«Vim para ver o Gouveia e Melo». A frase repetia-se entre os muitos estudantes presentes quando questionados sobre o que motivou a sua vinda ao segundo dia da conferência “Pensar Portugal”, organizada pela SEDES Jovem, em parceria com a Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa (FDUL)
O congresso, que decorreu nos dias 24 e 25 de fevereiro, reuniu vários presidenciáveis, desde os já assumidos Marques Mendes e Mariana Leitão, aos putativos candidatos, António Vitorino, António José Seguro e Henrique Gouveia e Melo. Entre todos, foi o Almirante que atraiu as maiores atenções do eleitorado mais jovem.
Maria é um desses exemplos. A estudante de Gestão não hesita ao responder sobre qual a sua preferência de candidato para as presidenciais: «O Almirante!». Quanto aos motivos para ter vindo à conferência, refere que não se limitam a Gouveia e Melo. «É uma oportunidade de ouvir as vozes políticas presencialmente, sem ser pela televisão. Há temas interessantes, como as politicas de migração, que é um tema tão atual e importante hoje em dia».
Já para Constança, estudante do primeiro ano de Direito da FDUL, o voto vai «seguramente para Marques Mendes», mas não quis perder a oportunidade de conhecer os outros potenciais candidatos às presidenciais e de «assimilar as suas ideias».
«Também como aluna de Direito, os temas em debate suscitam-me bastante interesse, como a imigração e o Direito Europeu», acrescenta.
Os olhares atentos das dezenas de estudantes presentes nesta iniciativa parece por momentos contrastar com a tendência de elevada abstenção entre os jovens nos momentos eleitorais. Na segunda fila da sala, de bloco de notas na mão, Mafalda Monteiro não esconde o entusiasmo com o evento. «Eu estou a adorar! Em primeiro lugar, mostra que aquela ideia de que os jovens não estão interessados na política, é mentira. Estão todos aqui. A sala está cheia», afirma a estudante do último ano do curso de Ciências da Comunicação da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas. «Vim muito por causa das pessoas que participam nos painéis», acrescenta a jovem, que admite já ter um candidato escolhido, sem querer avançar nomes.
SALA CHEIA PARA VER GOUVEIA E MELO
Entre jovens decididos e muitos curiosos, há também quem admita estar indeciso e querer tirar as teimas «até ao fim da conferência». É o caso de Gonçalo, estudante no curso de Gestão, que admite estar dividido entre Gouveia e Melo e Marques Mendes. «São ambos excelentes candidatos. Conhecê-los em primeira mão é uma ótima oportunidade para ter um voto mais consciente. Gouveia e Melo é uma pessoa mais reservada, por isso também é bom conhecê-lo pessoalmente».
Se dúvidas houvesse quanto ao centro das atenções no evento, a sala, que começou relativamente cheia, ficou a “abarrotar” – de jovens e jornalistas – à chegada de Gouveia e Melo para participar no painel “O Papel de Portugal no Mundo”.
Como seria de esperar, o Almirante não deu qualquer pista sobre uma possível candidatura, mas avançou com algumas ideias no debate com Marcos Perestrello, moderado por Maria Castello Branco.
Um dos pontos que esclareceu foi que «não devemos cortar no Estado Social», admitindo que retirar uma pequena fatia para investir na Defesa ou indústria militar não seria prejudicial. «Nós gastamos cerca de 64% a 65% da despesa do Estado na área social, se gastarmos 64,5% o Estado social não cai no dia seguinte», defendeu.
Comparando o Estado Social e a Defesa a «canhões e manteiga», o Almirante sublinha que, na sua visão de Estado, não existe um sem outro. «Canhões ou manteiga é uma dicotomia que se quer fazer passar, mas é canhões e manteiga. Neste caso, os canhões para proteger a manteiga e a manteiga para sustentar as pessoas que estão a tratar dos canhões».
Vitorino quer falar de imigração «sem tabus»
Outro dos oradores presentes e potencial candidato pelo PSàs presidenciais foi AntónioVitorino, que participou no painel “Que futuro para as Políticas Migratórias?”. Sobre o tema, Vitorino começou por desmistificar algumas ideias relativas aos imigrantes: «Se queremos pensar em Portugal sem tabus, temos de pensar nas migrações. Temos de acabar com essa fantasia de que os imigrantes vêm para cá viver à custa do Estado. Os imigrantes vêm para trabalhar».
«Há a tentação populista de fazer dos imigrantes o bode expiatório de todos os problemas do país. É uma forma preguiçosa, demagógica e fácil de não resolvermos os nossos próprios problemas», critica.
À margem da conferência, Vitorino prometeu para «breve» o anúncio de uma decisão sobre eventual candidatura à Presidência da República. «Quando for suará, mas estará para breve. Não quero criar nenhum suspense à volta, estive a ponderar, estou à beira de tomar uma decisão, o que for será», afirmou.
AS «BOAS VINDAS» DE MARQUES MENDES AO ALMIRANTE
No primeiro dia do evento, Luís Marques Mendes, já tinha dado as «boas vindas à maratona presidencial» a Gouveia e Melo, após ser questionado pelos jornalistas sobre o artigo do militar no semanário Expresso – no qual Gouveia e Melo critica que um Presidente tenha ligações aos partidos.
«Vi-o como uma declaração de candidatura à presidência da República e, por isso, saúdo Gouveia e Melo por essa declaração de candidatura», afirmou Marques Mendes, à saída da conferência na qual foi orador.
Já Gouveia e Melo, não confirma, nem desmente. «Darem-me as boas-vindas não significa que tenha chegado à campanha. Os candidatos podem dizer o que bem quiserem, isso não me vai influenciar», sublinhou o putativo candidato à saída da conferência. Diz «ainda ter muito tempo para pensar», mas o certo é que, mesmo sem candidatura assumida, nem grandes aparições públicas, parece conquistar cada vez mais eleitorado, entre miúdos e graúdos.