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Estrela da Amadora. Não tem equipa mas tem claque

Estrela da Amadora. Não tem equipa mas tem claque

04/03/2014 00:00

É no velhinho Estádio José Gomes que jazem as lembranças e as recordações de estrelistas e simples amadorenses. Hoje não há Estrela, clube do subúrbio lisboeta, mas continua a existir a claque e a paixão daqueles que faziam da Reboleira localde peregrinação dominical, numa altura em que parece surgir um herdeiro: o Clube Desportivo Estrela

Era na movimentada Avenida D. José I, no Estádio José Gomes, que, semanalmente, se reuniam os verdadeiros apaixonados pelo Estrela da Amadora. Ora para verem os jogos ao vivo quando a equipa jogava em casa, ora para acompanharem as deslocações do Estrela dentro dos cafés. Apesar da pouca assistência que invariavelmente se registava no estádio, a pouca massa adepta era feita de jovens fiéis e de idosos que se acostumaram a viver paredes-meias com o clube que lhes servia de distracção. A 29 de Setembro de 2009, o Tribunal de Sintra declarou o clube insolvente. As dívidas ultrapassavam os 11,5 milhões de euros. Os antigos sócios, treinadores e presidentes de bancada apontam a apropriação do clube para proveitos pessoais e a má gestão da última década como o grande mal de que o clube padeceu. A morte estava anunciada e o Estrela fez o seu último jogo de futebol de seniores a 2 de Maio de 2010, já na segunda divisão, zona sul. Estrela da Amadora 0 – 1 Real Massamá: final inglório.
Hoje o Estádio José Gomes está desfeito, numa liquidação por ordem do tribunal que trouxe o abandono total e completo: torniquetes repletos de lixo, uma montra desprezada com manequins seminus, vidros partidos, um campo de treinos que se assemelha a um deserto, holofotes ferrugentos e, no parque de estacionamento, um corredor de cobertores onde alguns sem-abrigo pernoitam. Através de uma grade ainda se vê uma das balizas, que vai sendo engolida pelas ervas daninhas.


Não há clube, mas há claque. A Magia Tricolor, claque oficial do clube da Amadora desde 2005, ainda se junta em tributos póstumos ao Estrela. Está tão viva que hoje em dia continua a lançar cachecóis e autocolantes de apoio ao Estrela e à própria Magia Tricolor. Mesmo com o clube arredado do panorama desportivo há quatro anos, o grupo de jovens que constituía a claque continua a encontrar-se regularmente para recordar tempos passados: “A Magia Tricolor há-de existir sempre, ainda estamos muitas vezes juntos, a conviver e a recordar os tempos passados.” Quem o diz é Marco Fernandes, líder da claque tricolor. Sim, líder, sem o “ex” atrás, porque, tal como o Estrela da Amadora, também a Magia Tricolor é imortal, na convicção de Marco. A claque começou como uma brincadeira de amigos durante uma aborrecida aula de Matemática, mas cedo perceberam que se impunha que fosse algo mais: “A maioria dos adeptos eram idosos e alguns jovens que se interessavam. A média de espectadores era a mais baixa da liga. Foi por isso que fizemos a claque”, explica Marco entre cigarros. Agora é a melancolia que o ocupa nos domingos à tarde: “Muitas vezes, à noite, estaciono o carro à frente do estádio e fico parado a olhar para os portões, a recordar as coisas que vivi naquele sítio.” Também na sua opinião foi a cidade que perdeu: “A Amadora ficou muito mais pobre, perdeu a sua referência no desporto. Também a zona do estádio ficou mais pobre, perdeu muita gente. Os jogos movimentavam muita gente em cafés, papelarias e restaurantes. Agora, nada.”


Não obstante, em vida, a história do Estrela é uma das mais ricas do futebol nacional. O ponto mais alto é a conquista da Taça de Portugal em 1990, com um triunfo por 2-0 na finalíssima contra – imagine-se – o Farense. Pela Reboleira passaram jogadores como Paulo Bento, Abel Xavier, Fernando e Varela. O lote de treinadores não fica atrás: Manuel Fernandes, Jesualdo Ferreira, Fernando Santos e Jorge Jesus são alguns dos nomes que treinaram a equipa. Mas a mais improvável personagem que passou pelo Estádio José Gomes terá sido Paula Coelho, antiga apresentadora do polémico programa da SIC Radical “Nutícias” – era a relações públicas dos estrelistas. E, já que se fala de histórias rocambolescas, relembre-se que o Estrela da Amadora recusou Ronaldinho Gaúcho no início da sua carreira por este ter exigido mil euros por mês.


O toque a reunir parece agora ter sido dado por António França e outros antigos sócios e adeptos fervorosos dos tricolores da Amadora, que, em Setembro de 2011, criaram o Clube Desportivo Estrela. António, enquanto adepto, era dos que iam a todos os jogos na Reboleira e aos que não fossem muito longe. “Leiria, ou Coimbra, por exemplo”, explica o agora presidente da direcção do Clube Desportivo Estrela. Também António França tem explicação para o que aconteceu com o antigo Estrela: “Má gestão. E o clube também vivia acima das suas possibilidades. Este clube faz uma falta enorme à cidade, era o seu embaixador.” Mas quando recorda o passado lembra sempre as coisas boas e um jogo em específico: “Um jogo em 2003, em Portimão, em que precisávamos de um empate para subir de divisão. Ao intervalo estávamos a perder 2-0 e na segunda parte demos a volta para 2-3. Foi uma grande emoção.” O jogo da Taça de Portugal em 1990 também não foi esquecido: “A taça foi uma festa magnífica na Amadora, a cidade estava de mãos dadas com o clube. Mas também é fácil, quando se ganha toda a gente quer aparecer na fotografia”, diz António com alguma angústia.
Hoje assiste ao jogo de iniciados do seu Clube Desportivo Estrela com a mesma emoção de antigamente e a derrota dos miúdos por 2-0 frente ao Cacém não o desmoraliza: “O CDE está pensado para que os miúdos cresçam aqui de escalão para escalão. Neste momento temos benjamins, infantis e iniciados. Para o ano talvez haja juvenis.” O futebol sénior está a ser pensado com resguardos: “Só podemos pensar em futebol sénior daqui a uns anos, quando estes miúdos crescerem.”


O Clube Desportivo Estrela é apelidado herdeiro do antigo Estrela não só por António França, mas também pelos adeptos mais atentos, como Marco Fernandes: “Desde o início que gostei do CDE, porque é o herdeiro natural do Estrela, mas essa herança é uma grande responsabilidade. Este clube é de sócios, o que faz toda a diferença.” A edificação deste clube assenta nos sócios e nos patrocínios possíveis. As ajudas quase nulas da autarquia e a falta de espaços para treinar são algumas das dificuldades para o desenvolvimento mais rápido do clube, como constata o presidente: “A falta de espaço é um constrangimento de que sofremos. Os miúdos têm de treinar no seminário de Alfragide, que é de futebol de sete, e jogam no Complexo Desportivo do Monte da Galega de vez em quando.”
O óbito de um dos clubes com mais tradição de Portugal não passou despercebido a ninguém, muito menos na Reboleira, onde todos os dias se chora a sua ausência. O aparecimento do novíssimo Clube Desportivo Estrela parece entusiasmar estrelistas e amadorenses, mas António França pede calma e paciência, até porque um clube não se levanta numa madrugada. E Marco vaticina: “Talvez daqui a dez anos vejamos o Estrela em alta outra vez.”

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