Agora é de vez, não há lugar a mais erros nem desculpas: o Benfica tem de começar a arrepiar caminho na Liga dos Campeões, e isso significa vencer já esta noite em Atenas, na visita ao terreno do AEK. Os ares gregos, na verdade, trazem boas memórias recentes para os encarnados: foi a mais ou menos 500 quilómetros de distância do Oaka Spiridon Louis que as águias derrubaram o PAOK (1-4), em Salónica, e lograram o apuramento para esta fase de grupos.
A primeira ronda foi pouco mais do que um treino, um daqueles cenários onde já se sabe à partida o desfecho. O Bayern é uma das equipas mais fortes do mundo e ainda por cima apostou no fator emocional: a titularidade de Renato Sanches que provocou um baque instantâneo nas hostes encarnadas e o golo do médio da Musgueira cravou a faca decisiva no peito da águia. Mas essa derrota, já se disse, era esperada.
O problema são as outras sete que vinham de trás – nomeadamente as seis concedidas na época passada, no que foi a pior prestação de sempre de uma equipa portuguesa na Europa. É esse fardo que Rui Vitória terá de começar a pôr de lado já a partir desta noite: por muito que o treinador lembre as boas prestações de 2015/16 (quartos de final) e 2016/17 (oitavos), a verdade é que é a última imagem que fica – e essa é a do ano passado.
Um triunfo em Atenas atenuaria as críticas, que voltaram a subir de tom após o doloroso empate concedido nos últimos instantes da partida em Chaves. Constituiria igualmente um tónico motivacional de proporções gigantescas para o clássico do próximo domingo, frente ao FC Porto – mais um teste de fogo para o treinador encarnado, que ainda nunca venceu os dragões: em 19 confrontos, o melhor que conseguiu foram sete empates (três deles no Benfica, com outras tantas derrotas). Além, claro, das próprias contas europeias: sendo expectável que o Bayern supere o Ajax em Munique, as águias marcariam território na luta pelo segundo lugar. Qualquer outro desfecho… significará mais dores de cabeça.
Passado é museu Rui Vitória, já se sabe, não se perde no discurso. O treinador do Benfica raramente profere afirmações bombásticas ou polémicas, preferindo refugiar-se em ideias simples e muito concretas. Na antevisão a este encontro, o tom foi exatamente esse. “Não ligo a questões de favoritismo. Estamos a falar de um jogo de Liga dos Campeões, as duas equipas querem ganhar o jogo. O AEK joga em sua casa e está a fazer um início de temporada positivo, e nós olhamos para o jogo contra um adversário com valor. E nós também temos, sabemos o que valemos, conhecemos os nossos argumentos e temos de os colocar em campo para ganhar o jogo. O resto é conversa”, disparou, desvalorizando a questão da série de oito derrotas consecutivas na prova: “Eu olho para o presente. E o presente mostra-me uma equipa que fez quatro jogos difíceis na Liga dos Campeões [qualificação] e que depois perdeu um jogo com o Bayern Munique. Já ganhámos as duas eliminatórias desta época e é isso que importa. O passado vale o que vale.”
Para este encontro, o treinador do Benfica está privado de Jardel e Gabriel, que se lesionaram ambos em Chaves. Mais do que uma contrariedade, Rui Vitória vê uma “oportunidade” para quem os substituir. “O azar de uns é o momento para outros começarem uma época e uma carreira dentro de um clube. É isso que se vai passar e estamos perfeitamente tranquilos”, garantiu o técnico, revelando ainda que Salvio está totalmente recuperado e apto para dar o contributo à equipa.
Do lado do AEK, derrotado na Holanda por concludentes 3-0 frente ao Ajax, a confiança está em alta… em relação ao adversário. André Simões, médio português que desempenha as funções de subcapitão do conjunto grego, acredita que o Benfica está a atravessar uma “fase difícil” e espera conseguir capitalizá-la em seu benefício. “Não espero um adversário mais cauteloso, mas está numa fase mais difícil. Depois do empate em Chaves tem este jogo aqui, e depois um clássico importante. É uma fase mais crítica da época, até pela saída do Luisão, que era um jogador importante, e também a lesão do Jardel. Mas não penso que vamos ter facilidades. O Benfica tem bastante força e está habituado a estas fases. Mas agora está numa fase menos boa, e pode ser algo para o AEK aproveitar”, frisou o ex-jogador do Moreirense, emblema pelo qual foi expulso na última vez que defrontou o Benfica.
“Já estava à espera que lembrassem isso. Não há qualquer ajuste de contas. Quero ganhar ao Benfica, como quero ganhar qualquer outro jogo. Mais importante do que o meu caso é a equipa vencer, pois temos de fazer algo mais nesta prova. Estamos aqui para conquistar pontos também. Sabemos as dificuldades, mas queremos algo mais”, salientou André Simões, assinalando uma vontade ainda maior de vencer o encontro para dedicar o triunfo ao colega Hélder Lopes: o lateral-esquerdo português já ia falhar o jogo por castigo, mas na última jornada da liga grega sofreu uma lesão grave que o vai afastar da competição por vários meses.
Para Marinos Ouzounidis, técnico do AEK, não há volta a dar: seja como for, é para ganhar perante um Benfica “com muitos jogadores jovens e, por isso, com pouca experiência nas competições europeias”. “Ainda têm trabalho pela frente”, apontou, embora frisando a qualidade dos encarnados no contra-ataque e no jogo pelas alas.