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António Ribeiro Ferreira 15/05/2017
António Ribeiro Ferreira
Opiniao

antonio.ferreira@newsplex.pt

Macron, Trump e a tradição

O presidente francês está hoje em Berlim a receber a bênção de Merkel. É tradicional. Trump, contra a tradição, despediu o diretor do FBI. Mais um golpe no sistema que afundou a América

Marine Le Pen disse aos franceses no debate com Macron: “Dia 7 a França vai ter uma mulher como presidente. Eu ou a senhora Merkel”. Tinha toda a razão. Hoje, o novo presidente francês voou bem cedo para Berlim para receber a bênção da chanceler alemã. É a tradição. Um gesto que pode sair bem caro ao produto Hollande nas eleições legislativas de junho.

Basta olhar para os resultados de 7 de maio e perceber que muitos milhões de franceses estão contra a União Europeia e uma larga percentagem só votou em Macron para derrotar Marine Le Pen. De acordo com um inquérito do Ipsos junto de 4838 eleitores, 43% dos apoiantes de Macron votaram no ex-ministro da Economia para derrotar a candidata da Frente Nacional. Só 57% acreditam nas propostas do novo presidente.

Por outro lado, a senhora Merkel, que ficou muito feliz e aliviada com a vitória de Macron, prometeu ajudar a França a baixar o desemprego, uma chaga dos governos socialistas de Hollande. A chanceler não explicou como isso se faz, mas talvez esteja agora disposta a gastar uma parte dos excedentes comerciais para comprar produtos franceses em massa ou, em alternativa, oferecer emprego na Alemanha a milhares e milhares de desempregados franceses. Como se vê, o susto Marine tornou a Alemanha muito solidária com Paris e com Macron. Talvez esta súbita solidariedade tenha mais a ver com o medo de verem Marine Le Pen cavalgar a onda do descontentamento nos próximos cinco anos e chegar imparável às presidenciais de 2022, com a Europa parada, incapaz de fazer seja o que for para travar a sua decadência e o desprezo crescente dos cidadãos dos 27 países da União Europeia.

Para mais, à frente da Comissão Europeia está um homem chamado Juncker que, além de aliviado, atirou logo umas bujardas para francês ouvir: “Com França temos um problema particular: os franceses gastam demasiado dinheiro e gastam demasiado nas coisas erradas. Isto não vai funcionar a longo prazo. A França precisa de realizar reformas económicas — como já propôs Macron -, mas no seu próprio tempo, sem pressões externas. O país também precisa de flexibilidade em termos do défice, enquanto aplica as reformas. A consolidação fiscal é a tarefa de uma geração, não se deve falar apenas de défice, mas também de crescimento”.

É a tática do pau e da cenoura que tem dado tão bons resultados na União Europeia e na zona euro. Com gente desta aos comandos, os partidos e movimentos que defendem o fim da União Europeia, legitimamente e de forma democrática, como é óbvio, só precisam de esperar sentados para chegarem ao poder. Mas se na Europa e na França em particular a tradição continua a ser o que era, nos EUA Trump continua a mostrar que não foi eleito para deixar tudo como dantes no quartel em Washington. É bom lembrar o que disse na posse a 20 de janeiro: “A cerimónia de hoje tem um significado muito especial porque hoje não estamos apenas a transmitir o poder de uma administração a outra ou de um partido ao outro, mas estamos a transferir o poder de Washington, D.C para vocês, o povo. Por muito tempo, um pequeno grupo na capital de nossa nação recebeu as recompensas do governo enquanto o povo assumiu o custo. Washington floresceu, mas o povo não partilhou a sua riqueza. Políticos prosperaram mas os empregos foram embora e as fábricas fecharam”.

Trump, ao contrário de Macron, mandou a tradição para as urtigas e demitiu a semana passada o diretor do FBI que andava embrulhado nas conspirações democratas contra a Casa Branca. Um “ponho-te” na rua que vai pôr o sistema em sentido. Um despedimento histórico de um presidente que não se chama Kennedy e que não é passível de ser chantageado por um senhor Comey que sonhava ser o próximo Edgar Hoover.

E bem pode a imprensa do sistema, os lacaios do costume berrarem desesperados. Ficam a falar sozinhos como aconteceu no ridículo jantar tradicional dos jornalistas credenciados na Casa Branca, que Trump, ausente, descreveu de forma magnífica: “Há um grande grupo de atores de Hollywood e media de Washington a consolarem-se uns aos outros num salão de bailes num hotel na nossa capital neste momento. Muito aborrecido”.

 

Jornalista

 

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