Há 30 anos as crianças portuguesas começavam a ir para a escola sozinhas com oito ou nove anos. Agora, só aos 12 é que os pais lhes dão carta branca, mas a maioria vai mesmo de carro, embora vivam quase sempre a menos de meia hora da escola. Poucos são os que saem de casa à noite e, ao fim-de-semana, dominam as idas às compras e as visitas a familiares mais do que as idas ao parque com adultos ou amigos da mesma idade.
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Podia ser apenas um sinal dos tempos, mas um estudo coordenado pelo think tank Policy Studies Institute (PSI) concluiu recentemente que as crianças portuguesas são das que têm menos liberdade no dia-a-dia. Em 16 países analisados, Portugal surge em 14.o lugar a par da Itália e só atrás da África do Sul. Quem trabalha com crianças não estranha, mas não hesita em apontar consequências que os pais devem ter em conta na hora de tentar controlar tudo: crianças pouco autónomas são menos despachadas, mais inseguras, menos tolerantes e até podem chegar a adultos com défices ao nível motor e emocional.
A análise do PSI, que em Portugal contou com a colaboração de uma equipa de investigadores da Faculdade de Motricidade Humana, foi divulgada este Verão. Em altura de regresso às aulas, um dos autores do trabalho, Carlos Neto, defende ao i que os resultados devem dar que pensar e apela a uma mudança por parte dos pais portugueses. Segundo o especialista, há receios exagerados que depois passam inseguranças aos filhos e os acompanham pela idade adulta, ainda que o efeito se note logo em pequenos.
“As crianças que não são confrontadas com o risco são as que estão mais propensas a ele”, diz o investigador numa entrevista que pode ler nas páginas que se seguem.
O investigador tem uma expressão para a sociedade de medo em que pais e crianças passaram a mover-se: o terrorismo do não. E avisa que as consequências a longo prazo podem ser significativas, já que crianças que não arriscaram e nunca lidaram com desafios na idade certa terão mais dificuldades em ser adultos empreendedores no futuro.
O tesouro dos pais Rita Jonet, psicóloga educacional no externato “O Nosso Jardim”, em Lisboa, admite que não estava à espera de uma posição tão na cauda na comparação internacional sobre autonomia das crianças, mas diz que os sinais são visíveis há muito.“Os pais estão cada vez mais protectores em relação às crianças”, diz a especialista.
Quanto às raízes deste problema, a psicóloga admite que estarão mesmo na crise de natalidade que o país vai atravessando. “Os pais focam-se no único filho que têm, é o tesouro deles e não arriscam.” E isso leva a outro problema que poderá explicar por que motivo as crianças em Portugal têm pouca liberdade nas idades mais novas: “O filho deles é a coisa mais preciosa mas não se importam muito com as outras crianças. Existe uma baixa cultura de considerar as crianças como pessoas como acontece nos países mais desenvolvidos, nomeadamente nos países nórdicos”, diz Jonet.
É precisamente a Finlândia que lidera o ranking dos países em que as crianças têm maior autonomia em termos de mobilidade, seguida da Alemanha. E curiosamente é nestes dois países que os pais concordam menos com a ideia de que outros jovens e adultos nas redondezas são motivos para recear que as crianças brinquem na rua sozinhas. Em Portugal, quase 50% dos pais inquiridos tem esta preocupação e nesses países só dois em cada dez a expressaram no estudo do Policy Studies Institute.
Mas além da ausência de um sentido de comunidade, o próprio meio urbano pode fazer parte da equação. Carlos Neto diz que as cidades são pouco amigas das crianças, com poucos espaços de lazer. O pediatra Mário Cordeiro tem a mesma opinião. E acredita que mais do que a probabilidade rara de as crianças serem atraídas por predadores, que leva a algum excesso de zelo por parte dos pais, há efectivamente problemas no espaço urbano: “Os prédios não têm espaços livres comuns (pátios, jardins, logradouros) e a rua pode ser perigosa por causa do trânsito”, diz. Para o especialista, isto e o conforto do “não” são razões evidentes para aquilo que chama sedentarismo claustrofóbico. “Estar em casa, sobretudo com uma consola ou um computador nas mãos, é meio caminho andado para não darem maçadas e estarem tranquilos e sossegados, sem fazerem birras nem precisarem de investimento dos pais”, diz.
Vencer o medo Segundo o estudo do Policy Studies Institute, o maior receio por parte dos pais é que os filhos sejam atropelados. Já as crianças têm receio do que lhes poderão fazer os “estranhos” mas também de se perderem ou serem vítimas de bullying.
Mário Cordeiro defende que os medos devem ser contrariados, mas não há receitas fáceis. A autonomia e liberdade dependerá da criança, temperamento, maturidade e grau de responsabilização. Aos poucos, e conhecendo os filhos, os pais poderão ir introduzindo as várias experiências de autonomia, recomenda. “Seja o caminho de e para a escola, ir comprar coisas ao lado de casa, brincar com amigos que morem ao pé”, exemplifica.
Para Carlos Neto, tornar as escolas, nomeadamente os recreios, um espaço de maior experimentação é outra frente de ataque. Para o especialista, uma escola que reconhecesse mais a necessidade do risco para se aprender e crescer teria melhores resultados de que uma cultura de hipervigilância que se tende a instituir para dar resposta às inquietudes dos pais e evitar chatices nos recreios.
Rita Jonet sente esse braço de ferro entre o que lhe sugere a pedagogia e os receios dos pais, mas acredita que há forma de dar a volta mostrando bons resultados às famílias. No externato onde trabalha, começaram há uns anos a fazer uma experiência com os alunos da terceira classe, portanto aos oito anos. Têm uma actividade que consiste em dar recados a este alunos para fazerem na rua, por exemplo comprar maçãs. “Vão em pequenos grupos, acompanhados por alunos do 4.o ano”, explica. “A ideia é que conheçam o bairro e se desenvencilhem.”
Segundo a psicóloga, se ao início os pais eram cépticos, hoje a maioria autoriza a aventura. Para Rita Jonet, só este tipo de intervenções permitirá que as crianças não cresçam só “grandes cabeças” com dificuldades sociais. “São crianças que vivem num mundo tão pequeno que por vezes, quando vamos a uma visita de estudo, sinto que se vêem alguém mais diferente têm uma reacção pouco natural, olham mais de lado”, diz a psicóloga, alertando para um contraconsenso de que por vezes os pais não se apercebem. “Dizem não a experiências que os podem fazer crescer mas para jogos, gadjets e horas de ir dormir muitas vezes não existem tantas limitações.”
Se o sedentarismo e a consequente epidemia da obesidade são perigos conhecidos, Mário Cordeiro chama também atenção para o lado humano.“A ecrã-dependência, o sedentarismo, o isolamento, a transformação das relações sociais em páginas de Facebook são uma pena não apenas pela parte física mas pela desumanização das crianças e pelo aumentar do hiato entre o ser humano e a Natureza e o exterior”, diz.
Mas se as razões espirituais não chegarem, que os pais pensem em coisas práticas. “Brincar no exterior ajuda muito a ter menos infecções, a ganhar defesas imunológicas e autonomia psicológica. Ajuda a crescer em todos os sentidos, enquanto estar sempre em casa, bloqueado num bunker, estiola e faz regredir, inclusivamente do ponto de vista intelectual.”