Aguiar-Branco alerta que “corremos o risco de só ficar com políticos sem interesse algum”

Aguiar-Branco alerta que “corremos o risco de só ficar com políticos sem interesse algum”


“Criou-se em Portugal um terreno armadilhado na discussão sobre o estatuto dos titulares de cargos políticos”


O presidente da Assembleia da República (AR) alertou esta terça-feira para o risco de Portugal ficar só com políticos sem interesse nenhum. Aguiar-Branco sugeriu uma mudança de regras e mentalidades por ocasião dos 50 anos das primeiras eleições livres.

Na sua intervenção na abertura de uma conferência sobre “O estatuto dos titulares de cargos políticos – cinco anos depois”, o presidente da AR considerou que a política portuguesa “precisa de mobilizar os académicos mais capazes, os profissionais mais qualificados” e “os representantes mais adequados para os diferentes interesses que existem na sociedade”.

“Escolho a palavra interesses propositadamente. Os deputados devem mesmo defender interesses: os das suas terras e regiões, os de uma classe profissional, comunidade ou setor, os interesses dos agricultores ou dos professores. É o conjunto dos interesses que constitui o interesse nacional”, sustentou.

“Quando estamos, por demagogia, inveja ou maledicência, demasiado preocupados com os interesses dos políticos, corremos o risco de só ficar com políticos sem interesse algum”, avisou Aguiar-Branco. 

Na sala do Senado, no Parlamento, o antigo ministro social-democrata admitiu que esta posição seja polémica e impopular, mas, na sua perspetiva, “criou-se em Portugal um terreno armadilhado na discussão sobre o estatuto dos titulares de cargos políticos”.

“Não só pelas leis, mas sobretudo pelo ambiente mediático que se criou. Um ambiente de suspeição face aos políticos, sem cuidar do que é trigo e do que é joio, degradando, por falta de rigor, o sentido nobre da função. Um ambiente que, tantas vezes, parece querer cobrar dos políticos um grau de transparência que visa apenas o voyeurismo e não o escrutínio sério de que serve a causa pública”, criticou.

Neste contexto, o presidente da Assembleia da República, de acordo com a agência Lusa, fez uma proposta para combater um ambiente que “presume que todos são suspeitos e potenciais culpados” e que inverte o ónus da prova.

“Celebramos, neste ano, os 50 anos das primeiras eleições livres. É uma excelente ocasião para homenagear os nossos primeiros deputados, os fundadores do regime democrático. Mas também é tempo de pensarmos no futuro, de mudarmos regras e mentalidades, para que volte a ser possível recrutar os melhores para a política”, defendeu.