22/3/17
 
 
Luís Menezes Leitão 14/02/2017
Luís Menezes Leitão

opiniao@newsplex.pt

O árbitro-jogador

Marcelo tem sido o árbitro que, em lugar de apitar o jogo, prefere jogar à bola. Na verdade, Marcelo não resiste a chutar uma bola que apareça na sua direção e tem-no feito quase sempre em claro auxílio a este governo

Na altura das últimas eleições presidenciais, um jornalista perguntou a António Guterres por que razão tinha preferido apostar numa candidatura a secretário-geral da ONU, que teria muitas dificuldades em vencer, em lugar de optar por uma candidatura a Presidente da República, que facilmente ganharia. António Guterres disse simplesmente: “O presidente é um árbitro e eu gosto é de jogar à bola.” Guterres achava que devia optar por um cargo executivo, que considerava ser a sua vocação, não tendo por isso interesse em concorrer a um cargo de mera representação, para o qual não se sentia vocacionado.

O não avanço de Guterres permitiu uma fácil eleição a Marcelo Rebelo de Sousa, coroando assim um percurso político que há longos anos tinha vindo a preparar como comentador televisivo. Mas, da mesma forma que na televisão os seus comentários nunca se pautaram pela neutralidade, tendo causado sempre profunda irritação aos políticos na altura em funções, na presidência Marcelo tem sido o árbitro que, em lugar de apitar o jogo, prefere jogar à bola. Na verdade, Marcelo não resiste a chutar uma bola que apareça na sua direção e tem-no feito quase sempre em claro auxílio a este governo.

É assim que, na altura em que o apoio parlamentar ao governo soçobrou, como demonstrou o caso da TSU, Marcelo dá uma entrevista ao “El País” a dizer que a coligação das esquerdas superou as expectativas. É assim que, numa altura em que o ministro das Finanças é acusado de mentir ao parlamento sobre as condições que acordou com António Domingues na CGD, Marcelo vem em seu socorro, exigindo papéis escritos assinados pelo ministro. É assim que, na altura em que uma emissão de dívida demonstra que Portugal está a pagar juros cada vez mais caros, Marcelo diz que essa emissão de dívida correu bem. É assim que, quando o atual governo consegue uma pequena redução do défice, depois da gigantesca que tinha feito o governo anterior, Marcelo aparece a dizer que a redução do défice é obra deste governo.

Marcelo acha que com este apoio ao governo vai ter toda a esquerda ao seu lado na reeleição e que o centro-direita não terá outra opção senão votar nele. Mas, da mesma forma que Sá Carneiro, que tinha sido o primeiro a declarar o apoio a Eanes na primeira eleição presidencial, lhe retirou esse apoio quando percebeu os seus verdadeiros objetivos, é altura de o PSD começar a encarar Marcelo como o seu adversário principal. Porque árbitro, manifestamente, ele não é.

Professor da Faculdade de Direito de Lisboa

Escreve à terça-feira

 

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