e, portanto, seguia-se um trabalho de exploração das aldeias evacuadas. E assim me fiz, juntamente com três colegas, à estrada para saber o que tinha sobrado do caos que Góis tinha vivido no dia anterior. 

Visitámos os heróis de Cadafaz, os seis homens que recusaram sair da sua aldeia para combater as chamas que ameaçavam as paredes que guardavam anos de memórias. E, inspirados pela coragem e força de homens que não se vergam perante o medo, seguimos até Candosa. 

Havia poucas casas, os terrenos ainda fumegavam. Havia homens deitados no chão, outros de mãos na cabeça, uma rapariga à janela, ao lado do pai. 

Lutaram durante 24 horas sozinhos, sem respostas aos pedidos de socorro. Os idosos foram evacuados por Isabel, filha de um dos 11 habitantes da aldeia, que os levou para sua casa. 

E contaram-nos, furiosos, a frustração de quem realmente sabe a que sabe a solidão.

Às cinco da tarde, o fogo voltou para assombrar Candosa, ficámos rodeados de chamas, a vê-las chegar cada vez mais perto. De mãos na cinta e olhar incrédulo, ouvi atrás de mim: “Nascemos todos iguais, mas a nós abandonaram-nos. Nascemos todos iguais, mas a nós deram-nos o inferno.”

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